Crochê virou refúgio aos 14 anos e levou peças de Ana até a Alemanha
Depois de aprender a bordar panos de prato para ajudar a mãe, artesã transformou o talento em profissão

O que começou com uma agulha, linhas e a necessidade de ajudar a mãe virou uma história de superação, criatividade e amor pelo artesanato. Ana aprendeu a fazer crochê aos 14 anos, quando perdeu o pai e viu a família enfrentar dificuldades financeiras. Hoje, depois de mais de 30 anos, ela tem a própria loja em Campo Grande, cria roupas sob medida e já viu uma de suas peças atravessar o oceano e chegar até a Alemanha.
RESUMO
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Ana aprendeu crochê aos 14 anos, em 1994, para ajudar a mãe após a morte do pai. Hoje, aos mais de 30 anos de ofício, comanda a Boutique do Crochê, aberta há dois anos no Bairro Coronel Antonino, em Campo Grande. Estudante de Psicologia e formada em design de moda, cria roupas sob medida, amigurumis e itens de decoração, e já vendeu uma peça para a Alemanha. A loja aceita encomendas pelo WhatsApp e pelo Instagram.
A história começou em 1994, quando a mãe de Ana voltou do trabalho com uma sacola cheia de panos de prato e uma tarefa para a filha. “Ela falou: ‘Arrumei um serviço para você’. Eu perguntei o quê, e ela disse que eu ia fazer biquinho de crochê nos panos de prato da patroa. Eu nem sabia o que era crochê”, relembra.

Sem nunca ter aprendido a técnica, Ana começou a tentar. Os primeiros pontos saíram tortos, com espaços desiguais e acabamentos que ela mesma considerava feios. Mas a mãe enxergou beleza naquele esforço. “Um espaço ficava grande, outro ficava pequeno, uma coisa ficava feia. Mas para ela aquilo era lindo. Aí ela mostrou para a patroa, que gostou. Depois disso, nunca mais parei”, conta.
A atividade também se tornou uma maneira de lidar com a perda do pai e com as dificuldades daquele período. Ana conta que a mãe tinha medo de que ela seguisse caminhos que pudessem prejudicar seu futuro. Ao encontrar no artesanato uma oportunidade de trabalho, a adolescente descobriu também algo que levaria para a vida inteira. “Eu acho que aprendi crochê pela necessidade e por ver o sofrimento da minha mãe”, diz.

Com o passar dos anos, os panos de prato deram lugar a peças mais elaboradas. Ana passou a bordar aventais de vinho que eram enviados para a Itália, começou a trabalhar com roupas e desenvolveu o hábito de criar os próprios modelos. A paixão pelo desenho também a levou a estudar design de moda, formação que concluiu para aperfeiçoar a criação de peças exclusivas.
Hoje, ela não depende de receitas prontas para produzir as encomendas. Quando uma cliente aparece com a fotografia de uma roupa, Ana desenvolve o próprio gráfico e transforma a referência em uma peça personalizada. “Eu nunca pego o gráfico da outra pessoa. Eu faço o meu gráfico, estudei para isso. A pessoa traz o modelo da foto, da roupa que ela quer, aí eu desenvolvo um gráfico exclusivo”, explica.
O sonho de ter uma loja própria saiu do papel há dois anos, com uma pequena transformação dentro de casa. O espaço que antes era o jardim do marido ganhou paredes, prateleiras e muitas peças coloridas. “Eu sempre sonhei em vender crochê. Aí falei para ele que queria um lugar para vender. Ele fechou o jardim e eu coloquei minha lojinha aqui”, conta.

O nome também surgiu de uma conversa entre o casal. Ana pensou em chamar o espaço de Boutique da Clotilde, nome do qual sempre gostou, mas o marido sugeriu algo que tivesse mais relação com o trabalho. “Eu ia colocar Boutique da Clotilde, mas o que Clotilde tem a ver com crochê? Aí meu marido falou: ‘Vamos colocar Boutique do Crochê’. Foi assim, uma brincadeira”, relembra.
Na Boutique do Crochê, localizada no Bairro Coronel Antonino, há peças para praticamente todos os gostos. Ana produz vestidos adultos e infantis, jardineiras, roupas para bebês, tapetes, sousplats, chinelos bordados e os famosos amigurumis, bonequinhos feitos de crochê. Entre as criações, há personagens infantis, bichinhos e até uma boneca feita com linha que brilha no escuro.
Apesar da variedade, as roupas infantis estão entre os produtos mais procurados. A artesã faz tudo com as próprias mãos e também aceita encomendas personalizadas. “Faço tudo sozinha. Tudo que é tipo de roupinha a gente vai fazendo. Faço adulto, infantil, menino e menina”, explica. O trabalho é tão presente na rotina que até a mochila da faculdade carrega linhas e peças inacabadas.


