Empregada desde a adolescência, Sandra se formou aos 54 anos
Técnica em enfermagem chegou à vida adulta só com a 4ª série, mas nunca desistiu do sonho de estudar
Aos 54 anos, Sandra de Abreu Leiva vestiu a beca de formatura com a certeza de que cada esforço valeu a pena. Depois de décadas trabalhando em casas de família e enfrentando uma rotina exaustiva entre trabalho, ônibus e estudos, a mulher que chegou a fase adulta sem nem completar o ensino fundamental, finalmente conquistou o diploma de técnica de enfermagem.
RESUMO
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Sandra de Abreu Leiva, de 54 anos, conquistou o diploma de técnica em enfermagem após uma jornada marcada por desafios. Trabalhando desde os 12 anos como babá, ela precisou interromper os estudos devido a dificuldades financeiras e responsabilidades familiares, tendo completado apenas a quarta série do ensino fundamental inicialmente. Durante o curso técnico, enfrentou uma rotina extenuante, saindo de casa às 6h e retornando à meia-noite, conciliando trabalho como cuidadora e estudos. Apesar das dificuldades com transporte, pressão financeira e diferença de idade em relação aos colegas, persistiu em seu sonho. Agora formada, planeja atuar na área da saúde enquanto continua seus estudos de forma independente.
A formatura aconteceu no último sábado e marcou o fim de uma jornada que exigiu coragem, disciplina e muita resistência. Sandra conta que passou boa parte da vida trabalhando em casas de família e sem conseguir concluir os estudos regulares. Mesmo assim, nunca deixou de acreditar que ainda poderia estudar e mudar de caminho.
“Desde os meus 12 ou 13 anos eu já fui trabalhar de babá, porque meu pai tinha falecido e minha mãe ficou com a gente tudo pequeno”, relembra.
Por causa das dificuldades financeiras e do casamento ainda jovem, os estudos ficaram em segundo plano. Ela teve cinco filhos e passou muitos anos dedicada ao trabalho e à criação da família. Mesmo assim, o desejo de aprender nunca desapareceu.
Quando os filhos cresceram e já estavam na adolescência, Sandra decidiu voltar à escola. Na época, tinha apenas a quarta série do ensino fundamental e conseguiu concluir o ensino médio já adulta, em 2004.
Ainda assim, a rotina familiar e o trabalho impediram que ela continuasse estudando naquele momento. Foi somente muitos anos depois, já com os filhos adultos, que a vontade voltou. “Eu sempre tive sonho de fazer alguma coisa na vida, de ter uma faculdade ou estudar mais. Quando meus filhos já estavam grandes, resolvi tentar de novo”, conta.
Decidida, em 2023, Sandra começou o curso técnico de enfermagem, que durou dois anos e exigiu muito foco e força de vontade.
Durante o curso, Sandra continuou trabalhando como cuidadora em uma casa de família. “Eu saía de casa às seis da manhã e só voltava por volta da meia-noite. Ficava mais de 12 horas longe de casa porque do serviço já ia direto estudar”, conta.
Além do cansaço, o transporte também era um desafio. Sandra pegava ônibus, caronas e, às vezes, precisava recorrer a aplicativo para conseguir chegar às aulas e aos estágios. “Teve época que eu tomava chuva na ida e na volta. Eu e uma colega íamos de moto e chegávamos em casa cheias de lama, porque o uniforme era todo branco”, lembra.
Segundo ela, outro desafio foi acompanhar as matérias do curso. Como parte da formação escolar havia sido interrompida por muitos anos, Sandra encontrou dificuldade principalmente em conteúdos de matemática.
“A idade também foi uma coisa que pesou. Na sala, a maioria do pessoal era jovem e ninguém quer ficar explicando e ajudando. Tive duas amigas mais próximas, que eram as pessoas com quem eu podia contar.”
As dificuldades foram tantas que Sandra pensou em desistir diversas vezes. Além do cansaço e das viagens longas, houve momentos de pressão financeira. A mensalidade do curso era de R$ 543, valor que pesava no orçamento. “Tinha vezes que eu deixava de comprar coisas para casa para pagar o curso”, relata.
Mesmo diante de tantos obstáculos, Sandra decidiu continuar. “Eu pensei várias vezes em desistir, mas sabia que se desistisse ia perder tudo que já tinha lutado para conquistar”, diz.
Quando chegou o dia da colação de grau, no último sábado, o sentimento foi de alívio e orgulho. “Eu fiquei muito feliz e emocionada. Pensei que, se eu não tivesse lutado, não teria conseguido,” conta.
Agora, formada aos 54 anos, Sandra quer trabalhar na área da saúde. Enquanto procura oportunidades como técnica de enfermagem, ela continua trabalhando em casa de família, mas já prepara currículos e estuda por conta própria para se aperfeiçoar.
“Eu quero atuar na área. Vou continuar estudando pela internet e aprendendo mais. Antes eu sentia falta de conhecimento. Às vezes eu ia a um hospital ou posto de saúde e nem sabia dos meus direitos. A educação é fundamental”, comenta.
Sandra também deixa um conselho para quem pensa em desistir de estudar por causa da idade. “Não pode desistir de um sonho. A gente sempre tem que continuar estudando, não importa a idade. Não pode parar”, finaliza.
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