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Campo Grande, Domingo, 19 de Maio de 2019

24/04/2019 08:21

Bar de 22 anos serve de terapia para Eduardo, depois da morte da esposa

O estabelecimento funciona na Vila Rosa, em Campo Grande de segunda a segunda

Alana Portela
Eduardo é proprietário do Batafrango, localizado na Vila Rosa da Capital (Foto: Paulo Francis)Eduardo é proprietário do Batafrango, localizado na Vila Rosa da Capital (Foto: Paulo Francis)

Quem passa pela Rua 25 de Dezembro, esquina com a Pernambuco, na Vila Rosa, vai notar de longe o bar Batafrango, com um toldo vermelho na frente, para proteger a freguesia do sol. Um estabelecimento simples, tem cadeiras de plástico na calçada e no salão interno para aqueles que são mais reservados e querem assistir televisão. São mais de 22 anos no mesmo endereço, lugar que ganhou outra função nos útlimos tempos na vida de Eduardo Guimarães, 61, que tenta superar a morte da esposa, Maria Aparecida Guimarães, 63.

“Com a partida da minha esposa, não sei o que vou fazer da vida ainda. Por enquanto, isso está servindo de terapia, aqui converso com todos, me distraio porque se ficar apenas dentro de casa, pensando nela, não vai adiantar. Ela já se foi”, conta Eduardo, meio abalado ao tocar no assunto.

O espaço é uma forma de extravasar as emoções. “Amava-a demais. Foram 40 anos juntos, passei mais tempo casado do que solteiro. A gente se conhecia muito, sempre me acompanhou, era parceira. Era dois anos mais velha que eu, mas idade não importa. Abri a firma em 1996, mas estou aqui em atividade há muito mais tempo”, disse.

Foi nesse espaço que Eduardo batalhou ao lado da companheira. A ideia de montar um bar surgiu pela necessidade, mas precisou de atitude para apostar no empreendimento. “Iniciei o bar com a cara e coragem, não dava movimento. Primeiro abri uma portinha pra vender frango assado. Depois foi melhorando, fomos aperfeiçoando. Não tinha movimento nenhum, adquirimos a freguesia”, relata.

O nome Batafrango surgiu porque no começo, Eduardo e Maria Aparecida vendiam apenas frango e batata frita. “Unimos os nomes. Mas depois paramos com a batata”, diz o empreendedor.

Para atrair a clientela, o casal fazia o frango recheado com a guariroba. “Comprava a guariroba. Eu descascava e minha mulher picava, misturava com farinha de milho, cheiro verde e a gente colocava para assar. Mas, devido ao preço, mudamos o recheio e hoje faço com palmito. Compro o vidro de conserva e preparo para vender nos domingos. Antes era eu e ela, hoje é só eu”, afirma.

Dona Maria Aparecida tinha síndrome de Guillain-Barré, que é quando o sistema imunológico do próprio corpo ataca parte do sistema nervoso, que são os nervos que conectam o cérebro com outras partes do corpo. Realizava tratamento desde 2002, no entanto, com o passar dos anos o problema piorou.

“Estava piorando, com fraturas na coluna, foi para cama hospitalar. Tive que parar um pouco cuidar dela. Foi aí que meu genro Manoel Francisco passou a ajudar. Ela ficou dois meses de cama. Paramos de fazer comida uns seis meses antes do ocorrido, pois já não estava bem”, lembra.

Retrato da Sagrada Família que a esposa de Eduardo ganhou de um freguês para proteger o local (Foto: Paulo Francis)Retrato da Sagrada Família que a esposa de Eduardo ganhou de um freguês para "proteger" o local (Foto: Paulo Francis)

Sentado em sua cadeira enquanto conversa, Eduardo aponta para um quadro da Sagrada Família, que a esposa ganhou de um cliente para “proteger” o local. “O freguês Edelfe, um taxista, deu para ela. Mas, justamente do falecimento dela, ele veio nos visitar. Ficou assustado porque conhece a gente, comia aqui”, relata.

