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Campo Grande, Domingo, 25 de Junho de 2017

07/01/2017 07:05

Gêmeos, Henrique e Helena vão conhecer seu "Tô" pelas histórias que o avô deixou

Seu Tô não chegou a ver os netos, mas as crianças vão conhecê-lo pelas histórias e banhos de chuva

Paula Maciulevicius
Seu Tô com os filhos: Carla, Paula, Vitor e a esposa Maria Ines (primeira e única namorada desde os 14 anos) na praia em 1991. (Foto: Arquivo Pessoal)Seu "Tô" com os filhos: Carla, Paula, Vitor e a esposa Maria Ines (primeira e única namorada desde os 14 anos) na praia em 1991. (Foto: Arquivo Pessoal)

Paula engravidou três anos depois de perder o pai. O sonho do seu "Tô" era de ser avô para poder brincar de mangueira e levar os netos para tomar banho de chuva contrariando o possível "não" dos pais. Veterinário, Heitor Heleno de Souza Faria tinha 64 anos. À época, lhe deram três meses de vida, mas ele desafiou com otimismo o câncer no cérebro e sobreviveu mais de um ano. 

"Brincalhão e sério ao mesmo tempo". A descrição carrega consigo uma risada, talvez a mesma que a Paula menina tenha dado em todas as vezes que o pai soltava bolhinhas de sabão. Funcionária pública federal, são as histórias que ela e a família guardam na memória, que vão dizer aos filhos gêmeos de Paula: Helena e Henrique, quem era o avô.

"Ele era carioca, se formou e veio para Mato Grosso do Sul. Minha mãe também veio depois e eles se casaram. Eles namoravam desde os 14 anos, foram os únicos namorados um do outro", conta Paula Gonçalves Faria, de 35 anos.

Veterinário, diversão do pai era juntar as crianças e brincar com água no quintal. Veterinário, diversão do pai era juntar as crianças e brincar com água no quintal.

Com o tempo, os familiares se estabeleceram todos aqui e os três filhos de Heitor já nasceram em Campo Grande: Paula, Vitor e Carla. O apelido "Tô" vem de "Totô" dado pelos colegas de faculdade no Rio de Janeiro.

Quando seu Tô descobriu a doença, a filha que tinha um certo problema de relacionamento, passou a vê-lo de outra forma. "Ele ficou muito otimista. A gente brigava muito, eu não compreendia muito ele e a doença aproximou a gente. Ele ficou uma pessoa muito doce", recorda.

Não se sabe se a doçura vinha pela área do cérebro afetada pelo câncer ou porque foi a forma mais natural dele lutar contra a doença. "Todo mundo fala que uniu ainda mais a nossa família. A doença deu uma chance para a gente e meu relacionamento mudou muito", relata. 

Uma das histórias que ele repetiu mil vezes foi de que quando ganhou um campeonato de twist, o que lhe deu o status eterno de bom dançarino.Uma das histórias que ele repetiu mil vezes foi de que quando ganhou um campeonato de twist, o que lhe deu o status eterno de bom dançarino.

Seu Tô não chegou a ver os netos. Henrique e Helena nasceram no início de dezembro. "O sonho dele era ser avô. Queria porque queria um neto. Tentei engravidar sete anos, quando eu ia fazer o tratamento de fertilização, descobrimos a doença dele e fiquei na maior dúvida", conta. 

Os três meses dados pelos médicos foram transformados em mais de um ano. Heitor passou por uma cirurgia complicada, de risco e saiu dela falando. Depois de partir, Paula se separou, casou de novo e quando fez o tratamento, engravidou de gêmeos.

"Eu acho que ele deu uma ajudinha e onde estiver, tenho certeza de que está feliz. O tempo todo eu fico pensando que se ele estivesse aqui, ia curtir. A dor se transformou nisso numa saudade gostosa", narra. 

Os gêmeos ainda têm só um mês, mas quando crescerem, vão ouvir toda narrativa de quem era o vô "Tô". "Vou contar todas as histórias que ele contava mil vezes e as brincadeiras que fazia", promete a mãe. 

O quintal de casa era o lugar preferido da família e o que traz as melhores lembranças da infância. "Quero passar essa parte para os meus filhos e a minha sobrinha. Os banhos de mangueira, as bolhinhas de sabão. Me lembro muito dele brincar com água, fazer cachoeira e sempre que chovia, os pais diziam 'não pode', mas ele não, era: 'vamos todo mundo tomar banho de chuva''", lembra Paula.

Paula com os netos de Tô, que vão conhecer o avô pelas histórias. Paula com os netos de Tô, que vão conhecer o avô pelas histórias.

Sem saber o final das histórias, o pai misturava todos os contos infantis, o que deixava as crianças bravas e hoje traz saudade à Paula adulta. "Ele contava tudo errado ou misturava uma com a outra", ri. 

Além das historinhas, as próprias vivências também eram relatadas infinitas vezes. "Contava mil vezes a mesma coisa, que um dia ele venceu um campeonato de twist no Social Clube. Ele se achava um ótimo dançarino. Também contava que jogou futebol com o Didi dos Trapalhões", recorda.

Essa eles não conseguiram confirmar, mas que ele tinha uma amizade com João Barone, baterista dos Paralamas. "Uma vez eles vieram fazer show na exposição e nós fomos com a família. Ele dizia que ia entrar porque era muito amigo. A gente nunca acreditou e ele botou todo mundo para dentro do camarim. Era verdade mesmo", gargalha Paula. 

E antes que a gente pergunte o que ficou de quem partiu, a filha se antecipa como quem sabe o que fazer para passar o legado adiante: "São essas as histórias do seu Heitor que vão ficar". 

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