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Campo Grande, Terça-feira, 24 de Setembro de 2019

23/08/2019 07:58

Mercearia sobrevive no Santa Fé há 36 anos e ainda vende fiado

O investimento foi um sonho de Roberto Carlos Carmo que veio de São Paulo e apostou no comércio para garantir futura da família

Alana Portela
Mercearia sobrevive no Santa Fé há 36 anos e ainda vende fiado
Roberto Carlos Carmo verificando o que precisa comprar para mercearia (Foto: Alana Portela)Roberto Carlos Carmo verificando o que precisa comprar para mercearia (Foto: Alana Portela)

Sem muito movimento atualmente, a Mercearia e Açougue Santa Fé é do tipo que parou no tempo. Sobrevive há 36 anos em Campo Grande, no mesmo lugar, como o sonho de Roberto Carlos Carmo que chegou na Capital em 1983, em busca de um futuro melhor para família. Era a novidade da época, e encomendava produtos de outros estados para se destacar da concorrência.

“Nosso produto tinha uma qualidade melhor que as mercadorias encontradas em outros comércios. Fazia as encomendas de São Paulo, pois as empresas de lá estavam explorando aqui. Escolhia tudo a dedo e depois traziam no caminhão. Antes éramos bem procurados”, conta Roberto.

Ele é paulista, tem 74 anos, e resolveu investir em Campo Grande após romper uma sociedade no estado onde morava. “Tinha outro tipo de comércio. Mexia com adubo e inseticida, mas paramos por lá. Então, preferi vir pra cá porque tinha um cunhado aqui, seria nosso ponto de apoio”.

Quando chegou, começou a estudar o que deveria fazer para dar um futuro melhor à esposa, Nereide e aos três filhos. “Tinha as crianças. Pensei em três tipos de investimentos, abrir um posto de combustível, um hotel pernoite ou um mercado. Fui atrás dos três, sondei a região e por coincidência paramos nesse ponto aqui. Achei mais viável montar uma mercearia para o capital que eu tinha”, lembrou.

Na época, o bairro não era tão desenvolvido. “Lembro que era ermo. Tinha duas fazendas aqui, uma chamada Autonomista e outra Orsi. Nos fundos [do quarteirão] era um corredor de gado e tinha um frigorífico polonês próximo. Tinha algumas casas, e o nome do bairro já era Santa Fé”, recorda Roberto.

Roberto na mercearia ao lado da esposa Nereide Carmo (Foto: Alana Portela)Roberto na mercearia ao lado da esposa Nereide Carmo (Foto: Alana Portela)

Foram uns meses preparando tudo para inauguração. Apesar de não ser formado em Administração, soube trabalhar com os recursos do bolso. “Não tinha experiência nenhuma na área, mas a gente não é bobo. Quando cheguei aqui já tinha um mercado na região e outros comércios pela cidade, me espelhei nos outros e fui fazendo. O negócio é ter jogo de cintura”, recomenda.

Roberto voltou para São Paulo, comprou sete prateleiras, dois caixas e freezer para colocar as carnes, já que também trabalharia com açougue. Adquiriu um expositor refrigerado para as hortaliças, balanças e outros itens fundamentais. “Coloquei os alimentos, doces, bebidas, vinhos importados para vender”.

A estrutura, na época, era grande e Roberto contratou sete funcionários para atender a demanda. “Depois enxuguei e deixei apenas três, pois percebi que o mesmo serviço poderia ser feito por três”.

A decoração também foi ele quem escolheu. “Acho lindo a cor da bandeira do Brasil, por isso fiz a fachada de verde, amarelo, azul e branco. Espalhei algumas bandeirinhas do país no lado de fora e aqui dentro. Coloquei as letras em cima e holofotes que acendiam à noite para chamar atenção e se diferenciar os outros. Durante as datas comemorativas enfeitávamos o local”, lembra.

Hoje, os holofotes são ligados de vez em quando. Também já não vende mais os importados e parou com o açougue. As portas, com a tinta descascada, ainda são corrediças de metal. Instalou duas rampas de acesso e chumbou um banco de ferro no chão. “As minhas clientes vinham muito ai, ficavam sentadas conversando. Hoje, de vez em quando, ainda vem”. 

