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Artes

Hanny pensava se os humanos têm a sorte de sonhar como os cães

Por Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina | 28/02/2021 08:05
Ilustração de Guto Naveira.
Ilustração de Guto Naveira.

“Eu sou uma borboleta, pequenina e feiticeira, ando no meio das flores, procurando quem me queira”; Hanny seus sonhos e seus sonhos e a borboleta.

Testes feitos com eletroencefalograma registrando a atividade do cérebro revelam que as ações cerebrais dos cães são parecidas com as dos humanos em alguns processos, por exemplo, assim como nós, os cachorros sonham. Eles retomam atividades diárias nos sonhos, resgatando o que viveram, exatamente como ocorre conosco.

As cenas sonhadas envolvem práticas como correr, brincar, cavar, explorar um terreno, comer. Dormindo, os cachorros começam a grunhir, movimentar as patas como se estivessem correndo, agitar-se, se o sono for pesado, podemos perceber os cães até latindo!

Quando desci do carro, senti o cheiro que eu conhecia dos passeios com Dulce fora de casa, porém, o vento corria se espalhando, livre de obstáculos. Meus humanos conversavam com animação e abraçavam alegres as pessoas que se aproximavam do carro à nossa chegada, já eu, acho que não as conhecia.

Em voz mais alta que o habitual, mais sorridentes que o costumeiro, num ritmo mais calmo que o do dia-a-dia, os humanos falavam numa rodinha e eu percebi que demoraria a se desfazer. Resolvi buscar as coisas que são mais interessantes e parece que somente os humanos não percebem, fui descobrir por que o vento conseguia ficar tão à vontade e espalhado naquele lugar, fui cheirar a terra cuja umidade era mais intensa, dar pulinhos sobre uma poça d’água de chuva recente e (o maior prazer se deixa para depois) fui atazanar uma borboleta amarela, alegre, diáfana, que dava rasantes sobre o maior jardim que eu já tinha visto.

Aquele era um dia diferente, já estava convencida disto pelo relaxamento dos humanos, talvez dia dos adultos não irem ao trabalho, as crianças não irem à escola, quando todos encontram os amigos e as atividades banais parecem menos banais: come-se mais devagar, há tempo para pôr uma música e dançar... ou cortar as unhas, meditativamente, como se fosse um trabalho e exigisse toda a concentração do mundo.

Ainda no carro, ao menos para mim, a viagem estava demorada. Todo cão sabe que pode acelerar o tempo ao correr, sentindo o vento galopar nossos pelos, perseguindo um som ou algo vivo, à nossa frente, que pensa que pode escapar de nós, de nossa sensibilidade para o fato de que este algo está ali a interferir ou a tentar interferir em nossa realidade e de nossos humanos. Que ilusão as pessoas têm de que entrando em um carro e esperando que ele faça o movimento por elas, atravessarão o correr dos minutos com potência e ânimo, o ser humano é lerdo até quando quer ser rápido.

Assim, eu já estava atenta, pelo tempo que passamos no carro, eu antecipava uma bem possível novidade à chegada, que poderia trazer diversão ou perigo, a mim, a Dulce ou a qualquer outro de nós, um lugar exótico, onde meus humanos se encontravam em pulsação diferente, mais relaxada e feliz.

Desci do carro exatamente no momento da manhã quando meu sono passava. Paramos ao lado de florezinhas das quais já aprendi a desviar, porque os humanos gostam muito delas, ainda que elas não lhes devolvam um som, um olhar, um sorrisinho, só fazem dar cheiros e cores nas quais eu não vejo nada demais. Eu não gosto dessas florezinhas porque, depois de comê-las, meu corpo dói e a dor nunca compensa a exploração.

Naquele lugar, as distâncias eram as mais desmedidas que eu já tinha conhecido. Nunca tinha estado em lonjuras tão impressionantes como aquelas! Impulsionava meus saltos no mesmo rompante de quando Dulce agradava a mim, porém, ninguém pedia, logo em seguida, para eu me acalmar, assim, aproveitei para fustigar a borboleta da cor do sol.

Sempre quis saber de onde vêm as borboletas e estou convencida de que as seguindo, desvendarei o segredo de sua morada, que dizem ser encantada. Assim, cruzei uma sequência de mundos sem ser interrompida: gramado, capim-gordura, mosquitinho, bromélia-do-cerrado, jatobá-do-cerrado, uma árvore de pau-santo, entrei num caminho entre jacarandás e cheguei a um araticum feito aparição! A árvore vinha do sagrado da terra, em flor, e meu coraçãozinho quase parou diante de tamanha beleza.

