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Meio Ambiente

Cervo "invasor" é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores

Primeiro registro recente indica risco ecológico com possível impacto sobre espécies nativas de MS

Por Inara Silva | 16/02/2026 13:48
Cervo "invasor" é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores
Axis no Parque Nacional Kanha, na Índia. Foto: Charles J. Sharp/Wikipédia (Reprodução: site ((o))eco)

Um registro feito em janeiro de 2026 deixou pesquisadores em alerta sobre uma nova ameaça ao equilíbrio ecológico do Pantanal, em Mato Grosso do Sul. O cervo Axis, também conhecido como chital, espécie exótica invasora na América do Sul, foi avistado em uma fazenda a cerca de 100 quilômetros ao sul de Corumbá, na região do Nabileque, entre a margem direita do Rio Paraguai e a fronteira com Bolívia e Paraguai.

RESUMO

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O cervo Axis, espécie exótica invasora originária da Ásia, foi avistado no Pantanal sul-mato-grossense, a cerca de 100 quilômetros de Corumbá. O registro, feito em janeiro de 2026, preocupa pesquisadores devido aos possíveis impactos sobre a fauna local, especialmente sobre espécies nativas como o cervo-do-pantanal e o veado-campeiro. A espécie, introduzida inicialmente no Uruguai e Argentina no início do século XX, tem se expandido pelo território brasileiro desde 2009, quando foi documentada pela primeira vez no Rio Grande do Sul. Com velocidade de dispersão estimada entre 100 e 150 quilômetros por ano, especialistas alertam que o animal pode alcançar diversos estados brasileiros nas próximas duas décadas.

O relato, acompanhado de vídeo gravado por um funcionário da propriedade rural, mostra o animal atacando touros e sendo perseguido por cães. O aparecimento causou surpresa entre trabalhadores da fazenda, que nunca haviam visto o animal. A identificação ocorreu após consulta a técnicos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Pantanal.

Por questões de privacidade, a localização exata não foi divulgada. A área é remota, pouco povoada e de difícil acesso, caracterizada como Chaco úmido, condição que torna improvável a hipótese de fuga recente de cativeiro. Para os especialistas, tudo indica que o animal chegou por dispersão natural.

Expansão silenciosa - A ocorrência foi analisada em artigo publicado no site ((o))eco pelos pesquisadores Liliani Marilia Tiepolo, professora da Universidade Federal do Paraná, e Walfrido Moraes Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal. Segundo os autores, o registro confirma a capacidade de invasão da espécie, cuja presença no Brasil foi documentada pela primeira vez em 2009, no Rio Grande do Sul. Desde então, avançou gradualmente, chegando a Santa Catarina em 2019, ao Paraná em 2020 e registrada no interior de São Paulo em 2024.

O cervo Axis foi introduzido originalmente em fazendas de caça no Uruguai, no início do século XX, e depois na Argentina, entre 1928 e 1930, com o mesmo objetivo. A partir desses focos, espalhou-se por vastas áreas e agora avança pelo território brasileiro. Conforme os pesquisadores, a velocidade de dispersão estimada varia entre 100 e 150 quilômetros por ano. Mantido esse ritmo, os pesquisadores avaliam que, em 15 a 20 anos, a espécie poderá alcançar diversos estados do país.

Cervo "invasor" é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores
Fotograma do vídeo obtido no Pantanal. (Foto: Reprodução)

Risco à fauna - A principal preocupação dos estudiosos é com o impacto do cervo Axis sobre os cervídeos do Pantanal, especialmente o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), já ameaçado de extinção, e o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus leucogaster). O bioma também abriga populações importantes de veado-catingueiro e veado-mateiro.

O Axis é um mamífero de grande porte que pode ultrapassar os 100 kg de massa corporal. Os impactos potenciais incluem: competição por alimento e habitat; transmissão de doenças; interações agressivas entre espécies.

Ainda não há estudos conclusivos sobre a magnitude desses efeitos, nem mesmo nas regiões onde o animal está estabelecido há mais tempo, embora já tenha sido observada sobreposição de dieta com espécies nativas.

Fronteiras - No lado paraguaio da fronteira, a ocupação humana é mais intensa, enquanto áreas bolivianas apresentam baixa densidade populacional, favorecendo a movimentação natural da fauna. Não está claro o nível de ocorrência do chital no Chaco paraguaio, onde historicamente houve pouca regulamentação sobre posse e transporte de espécies exóticas. Há registros pontuais no país vizinho, inclusive resgates em Carmen del Paraná e nas proximidades de Assunção.

No entanto, um episódio citado pelos pesquisadores reforça o risco, uma vez que em 2022, um chital mantido como animal ornamental atacou e matou um policial que fazia a segurança da residência oficial do presidente paraguaio.

Cervo "invasor" é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores
Registros mais recentes na fronteira norte-noroeste da invasão por Axis axis, e o primeiro registro no Brasil, em 2009. (Fonte: Reproduição  site ((o))eco)

Comércio - Outro fator que preocupa os especialistas é a oferta do animal pela internet no Brasil. Anúncios tratam o chital como espécie “ornamental”, com preços que frequentemente ultrapassam R$ 10 mil. Além dele, aparecem à venda cervo rusa, cervo vermelho, antílopes e cervo dama.

Esse comércio aumenta o risco de introduções intencionais ou acidentais, já que fugas de cativeiro não são raras. Um exemplo citado é o registro de cervo rusa vivendo livremente em Saquarema (RJ), incluindo casais e filhotes.

Falta de política pública - Segundo o artigo, apesar do avanço da espécie, o Brasil ainda não implementou ações efetivas de controle. O histórico do javali é citado como exemplo de falha, pois a estratégia brasileira baseada apenas na atuação de CACs (Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores), conforme os pesquisadores, mostrou-se ineficaz, quando seriam necessárias remoções superiores a 60% dos indivíduos por ano para conter a expansão.

A ausência de uma estrutura pública especializada também é apontada como obstáculo pelos estudiosos, pois o país não possui um serviço nacional ou estadual de vida selvagem voltado ao monitoramento técnico de populações invasoras, modelo adotado por países como Estados Unidos, Canadá e Austrália.

O caso, concluem os pesquisadores, reforça a necessidade urgente de o Brasil estruturar uma governança pública capaz de enfrentar invasões biológicas, hoje consideradas um dos maiores desafios globais à conservação da biodiversidade.

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