Ao continuar olhando para as paredes, as histórias surgem. A decoração é lembrança dos fregueses fieis que não abandoam Eduardo, e memória daqueles que se foram. Eduardo mostra a única mesinha de madeira de seu bar, onde ficava o senhor Antônio.

“Gostava de madeira, esse cantinho era reservado para o Antônio. Era cliente há mais de 20 anos, quando aumentamos o espaço, nos deu um crucifixo que fica de frente para porta e um quadro da Santa Ceia, que está na posição oposta. Ele faleceu há pouco tempo”, disse. De frente para porta, ainda tem um espelho para os clientes. “Esse ganhei de uma irmã”.

São vários os enfeites no local, e claro que para Eduardo, o que não poderia faltar era a imagem de São Jorge. “Esse é um guerreiro, e eu também”, brinca. Na parede direita do Batafrango, ainda tem uma televisão para os clientes. “A Tv também é uma distração. Tem hora que é parado, aí o freguês chega assisti. Nos finais de semana, eles vêm para assistir jogo”, disse.

Eduardo conta as histórias que aconteceram no bar nesses mais de 22 anos de existência (Foto: Paulo Francis)Eduardo conta as histórias que aconteceram no bar nesses mais de 22 anos de existência (Foto: Paulo Francis)

Causos - Entre as histórias, Eduardo se recorda de uma briga que teve em seu bar, no qual sua filha Rosa Maria foi quem parou com a algazarra. “Duas pessoas tinham saído do serviço para beber, se desentenderam e quando percebi estavam brigando. Minha filha tinha 16 anos na época, pegou uma vasilha de água e jogou no pessoal. Foi um pra cada canto”, lembra já dando risada.

Para Eduardo, Rosa Maria puxou a mãe. “Minha esposa que era assim, mais nervosa, brava e eu já calmo. Tem que ser assim, um mais maleável e outro mais rígido”, diz. Outra situação que aconteceu no bar, foi quando um cliente pediu uma faca a Eduardo para cortar mortadela.

“Quando percebi, ele já estava indo com a faca para matar outra pessoa. Sai correndo e entrei na frente para acalmar. São uns perrengues que a gente passa. Viver aqui foi difícil”, disse. Apesar das confusões, o Batafrango também é local para fazer amizades.

“O Antônio conheceu o outro freguês, Nilo. Se tornaram amigos de tanto que frequentavam aqui. Hoje, os meus clientes da antiga são quem mais vem aqui, porém, às vezes aparece uns jovens”, falou. Atualmente, Eduardo contam com a ajuda dos filhos para tocar o local. “São meus orgulhos, e da minha esposa também eram. Ficam comigo aqui. Já estão todos encaminhados, a Ana Paula é professora de Educação Física, a Rosa é funcionária pública e o Julio trabalha no banco. Estão bem”, destaca.

Funcionamento - O Batafrango funciona de segunda a segunda, das 6h às 21h. No local, Eduardo ainda vende coxinha de carne e frango, picolés, amendoins, pururuca, frango recheado aos finais de semana e claro, bebidas destiladas e cervejas de várias marcas. “Tem uns fregueses assíduos. Abro cedo, meu genro ajuda no período da tarde e à noite. Não folgo nenhum dia”, afirma.

Após perder a esposa, Eduardo revela que pensa em deixar o bar. “Tô pensando ainda. Mas quero resolver o problema do inventário, pra passar tudo aos meus filhos. A vida é meio complicada, minha irmã já chamou para viajar pra Pernambuco. Sempre tive vontade de viajar, porém vou me resolver primeiro aqui”.

O freguês fiel, Marcos Falcão, 69, conta que já frequenta o local há dez anos. “Gosto daqui porque o dono é uma pessoa simpática, atenciosa. O bar também é um espaço tranquilo. Moro aqui perto, venho todos os dias às 16h. Tem vez que venho de manhã também”, disse.

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Marcos Falcão frequenta o bar há dez anos (Foto: Paulo Francis)Marcos Falcão frequenta o bar há dez anos (Foto: Paulo Francis)



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