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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Junho de 2019

13/06/2019 07:24

Mochila de fibras de aguapé mostra só 1 dentre muitos talentos em feira indígena

Feira de artesanato indígena ocupou a calçada do Centro Cultural José Octávio Guizzo

Kimberly Teodoro
Benilda Benilda Vergílio carrega símbolos de nobreza que relembram a guerra do Paraguai. (Foto: Paulo Francis)Benilda Benilda Vergílio carrega símbolos de nobreza que relembram a guerra do Paraguai. (Foto: Paulo Francis)

Feitos à mão, colares, cestos, pochetes, bolsas, caixas pintadas em grafismos indígenas são artesanato que por vezes sai das aldeias para mostrar um pouco do talento indígena. Mas desta vez, mostra da cultura dos povos originários teve até apresentação de Coral, com o Hino de Mato Grosso do Sul em guarani. Nas calçada do Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande, o Coletivo Terra Vermelha fez mais um evento para colocar os povos indígenas como protagonistas.

No rosto, Benilda Vergílio apresentou símbolos de nobreza que relembram a guerra do Paraguai. “É uma grafia nobre, de kadiwéus que não tiveram nenhuma mistura com outros povos. Eu tenho mistura, então eu coloco também grafias que representam os cativos, que na guerra do Paraguai foram capturados em batalha e obrigados a viver aquela cultura. Quanto mais pontinhos, maior a nobreza e a identificação, que para nós tem grande valor”.

O simbolo semelhante a um carro de boi pertence à família de Benilda e a etnia Kadiwéu (Foto: Paulo Francis)O simbolo semelhante a um carro de boi pertence à família de Benilda e a etnia Kadiwéu (Foto: Paulo Francis)
Verde, vermelho e amarelo são cores da terra, muito utilizadas pelos Kadiwéu e presente no trabalho de Benilda (Foto: Paulo Francis)Verde, vermelho e amarelo são cores da terra, muito utilizadas pelos Kadiwéu e presente no trabalho de Benilda (Foto: Paulo Francis)

As caixas em MDF pintadas com grafismos que utilizam as cores da terra, como o marrom, o azul, verde e vermelho pertencem à ela. Em tinta preta, na tampa um símbolo que chama a atenção, semelhante a um carro de boi, ela explica que é um símbolo de família colocado ali propositalmente como assinatura para ressaltar a importância dos direitos autorais dos povos indígenas.

“O foco disso é tentar mostrar para as mulheres indígenas da minha etnia que a organização é necessária para lutar pelos direitos autorais. Cada grafismo desses pertence às famílias e muitos não-indígenas se apropriam da nossa arte e da nossa cultura. Esse é o foco, levar o design junto com os direitos autorais e explicar para as pessoas e para o mundo que existem mulheres que são donas dessa arte e que não querem mais que ela seja copiada. Só queremos o que nós é de direito”, explica.

A mochila feita com fibras de aguapé é vestida em tecido e toda feita à mão (Foto: Paulo Francis)A mochila feita com fibras de aguapé é vestida em tecido e toda feita à mão (Foto: Paulo Francis)
Vaso feito por Catarina Guató (Foto: Paulo Francis)Vaso feito por Catarina Guató (Foto: Paulo Francis)
Carteiras e bolsas de mão também fazem parte dos itens feitos por Catarina (Foto: Paulo Francis)Carteiras e bolsas de mão também fazem parte dos itens feitos por Catarina (Foto: Paulo Francis)

Artesã, Catarina Guató, representa as mulheres da comunidade da Ilha Ínsua a a 211 km de Corumbá. Usando as mãos e os pés, ela entrelaça as fibras secas de aguapé, planta típica do pantanal, para formar cestas, chapéus, bolsas, carteiras, porta-copos e o que mais vier à mente. Novidade no estande dela na feirinha foi a mochila, revestida em tecido e com acabamento da alça feito em couro, para durar mais.

