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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

28/06/2017 06:05

Aos 91 anos, Altivo sai do Aero Rancho todo dia para encarar máquina de escrever

Thailla Torres
Altivo Brum está há 40 anos no antigo Terminal Rodoviário. (Foto: André Bittar)Altivo Brum está há 40 anos no antigo Terminal Rodoviário. (Foto: André Bittar)

O senhor de 91 anos surge impecável mesmo diante da bagunça na sala pequena, alugada na antiga rodoviária de Campo Grande. Longe de qualquer tecnologia, o trabalho feito ainda na máquina de escrever é o motivo que faz Altivo Brum ir do Aero Rancho ao Centro da cidade todos os dias para trabalhar como despachante.

Ele é um dos mais antigos e remanescentes no local, que não abre mão do trabalho por conta do tempo. Aposentado e com mais de 40 anos de ofício, hoje ele quase não tem clientes, mas nem o vazio da sala é capaz o fazer desistir. "Antes, eu agilizava 20 documentos por dia, hoje eu não consigo nem 20 por mês", afirma.

Altivo não tem outra função, além de alguns licenciamentos e transferências que só consegue fazer por meio de procuração, já que há tempos não consegue a licença como despachante. Mesmo assim, ele se mantém firme porque a sala é a única distração na vida de aposentado.

E olha que Altivo já foi muito reconhecido por aí.

Apesar da bagunça, ele está sempre impecável.Apesar da bagunça, ele está sempre impecável.

Nascido em Rio Brilhante, ele diz que sempre foi um homem político e interessado pela vida pública. Conquistou o cargo de vereador em 1972 no município de Sidrolândia. O certificado que comprova os 1.635 votos ele exibe cheio de orgulho na parede da sala. "Nunca um vereador na história teve tanto voto quanto eu naquele período. Eu sigo isso quando o voto era diferente desse sistema política que a gente tem hoje", explica.

Também atuou como juiz eleitoral e profissão despachante veio alguns anos mais tarde quando chegou a Campo Grande. "Eu fiz vários cursos e aqui na cidade tive um escritório grande bem ali na frente da rodoviária. Era despachante e estacionamento, vivia cheio, mas depois que eu separei, resolvi deixar tudo pra ela e vim pra essa sala", recorda.

Sem perder o bom humor, Altivo conta sorrindo que o tempo não deixou espaço para mágoa. "Eu fui um homem muito festeiro. Só de casamento eu tive umas três mulheres e sou amigo de todas elas. Então o que ficou para trás, é passado", conta.

Ele garante que não se arrepende de tantos amores. "Porque a coisa que eu mais gostei nessa vida foi mulher, porque melhor que uma mulher, só um caminhão cheio de mulher", brinca.

Pai das antiguidades, a sala de Altivo parece ter parado no tempo pelo jeito que ele insiste em trabalhar. A TV velha dos anos 60 foi presente de um amigo que não há dinheiro no mundo que pague. "Eu ganhei de um comerciante que tinha aqui. Ela não funciona mais, mas eu não vendo de jeito nenhum, é como ter um pedaço de um amigo".

Máquina usada até hoje. Máquina usada até hoje.
Altivo mostra um dos documentos que provam a função como juiz eleitoral.Altivo mostra um dos documentos que provam a função como juiz eleitoral.

A máquina de escrever é outra relíquia que ele não esquece o barulho das "teclas". "Eu já tive computador, mas essa aqui é do meu tempo. Não abro mão de jeito nenhum".

Na estande ao lado da mesa, estão fotografias da família, certificados, documentos antigos e muitos livros. Apesar de ter parado a faculdade de Direito por falta de recursos, Altivo nunca deixou de estudar. "Leio tudo sobre  Direito Penal, é o assunto que eu mais gosto", afirma.

Mostrando um pouquinho do espaço que só ele sabe onde está cada objeto, o jeito asseado fica claro na coleção de chapéus. "Só aqui tenho 25 deles, quase um por dia, a gente tem que trabalhar arrumado, né".

Depois de tanta vida de trabalho, a memória é cheia de saudade, desde que o terminal foi desativado em 2010. "Era um tempo extraordinário. Tinha trabalho para todo mundo nesse lugar, o escritório mesmo ficava cheio de cliente", recorda.

Sobre o tempo, Altivo diz que queria mais energia para continuar trabalhando. "Se pudesse queria conseguir fazer uma escola e tirar todo esse povo da rua que está sofrendo com violência e droga perto desse prédio", diz.

Como quem gosta de uma conversa, Altivo se despede desejando satisfação e diz que nada é capaz de fazê-lo sair dali enquanto tiver condições de trabalhar. "Isso daqui pra mim é uma satisfação e uma distração sabe. Eu tenho muito amigos, passo o dia aqui trabalhando e conversando, é o melhor".

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