Após uma vida difícil, Edileusa aprendeu a ler em 6 meses
Depois de enfrentar vergonha e falta de independência, coxinense concluiu o ensino fundamental aos 55 anos
Aos 55 anos, Edileusa Castro de Araújo descobriu que nunca é tarde para aprender. Moradora de Coxim, ela passou boa parte da vida sem saber ler e escrever e teve que lidar com a vergonha e muitas privações no dia a dia. No entanto, decidida a mudar a própria história, em seis meses de dedicação às aulas ela conseguiu avançar nos estudos e começou a realizar sonhos que durante muito tempo pareciam distantes.
A história de Edileusa é marcada por dificuldades desde a infância. Criada na zona rural, ela precisou trabalhar na roça ainda criança e não teve a oportunidade de frequentar a escola como gostaria.
“Meu pai tocava roça e não tinha condições de pagar funcionários. Então, sempre colocava os filhos para ajudar. A gente tinha sete anos para cima e já estava na roça. Minha mãe até queria colocar a gente na escola, mas meu pai dizia que o trabalho na lavoura era mais importante”, lembra.
A família vivia em um distrito de Coxim e Edileusa só se mudou para a cidade com a mãe quando tinha 11 anos. Na época, começou a trabalhar como babá para ajudar nas despesas. “Eu tinha vontade de estudar, mas a situação da vida sempre fazia esse sonho ser adiado”, detalha.

Aos 14 anos, ela iniciou um relacionamento com um homem que também não permitia que frequentasse a escola. Os dois ficaram juntos por quase 12 anos e tiveram três filhos.
Sem aprender a ler, Edileusa cresceu enfrentando situações que limitavam sua autonomia. Até tarefas comuns, como fazer compras e lidar com dinheiro, provocavam insegurança. “Eu não conhecia dinheiro, não sabia contar. Eu ia ao mercado com ele e via ele lidando com o dinheiro, mas eu não sabia fazer aquilo”, conta.
Depois da separação, Edileusa precisou criar os filhos e garantir o próprio sustento. Sem escolaridade, passou a trabalhar principalmente como empregada doméstica. No entanto, a dificuldade para ler e escrever continuava pesando em sua rotina.
Ela conta que sentia vergonha quando precisava pagar uma compra e não sabia quanto de dinheiro deveria entregar. Também perdeu oportunidades de emprego porque não tinha os conhecimentos exigidos para as vagas.
“Pessoas que me conheciam pelo meu caráter me ofereciam trabalho, mas eu ficava envergonhada e falava que não tinha estudo. Isso me deixava oprimida, presa, com vergonha. Eu sofria muito e perdi muita oportunidade por causa disso”, relata.
Apesar das dificuldades, Edileusa nunca abandonou o desejo de aprender. Em outra ocasião, chegou a se matricular em uma escola, mas não conseguiu continuar os estudos.
A mudança começou quando uma vizinha, Janete, contou que estava frequentando aulas de um programa de educação do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), em parceria com uma associação da cidade. Ao ouvir o relato, Edileusa se interessou pela oportunidade. “Me matriculei decidida a aprender”, explica.
Edileusa conta que, no começo, até identificar as vogais e diferenciá-las das consoantes era um desafio. O incentivo veio do professor, Nildo, peça fundamental para que ela ganhasse confiança. “Eu tinha vergonha de ir à lousa e escrever qualquer coisinha. Ele falava que eu tinha capacidade e que precisava quebrar aquilo dentro de mim”, recorda.
Com o passar das aulas, Edileusa começou a perceber a própria evolução. Dedicada, aproveitava o tempo livre para ler e não deixava o cansaço do trabalho servir de motivo para faltar às aulas.
Em casa, pegava livros e outros materiais para praticar. Também começou a ler a Bíblia, algo que sempre desejou fazer. Em cerca de seis meses, ela já estava familiarizada com o universo da leitura e da escrita. “Eu fui pegando rapidão. Ele viu que eu estava desenvolvendo bastante. Comecei a ler, fazer as tarefas e já estava mais adiantada”, conta.

O incentivo do professor também levou Edileusa a encarar o desafio do Exame Encceja (Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos), prova para ter certificação de etapas da educação básica.
“Eu fiquei com medo de não estar preparada, mas o professor Nildo me incentivou a estudar e tentar. Pedi ajuda da minha filha pra fazer a inscrição e fiquei em casa revisando os conteúdos e resolvendo questões”, detalha.
O resultado veio meses depois e trouxe uma conquista que ela esperava havia décadas. Edileusa conseguiu a certificação do ensino fundamental. Em ciências da natureza, de 30 questões ela acertou 29.
“Eu fiquei muito feliz. Foi radiante, maravilhosamente bom. Para mim, foi uma coisa nova”, conta. Agora, ela está estudando para tirar a carteira de habilitação e quer continuar avançando.
“Não importa a idade”

Depois de passar tantos anos convivendo com a vergonha e a insegurança, Edileusa quer que sua história sirva de incentivo para outras pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de estudar.
“Eu diria para essas pessoas se libertarem. Confie em si próprio, porque a gente acha que não tem capacidade, mas, no fundo, tem, sim. A gente fica preso no medo, achando que não pode”, afirma.
Aos 55 anos, Edileusa segue trabalhando, estudando e fazendo planos. A mulher que durante muito tempo precisou da ajuda de outras pessoas para tarefas simples agora começa a escrever uma nova fase da própria história.
“Não importa a idade. Eu tenho 55 anos e estou buscando. Tem que lutar, sonhar e ir atrás, porque a gente consegue realizar os sonhos”, finaliza.
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