Arte como terapia - Atualmente, Ana cursa Psicologia e conta que o crochê continua sendo sua principal forma de relaxar.
“O crochê é uma terapia para mim. Eu faço desde 1994, quando perdi meu pai. Nunca mais parei. Todos os dias eu tenho que fazer. E no dia que eu não faço, meu marido não me aguenta”, brinca. Ela conta que já produziu roupas enquanto estava na faculdade, aproveitando os momentos livres para adiantar as encomendas.
Uma das maiores alegrias veio recentemente, quando ela vendeu um cachorrinho de crochê para a Alemanha. Para Ana, saber que uma criação feita em sua pequena loja chegou tão longe foi motivo de orgulho, principalmente pela reação da mãe. “Quando eu vejo minha mãe sorrir porque vendi uma peça, quando vejo ela pular e me abraçar de alegria, aquilo me dá vontade de fazer sempre o melhor”.

Mesmo depois de tantos anos, cada peça pronta ainda traz a lembrança dos primeiros panos de prato e da mãe que acreditou em seu talento. “Quando vejo a pessoa vestida com uma roupa que eu fiz, é um sentimento de gratidão. Eu agradeço muito a Deus pelo dom da sabedoria, de querer fazer coisas novas, diferentes”, afirma.
Ana também conta que o crochê faz parte de sua vida até nos momentos mais simples da rotina. Apaixonada por criar peças, ela não sai de casa sem levar linhas e agulhas. Na faculdade de Psicologia, costuma aproveitar os intervalos para adiantar o trabalho. Um dos conjuntos amarelos vendidos na loja, por exemplo, ganhou forma enquanto ela estava na faculdade.
Mãos no crochê - A relação com o artesanato começou com pequenos serviços, mas logo ganhou novos caminhos. Antes de abrir a boutique, Ana produzia roupas de batizado e vendia suas criações em casa. Quando morava no interior, também conseguia clientes na região. Com o tempo, passou a investir em modelos mais elaborados e decidiu estudar design de moda para aprender a desenvolver os próprios gráficos.
Confira a galeria de imagens:
Entre as peças que mais chamam a atenção na loja estão os amigurumis, bonecos de crochê que ganham diferentes formatos e personagens. Ana também produz polvos, sapatinhos de bebê e vestidos inspirados em personagens infantis, como a Branca de Neve. Uma das criações tem um detalhe curioso: a linha fluorescente faz com que a aparência do vestido mude no escuro.
A artesã também gosta de explorar a criatividade na decoração. Na loja, há mandalas e uma peça de Nossa Senhora Aparecida feita por ela. Devota da santa, Ana decidiu incluir a imagem entre suas criações. O espaço reúne ainda artigos para casa, como tapetes, sousplats e peças decorativas, além das roupas que continuam sendo seu principal produto.
Para Ana, o reconhecimento dos clientes vai além do dinheiro que recebe pelas encomendas. Ela conta que gosta especialmente de ver alguém usando uma roupa feita por suas mãos. O resultado representa todo o trabalho de escolher os pontos, desenvolver o modelo e transformar a ideia em uma peça exclusiva. “Quando eu vejo a pessoa vestida, aquilo é um sentimento de gratidão, sabe? Principalmente a Deus”, afirma.

O carinho pela mãe também aparece em cada nova criação. Ana diz que, mesmo depois de tantos anos, continua lembrando da mulher que levou os primeiros panos de prato para casa e acreditou no trabalho da filha. “Mãe, todas as peças que eu faço no crochê, a senhora pode ter certeza de que eu penso na senhora”, conta sobre o que costuma dizer a ela.
Serviço – A Boutique do Crochê fica na Rua Francisco José Abrão, nº 608, no Bairro Coronel Antonino, em Campo Grande. A loja trabalha com encomendas de roupas e acessórios para adultos e crianças, além de artigos de decoração. Os pedidos e orçamentos podem ser feitos pelo WhatsApp (67) 98432-4689 ou pelo Instagram @butiquedocrochecg. O estabelecimento aceita Pix, cartões de débito e crédito, com parcelamento em até 6 vezes.
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