Para somar na luta indígena, Nilson é o 1º kinikinau a fazer Direito
Venda de cerâmica feita pela mãe pagou a matrícula, e a bolsa de 100% garantiu a permanência no curso

Aos 21 anos, Nilson Roberto Flores entrou para a história do próprio povo ao se tornar o primeiro indígena da etnia kinikinau a se formar em Direito em Mato Grosso do Sul. A cerimônia de colação de grau aconteceu na noite desta quarta-feira (11) e foi marcada por emoção e orgulho. A família saiu da Aldeia Mãe Terra, na Terra Indígena Cachoeirinha, em Miranda, para prestigiar a conquista do caçula de seis irmãos.
RESUMO
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Nilson Roberto Flores, 21 anos, tornou-se o primeiro indígena da etnia Kinikinau a se formar em Direito em Mato Grosso do Sul. O sonho nasceu aos 7 anos, durante uma assembleia de seu povo, quando decidiu estudar para defender sua comunidade, que ainda enfrenta desafios como a ausência de território demarcado. Filho de artesãos, sua graduação foi possível graças à venda de uma peça de cerâmica produzida por sua mãe. Durante o curso, já auxiliava sua comunidade em questões jurídicas. Agora, planeja fazer a prova da OAB, retornar à aldeia para defender os direitos de seu povo e seguir na vida acadêmica com mestrado.
O sonho de cursar Direito nasceu cedo. Nilson conta que tinha apenas 7 anos quando participou da primeira Assembleia do povo kinikinau. Foi ali que decidiu que queria estudar para defender a própria comunidade. “Eu vi a luta do meu povo e decidi que tinha que cursar Direito”, relembra.
O povo Kinikinau é reconhecido pela resistência. Considerado extinto durante um período da história, o grupo ressurgiu a partir da mobilização e da preservação cultural. Até hoje, enfrenta desafios, como a ausência de território demarcado. “A gente não tem uma terra demarcada para dizer que é nosso território indígena, para guardar nossa cultura, nossa crença e nosso modo de vida”, explica.

Filho dos artesãos Nicolau e Genoveva, Nilson cresceu em meio à arte e à tradição. Foi justamente o trabalho da mãe que tornou possível o início da graduação. Ceramista, ela conseguiu vender uma peça produzida a partir de recursos de um edital da Lei Aldir Blanc. O valor arrecadado pagou a matrícula do curso.
Depois disso, Nilson conquistou bolsa social de 100% e iniciou a graduação em 2021, em plena pandemia. Segundo ele, o começo não foi fácil. Além das aulas em um período atípico, ele precisou se adaptar à vida em Campo Grande, longe da aldeia. “É difícil para nós indígenas sair do território e vir para a cidade grande. Mas aqui é onde tem oportunidade, onde a gente pode enfrentar e aprender”, comenta.
Durante o curso, o jovem já começou a colocar em prática o propósito que o levou à faculdade. Ainda no terceiro ano, passou a auxiliar a comunidade em questões jurídicas, principalmente em processos ligados ao INSS. “Eu já ajudo meu povo, mas quero fortalecer ainda mais”, diz.
Ser o primeiro Kinikinau formado em Direito traz um sentimento que ele define como coletivo. “É uma emoção muito grande. É poder representar e somar na luta dos povos indígenas, não só do meu povo, mas de todos em Mato Grosso do Sul. É uma vitória para todos”, destaca.
Agora, o próximo passo é a preparação para a prova da OAB. No futuro, Nilson quer retornar à aldeia para atuar diretamente na defesa dos direitos da comunidade e também pretende seguir na vida acadêmica, com mestrado. “Quero guardar a cultura através dos estudos, demonstrar como é nossa dança, nossa fala, nossa tradição”, finaliza.
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