Garapa, coco e “fazendinha” fazem Pedro recomeçar aos 71 anos
Depois de fechar conveniência na pandemia, aposentado abriu novo negócio onde cultiva cana e recebe famílias

Quem passa pela Avenida Lúdio Martins Coelho pode até pensar que encontrou apenas mais uma conveniência, mas basta olhar com atenção para perceber que o espaço tem um charme diferente. Aos 71 anos, Pedro Gonçalves transformou um terreno em seu novo ponto de trabalho, cercado de plantas, cana-de-açúcar e produtos para todos os gostos. O comércio se chama Pegomix, mas ganhou outro apelido entre as crianças da região: “fazendinha”.
RESUMO
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Aos 71 anos, o aposentado Pedro Gonçalves recomeçou a vida no comércio ao abrir a Pegomix, na Avenida Prefeito Lúdio Martins Coelho, no Núcleo Habitacional Buriti. Ex-motorista da Fundação Bradesco e antigo comerciante no Bairro Bom Jardim, ele vende salgados, pão de queijo e caldo de cana feito com cana plantada por ele. O espaço, cercado de plantas, é chamado de "fazendinha" pelas crianças. O local abre das 4h às 19h, todos os dias.
A história começou com um recomeço. Pedro trabalhou como motorista durante muitos anos, inclusive por uma década na Fundação Bradesco, onde ingressou em 1977. Também foi comerciante por 18 anos na Rua Capixaba, no Bairro Bom Jardim, mas precisou fechar as portas durante a pandemia. “Lá onde eu tinha meu comércio, fracassou demais. A rua morreu”, relembra.

Sem querer ficar parado durante a aposentadoria, decidiu apostar novamente no comércio. Ele já tinha comprado o terreno onde hoje funciona a Pegomix, mas costumava alugá-lo. Foi então que resolveu assumir o espaço e abrir o próprio negócio. “Eu me aposentei, aí falei: ‘Ah, vou abrir um negócio’. Aí eu abri e estou aqui hoje”, conta.
Há dois anos no novo endereço, Pedro encontrou uma realidade diferente daquela que deixou para trás. Segundo ele, o movimento de veículos e pessoas é maior, o que ajuda nas vendas. “Aqui tem mais movimento, tem uma clientela bem melhor do que lá. Lá foi muito bom antes da pandemia, mas depois...”, diz, lembrando das dificuldades enfrentadas por comerciantes naquele período.
A disposição para trabalhar chama a atenção. Pedro chega ao estabelecimento por volta de 1h da madrugada para organizar tudo antes de abrir as portas, às 4h. O expediente segue até as 18h ou 19h. A rotina começa cedo porque ele precisa preparar os salgados, descongelar os produtos e assar o pão de queijo antes da chegada dos primeiros clientes.
E os primeiros fregueses têm horário certo. São motoristas que passam pela região ainda de madrugada e aproveitam para tomar café. “Eles passam por aqui e param. Aí eu vou querer deixar eles em vão?”, brinca Pedro, explicando por que faz questão de abrir tão cedo.

Nas prateleiras e nos balcões, tem um pouco de tudo. Pedro vende salgados, pão de queijo, refrigerantes, sorvetes, água de coco, garapa e até produtos de limpeza. O pão de queijo e a esfirra custam R$ 3 cada, enquanto a água de coco e o caldo de cana saem por R$ 10. “Meus preços aqui eu procuro seguir o concorrente. Porque, se eu vender mais caro, eles não vêm”, explica.
Mas o caldo de cana tem um detalhe especial. Antes mesmo de abrir o comércio, Pedro decidiu plantar a própria matéria-prima. Ele conta que mantém 5 terrenos com cana-de-açúcar e que aprendeu com o pai a importância de observar as fases da lua durante o plantio. Nem sempre, porém, conseguiu seguir os ensinamentos.
Em uma tentativa de ampliar a produção, plantou cana em uma chácara de aproximadamente 1 hectare, mas perdeu a plantação por causa de uma infestação de brocas. Pedro acredita que o problema também tenha relação com a época escolhida para plantar.
Confira a galeria de imagens:
“Meu pai sempre falava isso e é verdade. Tem que seguir”, afirma. Ele reconhece que também faltaram cuidados com a lavoura. “Deus cuida, mas também nós temos que fazer a nossa parte".
A ligação com a natureza não ficou restrita à produção de garapa. Pedro também plantou cana no entorno do comércio e conta que o espaço chegou a receber visitas de capivaras. Para evitar que os animais danificassem a plantação, instalou uma cerca. “Eu fiz uma cerca, mandei fazer uns pilares e fui parafusando. Cerquei com tela e aí elas não entraram mais”, recorda.

Hoje, parte da cana que cresce no terreno fica à disposição de quem quiser levar um pedaço para casa. Pedro diz que não se incomoda quando moradores pegam alguns talos, mesmo sem pedir autorização. A vegetação também virou atração para as crianças, que passaram a chamar o lugar de fazendinha. “Eles falam para os pais deles: ‘Pai, vamos na fazendinha?’”, conta, orgulhoso do apelido.
Apesar da rotina puxada, Pedro não demonstra vontade de abandonar o balcão. O comerciante diz que prefere manter o ambiente familiar e evita incentivar o consumo de bebidas alcoólicas nas mesas, principalmente pelo movimento de veículos nas proximidades.
Entre o café servido de madrugada, a garapa elogiada pelos clientes e a cana que cresce ao redor, ele encontrou uma maneira de continuar trabalhando. “Foi um recomeço”, finaliza.

Serviço – Quem quiser conhecer a conveniência do seu Pedro pode visitar o estabelecimento de segunda-feira a domingo, das 4h às 19h, na Avenida Prefeito Lúdio Martins Coelho, nº 794, no Núcleo Habitacional Buriti.
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