Cerâmica Terena avança no processo de reconhecimento como patrimônio do Brasil
Inventário iniciado em Miranda pode viabilizar registro federal da tradição ceramista da Aldeia Cachoeirinha
O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) deu início ao INRC (Inventário Nacional de Referências Culturais) dos Modos de Fazer a Cerâmica Terena em Mato Grosso do Sul. A abertura oficial ocorreu na Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, considerada a maior aldeia do povo Terena e marco inicial do processo de reconhecimento desse saber tradicional como Patrimônio Cultural do Brasil.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) iniciou o processo de inventário da cerâmica Terena em Mato Grosso do Sul, com foco inicial na Aldeia Cachoeirinha, em Miranda. O projeto, contemplado em 2023, visa reconhecer esse saber tradicional como Patrimônio Cultural do Brasil. A cerâmica Terena, produzida tradicionalmente por mulheres indígenas, caracteriza-se pelo barro avermelhado e pinturas brancas com motivos geométricos e florais. A técnica envolve o acodelamento com rolinhos de argila, polimento com pedras e aplicação de resina de jatobá, resultando em peças como moringas, panelas e esculturas que expressam a identidade do povo Terena.
O projeto foi contemplado em 2023 no âmbito dos editais do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, retomados pelo Iphan após anos de interrupção. No estado, dois projetos foram aprovados, entre eles o INRC dos Modos de Fazer a Cerâmica Terena. A iniciativa será executada pelo Centro de Trabalho Indigenista, instituição que já desenvolve trabalhos junto às ceramistas Terena há vários anos, fortalecendo vínculos e ações de valorização cultural.
- Leia Também
- Associação de Artesãos Indígenas promove oficina de cerâmica Terena
- Com oficinas e tereré literário, Capital recebe 1ª Jornada do Patrimônio
O INRC é um instrumento técnico de identificação e documentação de referências culturais adotado pelo Iphan no âmbito da política de salvaguarda do patrimônio imaterial. Recentemente atualizado pelo Instituto, o método busca mapear práticas, saberes, formas de expressão e modos de vida reconhecidos pelas próprias comunidades como parte fundamental de sua identidade.
De acordo com o superintendente do Iphan no Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, a iniciativa responde a uma lacuna histórica no reconhecimento das referências culturais indígenas no estado. “Mato Grosso do Sul é o terceiro maior estado em populações indígenas e, curiosamente, o Iphan ainda não reconheceu nenhum patrimônio cultural de matriz indígena daqui. Uma das premissas da nossa gestão é justamente o reconhecimento das referências e do patrimônio cultural indígena presentes no estado”, afirmou.
Ele destaca que a atual gestão atua com três eixos prioritários: fortalecimento da educação patrimonial; reconhecimento de comunidades quilombolas, nos termos da Portaria Iphan nº 135; e valorização do patrimônio cultural indígena. Nesse contexto, além do INRC da Cerâmica Terena, também está em andamento o inventário relacionado aos povos Guarani e Kaiowá.
A cerâmica Terena já é reconhecida em nível estadual pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Com o inventário conduzido pelo Iphan, a expectativa é reunir subsídios técnicos para eventual abertura de processo de registro em âmbito nacional. “A ideia é que, ao final do INRC, tenhamos elementos consistentes para dar andamento ao processo de registro como Patrimônio Cultural do Brasil, reconhecendo esse saber transmitido de geração em geração entre as mulheres indígenas Terena”, ressaltou o superintendente.
Embora a Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, seja o ponto de partida da pesquisa, por ser a maior aldeia Terena e por concentrar histórico de atuação do CTI, o inventário terá abrangência ampliada. Há ceramistas em outras aldeias da região, como Taunay e Buriti, além de contextos urbanos, como em Campo Grande, inclusive no Memorial da Cultura Indígena.
“Os Terena estão muito presentes também nos núcleos urbanos, seja em Campo Grande, Miranda ou Aquidauana. Em Campo Grande, a Aldeia Marçal de Souza é considerada a primeira aldeia urbana do Brasil e pertence à comunidade Terena”, lembrou João Henrique.
Produzida tradicionalmente por mulheres, a cerâmica Terena é marcada pelo barro avermelhado e pela pintura branca com motivos geométricos e florais delicados — traços que se tornaram símbolo dessa tradição. A técnica do acodelamento, com rolinhos de argila moldados manualmente, é combinada ao polimento com pedras, à aplicação de resina de jatobá e à queima artesanal. As peças incluem moringas, panelas e esculturas de animais que refletem a identidade, a flora e a fauna locais.
“A cerâmica Terena está presente nas cozinhas sul-mato-grossenses, na decoração de casas e até em repartições públicas. A cor avermelhada e o traço floral delicado são marcas muito fortes desse objeto”, destacou o superintendente. Para ele, acompanhar o processo tem sido também uma experiência institucional significativa. “Para o Iphan em Mato Grosso do Sul, está sendo um prazer e uma honra conviver e trabalhar com essas mulheres indígenas e acompanhar de perto esse saber tradicional.”


