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Artes

De gosma até angústia, público ‘experimenta’ deficiência visual

Peça “O que os olhos veem, o coração sente?” foi encenada na sexta-feira e terá nova apresentação hoje

Aletheya Alves | 01/10/2022 07:42
Público da peça foi vendado para participar do espetáculo. (Foto: Alex Machado)
Público da peça foi vendado para participar do espetáculo. (Foto: Alex Machado)

Precisando passar por um túnel com o piso tátil sujo de material gosmento e, com olhos vendados, é necessário conseguir andar entre barulhos e sensações estranhas até receber ajuda para chegar ao assento. É assim, tentando dar uma pequena experimentação da deficiência visual, que a peça de teatro “O que os olhos veem, o coração sente” recebe o público para 1 hora de espetáculo.

Em sua segunda temporada, a peça foi encenada no Sesc Cultura nesta sexta-feira (30) e terá mais uma noite de experiências hoje, no mesmo local. Narrando sobre o formato do espetáculo, o diretor da peça, Alexandre Melo, conta que o objetivo é realmente falar sobre o mundo de pessoas com deficiência visual usando de experiências sensoriais.

“A ideia é deixar todo mundo num mesmo lugar de expectativa. Assistindo o espetáculo no mesmo ângulo de uma pessoa com deficiência visual. Durante as cenas, várias interferências acontecem para dar o sentido que a pessoa estava ambientada e fazendo parte do espetáculo”, explica Alexandre.

Encenado no pátio do Sesc, todo o ambiente foi preparado para receber o público e iniciar as experimentações sensoriais antes da peça em si ser encenada. Ao se aproximar do ambiente, cada pessoa recebe uma venda e uma bengala improvisada para tentar simular algumas situações vividas por pessoas com deficiência visual.

Túnel de entrada possui obstáculos para também aguçar audição. (Foto: Alex Machado)
Túnel de entrada possui obstáculos para também aguçar audição. (Foto: Alex Machado)
Pessoas receberam ajuda para conseguir chegar até os assentos. (Foto: Alex Machado)
Pessoas receberam ajuda para conseguir chegar até os assentos. (Foto: Alex Machado)

Em um pequeno túnel, o primeiro desafio é entender o piso tátil e dar os primeiros passos mesmo com os sapatos grudando no chão. Isso porque um pouco de tinta é espalhado no local e, conforme cada pessoa passa, a textura fica ainda mais densa.

Além do chão, alguns obstáculos foram postos para que outros sentidos sejam aguçados durante o pequeno trajeto. Seja com o barulho ou estranheza de sentir folhas e macarrões de piscina, cada um segue caminhando com pedidos de ajuda aos assistentes ou tentando chegar sozinho até o fim do espaço apesar da angústia.

“Experimentando” a deficiência visual

Interpretada por Luiz Alberto, Monique Lopes, Cristiane Ticher, Nivaldo Santos e Jefferson Messias, a peça discute sobre uma pessoa que deixa de enxergar durante a vida adulta.

Contando sobre o roteiro, Nivaldo narra que Lucas, interpretado por Jefferson, é um jovem que perde a visão e precisa reaprender a viver. “A esposa dele, Fernanda, que é interpretada pela Cristiane, não aceita a cegueira. Além disso, o Lucas também precisa ouvir muita coisa da sociedade e entender a nova vida”.

Após passar pelo túnel, o público se direciona aos assentos e a peça, com o roteiro resumido por Nivaldo, começa. Entre a perda da visão no meio da rua até conseguir chegar em casa, Lucas começa a perceber inúmeras sensações que antes pareciam secundárias.

Conforme ele precisa caminhar enquanto ouve o barulho do trânsito, o público também começa a sentir a audição aguçando com os volumes aumentando. A chuva, os ventos, um cachorro tocando a perna do personagem principal, cada sensação é compartilhada com quem está na plateia.

Jefferson e Cristiane em pé durante encenação do teatro. (Foto: Alex Machado)
Jefferson e Cristiane em pé durante encenação do teatro. (Foto: Alex Machado)
Cheiro de álcool é levado até o público durante cenas que citam o olfato. (Foto: Alex Machado)
Cheiro de álcool é levado até o público durante cenas que citam o olfato. (Foto: Alex Machado)

Além das provocações causadas pela organização da peça com balas, perfumes e cheiros ruins durante a 1 hora de espetáculo, a interpretação dos atores também amplia cada sentimento.

Seja no conflito com a esposa, durante os gritos de angústia por nada parecer dar certo ou na reflexão sobre como, de fato, os obstáculos são inúmeros, o grupo de atores se entrega.

Exceto Nivaldo, que já possuía experiência com o teatro, todos os outros atores iniciaram sua experiência encenando neste ano. Monique, que interpreta uma psicóloga do Ismac (Instituto Sul Matogrossense para Cegos Florivaldo Vargas) na peça, conta que sempre teve vontade de fazer parte de um teatro, mas a oportunidade só veio neste ano.

“Nós fizemos uma seleção no Ismac e desde então começamos com as oficinas. Primeiro, nos apresentamos em Corumbá e agora estamos aqui”, detalha Monique.

Sobre a importância da realização, Cristiane comenta que as pessoas que enxergam não têm ideia das sensações diárias de quem tem deficiência visual. Por isso, dar ao menos uma prévia é um dos grandes destaques do espetáculo.

Sensação de gosma no chão é uma das mais estranhas com tinta espalhada. (Foto: Alex Machado)
Sensação de gosma no chão é uma das mais estranhas com tinta espalhada. (Foto: Alex Machado)

Integrando o público,  a coordenadora pedagógica Katsiana Kanashiro,  de 38 anos, conta que as sensações realmente foram ampliadas desde a entrada no túnel até o fim do espetáculo. "Quando entrei no túnel pela primeira vez até gritei por causa da parte gosmenta. O pessoal do Ismac brincou que era bom eu perceber a sensação porque, por exemplo, eles pisam em cocô de cachorro todos os dias".

Além do túnel, ela completa sobre como participar de peças que discutam sobre o cotidiano de pessoas com deficiência necessário. "Quando estamos aqui ouvindo, sentindo, tudo faz mais sentido. Essa experimentação é necessária, é o que realmente gera empatia".

Estruturando a peça

Diretor da peça, Alexandre conta que a ideia de criar uma experiência sensorial surgiu a partir do contato com seu tio, que é uma pessoa com deficiência visual. “Sempre que eu falava dos meus trabalhos no meio artístico ele pedia para eu descrever o que acontecia na cena. Até que um dia pensei de porque não fazer um trabalho para eles e colocá-los como prioridades, fazendo com que nós que enxergamos pudéssemos entrar no mundo deles”.

Por notar as experiências relatadas pelo tio, o diretor começou a construir um roteiro que englobasse os outros sentidos. “E, para fazer isso, fui atrás de pessoas cegas para atuar e trazer o máximo possível dessa realidade e também para dar oportunidade de atuar para eles”, diz

Com a pesquisa tendo começado em 2019, Alexandre precisou esperar até janeiro deste ano para ver as ideias saindo do papel. O grupo estreou em maio, chegando à segunda edição da temporada sendo apresentada.

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A expectativa é que as pessoas saiam do teatro com um sentimento maior de empatia, entender que a deficiência não é motivo de exclusão, detalha Alexandre.

Para quem não conseguiu participar do primeiro dia de peça, o espetáculo também será encenado às 19h do dia 1º de outubro. O Sesc fica localizado na Avenida Afonso Pena, 2270, Centro e os ingressos serão distribuídos com antecedência.

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