TV de tubo antiga é ligada quando os clientes chegam (Foto: Henrique Kawaminami)TV de tubo antiga é ligada quando os clientes chegam (Foto: Henrique Kawaminami)
Expositor refrigerado com mercadorias à venda (Foto: Henrique Kawaminami)Expositor refrigerado com mercadorias à venda (Foto: Henrique Kawaminami)
Prateleira com papel higiênico e produtos de limpeza (Foto: Henrique Kawaminami)Prateleira com papel higiênico e produtos de limpeza (Foto: Henrique Kawaminami)
As frutas ficam expostas para serem compradas (Foto: Henrique Kawaminami)As frutas ficam expostas para serem compradas (Foto: Henrique Kawaminami)
Promissória para as compras fiadas (Foto: Alana Portela)Promissória para as compras fiadas (Foto: Alana Portela)

Inauguração - Estava tudo certo para a inauguração, até que chegou o grande dia, em abril daquele ano. Tudo deu certo, venderam bem e ao final do expediente fecharam as portas, guardaram o valor conseguido e foram pra casa. Empolgados, voltaram para trabalhar no dia seguinte e veio a surpresa. “O primeiro assalto. Arrombaram o cofre e levaram algumas mercadorias”, contou o dono.

De lá para cá, os ladrões não deram trégua. “Fomos assaltados 15 vezes. O ladrão já entrou aqui, rendeu minha família e funcionários, ficamos sob a mira de um revólver. O indivíduo vinha numa moto e fez 35 assaltos na região. A nossa norma é não reagir a nada, a gente entrega o que for, pois vão se os anéis e ficam-se os dedos”.

Mas nem o medo mudou a rotina. Desde que a mercearia abriu, os dias de funcionamento são de domingo a domingo. De segunda a sábado das 7h30 às 19h e aos domingos das 8h às 12h30.

Pimentão verde a mostra na cesta com o preço no papel sulfite e verduras e legumes embalados (Foto: Henrique Kawaminami)Pimentão verde a mostra na cesta com o preço no papel sulfite e verduras e legumes embalados (Foto: Henrique Kawaminami)
Os produtos nas prateleiras são diversificados e no teto uma bandeira do Brasil informa que é o corretor dos materiais domésticos (Foto: Henrique Kawaminami)Os produtos nas prateleiras são diversificados e no teto uma bandeira do Brasil informa que é o corretor dos materiais domésticos (Foto: Henrique Kawaminami)

Às moscas - A região foi crescendo e novos comércios, como supermercados, foram surgindo. Isso fez o estabelecimento de Roberto perder um pouco da clientela. Contudo, os clientes fiéis nesses 36 anos ganharam o privilégio de comprar fiado. “São os meus clientes especiais, que compram comigo há mais de dez anos. Eles assinam uma promissória e pagam depois, assim conquistam o crédito”, explica.

Roberto relatou que o comércio de tantos anos fez com que fizesse amizades. “A gente conhece e vai sabendo da rotina dos clientes, da vida, trabalho. Tem gente que vinha aqui quando era criança e hoje traz o filho. Tem os que a gente sabe que passou no vestibular, que entrou pra faculdade, que se formou. Virou uma família”, afirma. “Tem cliente aqui que vem mais para conversar, e fica até duas horas batendo papo”.

O trabalho é pesado e a rotina corrida. Todos os dias ele vai à Ceasa (Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul) comprar hortaliças frescas para vender. Pela manhã, usa uma salinha aos fundos da mercearia como escritório para lançar as compras no sistema e administrar as contas. Enquanto está por lá, é Nereide quem comanda os trabalhos no local.

Em um dos cantos da mercearia tem inseticida, refrigerantes, produtos de limpeza e bebidas alcoólicas (Foto: Henrique Kawaminami)Em um dos cantos da mercearia tem inseticida, refrigerantes, produtos de limpeza e bebidas alcoólicas (Foto: Henrique Kawaminami)

A forma de trabalhar continua do mesmo jeito quando começaram. Eles separam as mercadorias e, com um papel sulfite em branco, marcam o preço dos produtos para as vendas. Enquanto escolhem o que vão levar, os clientes podem assistir na TV de tubo antiga, instalada em um pilar do mercado.

Já que resolveram investir em um negócio próprio, o casal teve de abrir mão do descanso para educar os filhos. “Hoje eles estão formados, dois dentistas e um farmacêutico. Fazem uns 15 anos que não sabemos o que são férias”, contou o marido.

Da última vez que viajou, foi porque ganhou a passagem dos filhos. “Fomos para praia em Natal e chegamos a fazer três outras viagens. Mas agora somos tão condicionados. Estou tão acostumado que se parar entro em depressão. A não ser que eu encontre um hobby, que seja uma compensação”, declarou.

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A fachada do local continua a mesma desde 1983 (Foto: Henrique Kawaminami)A fachada do local continua a mesma desde 1983 (Foto: Henrique Kawaminami)
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