Jorge é descendente Terena e mistura técnicas artísticas que aprendeu na infância com referências indígenas (Foto: Paulo Francis)Jorge é descendente Terena e mistura técnicas artísticas que aprendeu na infância com referências indígenas (Foto: Paulo Francis)
Pulseiras, braceletes, tornozeleiras fazem parte do trabalho de Jorge (Foto: Paulo Francis)Pulseiras, braceletes, tornozeleiras fazem parte do trabalho de Jorge (Foto: Paulo Francis)

Descende Terena, o artista Jorge de Barros está sempre presente nas ações do coletivo. Trabalhando com materiais da terra, aproveitando retalhos de couro e sementes como “olho de boi” no fecho de pochetes, colares, pulseiras e até tornozeleiras com grafismos indígenas em uma mistura Terena, Kadiwéu, Guarani e Guarani-Kaiowá.

“Quando pequeno tive muito incentivo para trabalhos artísticos. Eu tive poliomielite, paralisia infantil, então quando criança estudei em uma escola de reabilitação física em São Paulo, onde tive muito acesso à arte e aos trabalhos manuais”, conta Jorge, que depois de adulto passou a inserir os conhecimentos dos povos originários nos itens que produz.

Responsável pelo evento, o coletivo Terra Vermelha também organizou a exposição de trabalhos de indígenas que não puderam participar da feira. Em uma bancada com itens diversos colares, chocalhos e miniaturas de arco e flecha estavam à disposição do público junto a camisetas e produtos de doações, que terão a venda revertida para a causa.

Coral Guarani, formado por alunos do curso de línguas do consulado Paraguaio em Mato Grosso do Sul (Foto: Paulo Francis)Coral Guarani, formado por alunos do curso de línguas do consulado Paraguaio em Mato Grosso do Sul (Foto: Paulo Francis)

A paraguaia Idalina Maciel, é professora da Língua Guarani no curso oferecido pelo consulado do Paraguai, ela relata que o sucesso do projeto fez com que o Cônsul Ministro Angel Adrián Gill Lesme em parceria com o Instituto Cultural Chamamé MS, lançasse um desafio: Traduzir o Hino de Mato Grosso do Sul para o Guarani em sala de aula. Mais tarde o resultado do esforço dos alunos foi aprimorado, enquanto Idalina ficou responsável por corrigir a gramática e adaptar a letra, o Maestro Juninho Fonseca cuidou do arranjo musical.

“Foi um grande desafio das letras, principalmente manter o sentido das palavras, mas como sou professora e amo a língua, eu consegui traduzir para que eles cantassem. Foi recompensador porque vejo que nem todos que estão cantando são descendentes, não é uma língua fácil, principalmente para quem não aprendeu no berço, mesmo assim eles conseguiram cantar com maestria, por se dedicar muito”.

A professora Idalina foi a responsável pela tradução oficial do Hino de Mato Grosso do Sul para o Guarani (Foto: Paulo Francis)A professora Idalina foi a responsável pela tradução oficial do Hino de Mato Grosso do Sul para o Guarani (Foto: Paulo Francis)
Aos 78 anos, Shirley fez questão de ir prestigiar o coral (Foto: Paulo Francis)Aos 78 anos, Shirley fez questão de ir prestigiar o coral (Foto: Paulo Francis)

Mariley Ferreira Lopes é aluna do curso de Guarani desde 2015, da turma inaugural, onde conheceu a ideia do coral e participou da tradução do hino, “feita palavra por palavra, frase por frase” até a tradução oficial feita por Idalina. Com a letra em mãos, o grupo passou a se dedicar ao Coral, para dar ritmo e harmonia ao trabalho realizado durante meses.

Vestidos com camisetas brancas bordadas com as cores da bandeira do Paraguai e do Brasil, a apresentação durou cerca de 20 minutos e encheu o auditório do Centro Cultural José Octávio Guizzo com ritmos típicos da fronteira tocados no violão do Maestro Juninho Fonseca e embalados pelas vozes do grupo de 12 pessoas.

Para quem assistiu, as músicas cantadas em Guaraní foram um espetáculo original e ao mesmo tempo, capaz de remeter às raízes do Estado. Aos 78 anos, Shirley de Araújo mostrou toda a disposição de quem adora música e foi assistir ao ex-genro, que é parte do coral.

Quadros feitos por artistas locais sobre a temática indígena também estão em exposição por tempo indeterminado no Centro Cultural José Octávio Guizzo. Confira as fotos na galeria.

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