João venceu 2 infartos e segue no "ponto do milho" há 22 anos
Com sacolas a R$ 20 a dúzia, João mantém a rotina na Marechal Deodoro para complementar a aposentadoria
A rotina de João Rodrigues dos Santos, de 75 anos, começa cedo, antes das 6 horas. Quem passa perto do Terminal Bandeirantes com certeza já viu o homem vendendo milho por lá. Há 22 anos ele estaciona o carro, varre a calçada e espera os clientes comprarem as sacolas por R$ 20 a dúzia. Mesmo depois de dois infartos, João segue firme no mesmo ponto, fazendo o que ajuda a complementar a aposentadoria.
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O assunto ainda é delicado. João chora ao lembrar que foi ali, no trabalho, que passou os piores momentos da vida, achando que morreria do coração.
“Eu tive dois infartos, um seguido do outro, há quase um ano. O coração já está meio velho. Eu não sinto nada, de repente apago. Tem gente que fala que sente dor, mas comigo não é assim. Eu estava trabalhando aqui de manhã. Descasquei o milho, embalei e apaguei. Estava sozinho".
Ele conta que acordou, foi para o lado do carro, lavou o rosto e apagou de novo. Ficou caído no chão. "Me machuquei um pouco. Depois acordei, fui para casa e, em seguida, para o hospital. Eu sabia que estava infartando porque já tinha passado pelo primeiro”, contou.
João diz que se sente grato por ter sobrevivido, mas ainda se surpreende por não sentir nenhum sinal de que algo estava errado com o coração. Depois do mal-estar, precisou colocar quatro stents no peito. Foram 8 dias no CTI (Centro de Terapia Intensiva) e mais alguns dias de internação.
“Eu choro porque ninguém quer ficar doente. Eu me emociono fácil. Agora tomo remédio contínuo. Depois do infarto, eu pedalo de bicicleta. Vida que segue. O dia de morrer é o dia de morrer. Quando a morte vem, não tem jeito”, disse, em tom de brincadeira.

Antes do milho nas ruas, João trabalhou como vendedor em uma loja de materiais de construção. Foram 17 anos no emprego até a aposentadoria. Com a nova fase, também vieram as dificuldades.
“Não tinha mais serviço para mim. A minha área era mexer no computador a vida toda. Estava parado, aí meus amigos estavam vendendo milho. Eu fiquei meio assim, nunca me veio à mente trabalhar com isso, mas me sinto tranquilo. Quando vi que dava dinheiro também aceitei. Hoje complementa bem”.
Segundo João, em um bom dia, as vendas chegam a 20 sacolinhas. Com as festas juninas, a procura costuma melhorar. Ele lembra que, no início, precisava ir até as plantações para buscar o milho, um trabalho bem mais puxado que o de hoje.
“Vendo o ano inteiro. Nessa época fica mais barato nos lugares, mas eu não mexi no meu preço porque daqui uns dias já não tem milho, aí tem que pegar de fora e a qualidade é menor. Agora nem vou mais à roça buscar milho, ia no mato cedo, me molhava tudo. Era bem trabalhoso e agora está tranquilo. Isso, graças a Deus, me mantém. Já comprei carro e moto”.
João vende milho na Avenida Marechal Deodoro, próximo à loja Casarão Móveis. Fica das 7h às 17h.
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