Sob efeito da boniteza do araticum, experimentando a majestade do Cerrado do Centro-oeste brasileiro, eu já não me lembrava de borboleta, da estranheza alegre de meus humanos, de saber por que o vento corria tão livre naquele lugar ou qual lugar era aquele. Tudo tinha uma grandeza fantástica, do araticum de oito metros à formiga que atravessou minhas patinhas como se fossem um par de montanhas, do frescor que vinha do chão aos coquinhos de buriti que eu encontrava perdidos dos cachos.

Um humano nunca saberá o que há abaixo, muito abaixo, de seu nariz, pode ser um pequeno filhote de humano, cuja distância entre seu sucinto nariz (por onde ele faz compridas respirações) e o chão onde todos se assentam não é tão grande assim, mas ele não verá, porque não precisará ver, os conjuntos de mundos e seres que convivem na altura da vida que se dá entre os joelhos de um humano adulto e o rés do chão. Para as pessoas, um espaço trivial, para mim, um domínio onde engendro minha sabedoria e ao mesmo tempo, uma infinita possibilidade de mistérios.

Talvez, o que há no âmbito de meu corpo não está ao acesso das preocupações humanas, a não ser de minha Dulce, ela desce simbolicamente até o entorno pelo qual reverbera a pulsação inquieta de minha vida e, a seu jeito, reconhece as nuances de meu olhar e divide comigo a iluminação dada pelas revelações que ocorrem aqui nesta medida sutil da vida (e a vida, todos nós compartilhamos, não importa se você é humano, humano filhote, formiga, borboleta ou se – e eu sinto muito por você – veio ao mundo como um gato, a vida concerne a todos nós, é assunto comum e deveria produzir sensibilidades semelhantes e interconectadas entre todos que vivem, já que nossas preocupações têm mais em comum do que diferenças).

Mergulhada naquela fartura de distância, senti como se meu corpo fosse além de qualquer raia que é imposta aos cachorros. Eu nunca tive de usar coleiras presas a correntes, mas nós, cães de estimação, quanto mais livres somos, mais temos consciência de um fio invisível aos olhos materialistas que mantém nosso humano preso a nós, fio encadeado por ternura e amor.

Depois da visão do araticum, esqueci tudo o que acontecera até o instante anterior à minha corrida por aquele lugar aberto pelo qual o tempo se movia diferente, mais lento, mais esperançoso, mais afável.

Esqueci minha preocupação de desvendar o lugar onde estávamos, esqueci que um dia devo descobrir onde moram as borboletas, quem faz sua casinha, quem põe sua comida e mantém água fresquinha e limpa (quem será a Dulce das borboletas?). Esqueci porque sentia que o tempo, naquele lugar, era um amigo que nos deixa à vontade em sua casa e nos convida a não ter pressa. Esqueci de tentar saber onde eu estava, de memorizar os registros de cheiros e sons, estendi o fio que me liga à Dulce para além do tempo e do espaço e assim, alegre, mas jamais tonta como uma borboleta, sempre altiva, eu me entreguei àquele sol de temperatura agradável que me unia à toda beleza em volta, tomei o horizonte como quem chega a uma festa e dancei à alegre música das coisas naturais.

E fui parar sobre chãos descontinuados, alguns, minhas patinhas furavam, em outros, se afundavam; achei divertido. Senti cheiro de companhias e eu precisava conhecer suas marcas, saber como deveria encontrá-las, como convidada ou anfitriã? Nessas impressões, passei longo tempo e tudo era tão novo e encantador, que me entreguei ao prazer de uma soneca revitalizante.

O cheiro bom das plantas, a tranquilidade dos outros animais que não se aborreciam à minha presença, tudo me acalmava. As graminhas tocavam levemente a pontinha de meu nariz, para lá, para cá, de um lado para outro, roçavam suaves, suaves...

Então, os movimentos descoordenados de algo que se mexia em aflição e fazia sombras desagradáveis sobre os olhos de Dulce dominaram minha visão, eu assistia a um filme de mau gosto, em que Dulce era perturbada por um ser petulante, mas tinha dificuldade para fixar a forma daquele pequeno corpo em movimento.

Eu não conhecia aquela agilidade sombreada que se movia à minha frente, importunando Dulce, mas precisava saber do que se tratava para afastá-la. Num pulo, eu batia com minha pata no ser que fazia voos rentes ao corpo de Dulce e derrubava-o no chão... uma borboleta! Destas que os humanos adoram elogiar.

