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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

08/03/2018 07:10

Leila e João perderam 2 filhos em 1 dia e por anos dormiram longe das lembranças

Um acidente levou Izaquiel e Djonatan, quando seguiram para montar a estrutura de um show

Thailla Torres
Izaquiel, o mais velho, era um apaixonado por música e Djonatan, um super fã do irmão, que o acompanhava em eventos e não perdia uma só apresentação. (Foto: Arquivo Pessoal)Izaquiel, o mais velho, era um apaixonado por música e Djonatan, um super fã do irmão, que o acompanhava em eventos e não perdia uma só apresentação. (Foto: Arquivo Pessoal)

Izaquiel e Djonatan nunca souberam ficar sós. Eram irmãos que, desde pequenos, festejavam e sofriam juntos. Izaquiel, o mais velho, era um apaixonado por música e Djonatan, um super fã do irmão. Ambos viveram pouco mais de duas décadas, quando uma fatalidade os levou de vez em uma estrada. A dor veio forte, mas a mãe encontrou uma forma de amenizar a tragédia ao acreditar que o destino quis que os dois estivessem sempre lado a lado, inclusive, na morte.

Os irmãos partiram em setembro de 2010, em um acidente de caminhão, durante viagem para Camapuã, a 145 quilômetros de Campo Grande. Djonatan trabalhava com o pai, dono de uma empresa que monta estrutura e som para eventos, e naquele dia montaria o palco para o show da dupla Munhoz e Mariano no aniversário da cidade. Izaquiel não deveria ir junto, mas decidiu pegar a estrada ao lado do irmão porque um dos funcionários havia faltado.

Nas palavras da mãe Leila Krauspenhar, de 52 anos, e do pai João Elir Gomes, de 54, a saudade tem lembranças de momentos bons, capazes de trazer força ao coração do casal, que durante anos dormiu na sala na esperança que a dor que sentiam não passasse de um pesadelo.

Na época, Djonatan deixou uma filha, de 3 anos, que hoje é a alegria dos avós dentro de casa e prova todos os dias que a vida segue, mesmo que seja com outra fonte de amor. "Ela é o sorriso da casa, a nossa força. Quando o pai dela se foi, a mãe sofreu muito e nós nos abraçamos dentro do possível. Hoje eu sei o que ele partiu, mas nos deixou um amor", diz o avô.

Os irmãos eram parceiros em todos os momentos da vida. (Foto: Arquivo Pessoal)Os irmãos eram parceiros em todos os momentos da vida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Juntos há 4 décadas, Leila e o João eram o exemplo de uma família feliz. Festas, viagens, aniversários ou uma simples roda de conversa, se transformavam em alegria com os amigos. Os únicos filhos, participavam de tudo. 

"Os dois sempre foram muito parceiros. Cada um com seu jeito, mas com a mesma energia para viver. Eram do tipo que ligavam pra gente às 2h da madrugada para avisar que iam até a casa dos amigos assistir uma dupla sertaneja cantar", diz a mãe.

Conhecidos por duplas sertanejas do Estado, Izaquiel e Djonatan eram também colegas de Munhoz e Mariano, que já davam pistas do sucesso que estava por vir. "Um dia eles, me ligaram de madrugada, chamaram eu e o pai para assistir os meninos, numa casa de amigos e disseram que a dupla iria explodir no Brasil inteiro. A gente assistiu e concordou com eles, mas quando eles fizeram sucesso, meus meninos já tinham ido embora".

Em 2010, Djonatan, faria mais uma viagem para montagem de som e palco de um show. Era uma quinta-feira e estrutura tinha que chegar a tempo para o show da dupla em Camapuã, em comemoração ao aniversário da cidade.

Leila guarda o álbum de fotografias dos filhos.Leila guarda o álbum de fotografias dos filhos.
Para João, a saudade é do amor mais puro que já teve na vida. Para João, a saudade é do amor mais puro que já teve na vida.