Severamente censurada por todos após se darem conta de que abati o ser alado que povoa a imaginação das pessoas com impressões de fada, a borboleta, eu acabava me sentindo envergonhada de mim mesma por ter assolado um ser que, de fato, parecia tão frágil ali derrubada aos pés das pessoas, ainda mais por ter caído perto do dedão do pé de uma amiga de Dulce que escapava, estorricado, quase esfarelando-se e de unhas tortas, de um tamanco fora de moda e totalmente inapropriado para o passeio sobre a terra, além, alguns números menor do que o pé gordinho de sua dona. Perto deste pé pouco hidratado, quieta e talvez ferida por mim, a borboleta era um passarinho abatido por tiro de canhão e nesta alegoria, o canhão seria eu... Que deselegância, eu já censurava a mim mesma. Extremamente envergonhada por minha reação exagerada, expressei meu arrependimento dando lambidinhas em Dulce e em seus amigos (menos no pé do dedão ressequido, calçando tamanco fora de moda, porque tenho meu orgulho).

Não gostei quando percebi que as manifestações de minha remissão não tiveram efeito e todos me espantaram, abrindo espaço para cuidarem da desfalecida borboleta. Eu queria poder lembrar a todos que pouco se sabe de uma borboleta e não devemos confiar totalmente num bicho que esconde onde fica sua casa, como ela é, quem a alimenta, evitando dividir conosco uma amizade franca e talvez o seu jantar. Gostaria de poder abrir os olhos das pessoas para o fato de que sabemos muito pouco das borboletas e sequer podemos dizer com exatidão como é seu rosto, dado que elas aparecem quando bem entendem e sempre meio nervosas, meio ocupadas demais com sabe-se lá o quê... Mas, como já contei, humanos não entendem as sutilezas que percebemos numa esfera da vivência que, para eles, é diminuta.

Enquanto todos dividiam ideias para recuperarem a borboleta desmaiada pelo tapa de meu vigor físico, eu fui me encolhendo no chão, foi quando ouvi direitinho um som fininho, esganiçado, penetrante, embora muito fraquinho... num tom de deboche, parecia zombar:

— Isso, humanos, vão buscar mel para mim, me tragam flores, providenciem água limpa e fresca, me vejam com reverência, me sirvam e tenham medo de mim... porque a doce borboleta e as assustadoras bruxas-mariposas, cujas asas soltam pozinhos de enfermidades, comichão e espirros, são os mesmos seres, uma sob a forma da sedução pela doce beleza, outra, sob a forma da vingança, há-há-há...

Aquele som foi crescendo, até completar todo o espaço, cresceu e se materializou num urro esganiçado e horripilante, fazendo gelar de espanto o sangue do ser mais valente, de um doberman feroz! Eu vi a diáfana e pura borboleta transformando-se numa peluda, cinzenta, malcheirosa, verruguenta e soturna mariposa, conhecida pela sabedoria popular pelo nome de bruxa.

Apesar de petrificada pelo espanto, eu estava disposta a olhar bem para a sua cara e finalmente, custasse o que custasse, desvendar o que revelariam os olhos daquele bicho dissimulado! Eu sei que Dulce, cedo ou tarde, saberia do que eu descobriria sobre as borboletas, movida pelo afeto, com a intimidade que só a humana de um cachorrinho pode ter com aquele pedaço da realidade pelo qual os humanos em geral não se interessam. Eu sei que Dulce compartilha de meus saberes, assim, eu poderia dizer a ela a verdade das borboletas, tão paparicadas pelas pessoas humanas!

No esforço de buscar o rosto da borboleta, que lutava para esconder-se de mim, já me sentindo traída por meus humanos por não me ajudarem a fixar a borboleta no chão com minha pata, meu corpo estava tenso e eu sentia um incômodo quase sufocante, que se foi esmaecendo ao toque quente da voz de Dulce e ao som maternal de sua mão passando por meus pelos, me chamando, me acolhendo, me despertando de um sonho agitado, levando meu corpinho junto a seu ombro, dizendo que quando eu vou tão longe, ao mesmo tempo que ela é feliz junto comigo porque toda aventura é uma grande e incomparável alegria, ela nunca se aquieta, porque, por tudo, há possibilidades de enganos escondidas sob as aparências mais angelicais.

É impressionante como entre Dulce e eu o conhecimento se dá por meio do reconhecimento e ela aprende comigo e eu aprendo com ela, nem o sonho é obstáculo para dividirmos o que sabemos, o que sentimos e o que experimentamos. Fui conduzida por Dulce à casa de seus amigos, no sítio onde passaríamos o fim de semana. Me esperava uma refeição digna dos dias de feriado. Eu pensava se os humanos têm a sorte de poder sonhar, como nós, cães. Será que os humanos sonham?

*Marília Adrien de Castro, Dulce Martins e Lúcia Carolina escreveram juntas a obra literária "Hanny, Amor Eterno". São contos de uma cachorrinha que vive entre humanos e sonha com os humanos. A proposta, segundo elas, é que os homens se conscientizem mais sobre as questões animais e principalmente como os cães ocupam um espaço muito especial de amor e muitas vezes como um membro da família. As histórias de Hanny são embasadas na vida real ela existiu e até hoje vive no coração da Dulce e dos amigos.

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