Izaquiel soube que um dos funcionários da empresa havia faltado e foi ajudar o irmão no carregamento. Depois de abastecer o veículo, o pai ainda falou que não tinha necessidade do mais velho pegar a estrada junto com Djonatan, mas ele insistiu e subiu no caminhão. "Ele nunca viajava assim de repente. Mas naquele dia, insistiu que queria ir. Eu estava em um carro de passeio, com outro funcionário e havia lugar, mas ele insistiu em ir com o irmão", conta João.

Os dois foram na frente, entre eles e o pai, eram só alguns minutos de distância. Quando o João finalmente alcançou os filhos na estrada, viu a cena mais dolorosa que podia imaginar. "Garoava muito naquele dia e um caminhão que vinha no sentido contrário derrapou e a carroceria ficou atravessada na pista, pegou de frente o caminhão dos meninos".

Na cabine, só um funcionário que acompanhava os irmãos sobreviveu. "Eu entrei em choque. Sempre fui daqueles pais que defendia os filhos com unhas e dentes, ninguém mexia com os meus meninos. Mas naquela hora eu não consegui chorar e gritar, eu fiquei estático, era como se naquele momento o relógio tivesse parado e depois veio um filme da vida deles na cabeça".

O show daquele dia foi cancelado e aniversário da cidade transferido para a semana seguinte. Enquanto Leila recebeu a notícia por telefone e foi amparada pela família e as melhores amigas. "Eu entrei em desespero. É um misto de dor e revolta muito grande. Você nunca imagina que vai perder os filhos e enterrá-los, foi a coisa mais triste que já tive na vida".

Mãe, pai e os filhos em casa. (Foto: Arquivo Pessoal)Mãe, pai e os filhos em casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

A família perdeu tudo. Dos filhos ao que tinham da empresa que garantia o sustento de todos. O funeral aconteceu com ajuda de amigos e familiares. Técnica de laboratório em um hospital da cidade, as amigas de Leila contribuíram para que o enterro acontecesse na cidade. Depois veio a dor que demorou cerca de três anos para dar uma trégua. "João ficou um ano sem conseguir trabalhar e a gente, pelo menos três dormindo na sala, sem conseguir ir para o quarto, porque passávamos a noite pensando nos meninos. Nos dias de desespero, eu só gritava dentro de casa", diz Leila.

Após dois meses do acidente, a residência do casal na Vila Piratininga foi assaltada. Ladrões levaram o violão, notebook e objetos do quarto dos filhos. Por sorte, Leila conseguiu guardar o álbum de fotografia da infância e os melhores momentos em família. Do que tinha digitalizado, tudo foi impresso e agora está visível na parede. Quem entra na sala entende, só pela fotografia, o significado da alegria que os pais tanto sentem falta.

Oito anos depois, Leila acredita que a família deu a volta por cima, quando passou a acreditar que os os filhos têm a missão de caminharem juntos. "Foi difícil entender, mas hoje a única resposta que me deixa calma é que eles viveram o tinha pra viver e seguiram um novo caminho. Aquele dia, aquela viagem, tudo era pra ser. Não tem outra explicação".

Para o pai, as palavras de Leila trazem alento, mas ele admite que é difícil avançar. "O relógio ainda parece ter parado no tempo. Eu voltei a viver, trabalhar, mas não consigo até hoje ficar em um show. Toda vez que vejo um artista no palco, me vem eles dois na cabeça. Viajo, monto toda a estrutura e vou para um hotel. Volto no outro dia para a desmontagem, mas a música nunca mais teve sentido".

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Quadros com fotografias que hoje ficam na sala.  (Foto: Arquivo Pessoal)Quadros com fotografias que hoje ficam na sala. (Foto: Arquivo Pessoal)
O sorriso que ficou na saudade. (Foto: Arquivo Pessoal)O sorriso que ficou na saudade. (Foto: Arquivo Pessoal)


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