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Campo Grande, Sábado, 18 de Agosto de 2018

12/01/2017 06:05

Lições de uma quase volta ao mundo: Em 1 mês, conheci 6 países em 3 continentes

Para quem está de fora, essa viagem pode parecer uma ostentação, mas acredite não é.

Paula Maciulevicius
Danilo Jovê no Castelo de Chambord, na França. Danilo Jovê no Castelo de Chambord, na França.

Já tem três semanas que as redes sociais são alimentadas por fotos incríveis da volta ao mundo de Danilo Jovê. Design gráfico e empresário, o jovem tem 28 anos e resolveu em um mês, passar por seis países em três continentes: Espanha, Inglaterra, Suíça, França, China e Austrália. Na última semana da viagem, ele tirou um tempinho e escreveu seu relato ao Lado B para inspirar leitores a fazerem as malas. 

Danilo nos Doze Apóstolos, na Austrália. Danilo nos Doze Apóstolos, na Austrália.

"Muito se fala sobre os benefícios de uma viagem, basta jogar no Google que várias frases clichês irão aparecer. Mas verdade seja dita, viajar é um remédio para a alma e somente quem viaja pode descrever os efeitos mágicos que fornece ao espírito. Um lugar que tenha culturas e costumes diferentes então, traz uma renovação que vai além do espiritual, expande horizontes, cria entendimentos e elimina preconceitos.

A inspiração é tamanha que mesmo longe da rotina já é possível imaginar aonde se poderá aplicar algo que se viu, seja no trabalho, em casa ou até mesmo uma ideia revolucionária que não existe na realidade brasileira. 

E em uma viagem grandiosa com duração de um mês, passando por seis países, visitando três continentes, não poderia ser diferente e agora faltando aproximadamente uma semana para encerrar essa mini volta ao mundo, eu já me sinto uma nova pessoa.

Sei que para quem está de fora, essa viagem pode parecer uma ostentação, mas acredite não é. Uma passagem de Rio Branco do Acre para Campo Grande custa a mesma coisa que uma passagem do Brasil para a Suíça. Sei disso pois minha mãe que mora nesse estado "tão tão distante", e comprou uma passagem para passar o fim de ano na Cidade Morena e pasmem, foi o mesmo valor que eu paguei para ir ate a Suíça.

Além disso, eu tive a sorte de conhecer, conviver e cativar pessoas que ousaram se aventurar para fora do país, e que agora que possuem a vida estabilizada, puderam me receber em suas casas e em suas rotinas. Ahhh a rotina... Sem dúvida foi o mais legal dessa experiência, fugir dos pontos turísticos e conviver com pessoas que possuem uma vida nos lugares visitados por mim. E foi graças a isso que pude conhecer lugares que site de turismo algum indica. E foi com isso que me aprofundei ainda mais na cultura local.

Pode parecer que a vida fora do país é um mar de rosas, mas para um imigrante as coisas são difíceis. Minha prima sofreu bullying na escola por ser latina, uma amiga estudou Direito por anos para ser bartender em Londres. Uma outra amiga mestranda trabalha como segurança em uma escola na Suíça. Todo o trabalho é digno, não me entendam mal, profissão alguma merece ser desvalorizada, mas todos eles dedicaram uma parte de suas vidas para seguir uma determinada carreira e no exterior, nem sempre o diploma brasileiro tem força. Eles precisam se virar e acabam empregados em áreas bem diferentes das que haviam idealizado. Só que o mais curioso é que mesmo passando por dificuldades, todos dizem que o melhor é abandonar o Brasil e migrar para um "país de primeiro mundo".

Na Suíça, a diferença de salário de um médico e de um gari, por exemplo, é baixa. O custo de vida é muito alto, sendo Genebra uma das cidades mais caras da Europa, mas uma vantagem para um trabalhador suíço é a possibilidade ter uma jornada de trabalho mais curta, tendo assim mais tempo para viver. Os suíços não inferiorizam qualquer tipo de trabalho, para eles trabalhar é um mérito, não importa qual a profissão. Eles acreditam que todos são parte de um sistema integrado que funciona para o bem da comunidade, para eles vergonha é depender do governo pois um dependente governamental usufrui do imposto que outro cidadão paga.

Um país de primeiro mundo parece ter uma realidade tão distante do Brasil, mas a verdade é que compartilhamos tantas coisas em comum que poderia até dar esperanca para o mais descrente dos brasileiros.

Divisa da Suíça com a França, Monte Salève. Divisa da Suíça com a França, Monte Salève.
Sydney Tower, Austrália. Sydney Tower, Austrália.
Sea Life. Sea Life.

A Austrália foi a maior das revelações, me arrisco a dizer que o país pode ser um primo distante do Brasil. Ambos possuem um clima quente, com uma diversidade de paisagens, com pessoas simpáticas e amantes da natureza. Os australianos gostam de se exibir nas praias, mas também curtem explorar locais exóticos e passar um dia agradável tomando banho de rio. A fauna do país é tão rica, diferente e convivem em harmonia, lado a lado, pessoas e animais. Não parece algum lugar que você conhece? Para mim parece com o meu Brasil.

Mas por alguma razão a Austrália tornou-se um país com uma das maiores qualidades de vida do mundo, com uma criminalidade baixíssima e com um dos maiores salários do planeta. Enquanto que o primo Brasil seguiu o caminho oposto, perigoso, corrupto, desvalorizado e em crise.

A semelhança entre os dois fica ainda mais chocante quando chegamos ao sul do país, com uma agropecuária bem forte e uma paisagem com fazendas que lembra muito o Mato Grosso do Sul. Isso já foi o bastante para que eu me questionasse, onde foi que erramos? Se temos recursos semelhantes, por que não nos tornamos parecidos? E o Brasil é muito mais rico em recursos naturais que a Austrália, nós possuímos água abundante, petróleo, ouro e outras riquezas. Só que o problema não está na geografia brasileira e sim na administração política. 

Curioso que encontrei com brasileiros na Suíça, França e Austrália e todos eles demonstravam descontentamento com o Brasil. Fui questionado se iria ficar pelas terras estrangeiras, quando respondia que não, estava apenas a passeio, eles já respondiam que eu precisava ficar, que não dava para voltar. E quanto mais eu me aventurava na cultura local e na rotina das pessoas que me hospedaram mais me batia um misto de indignação e curiosidade. Por que não temos todas essas oportunidades? Por que aqui é mais barato? Estamos a viver ou a sobreviver em um sistema que apenas suga todas as nossas energias?

Do outro lado do Atlântico as coisas funcionam, o transporte público é maravilhoso, a saúde pública é decente e as cidades são ambientes vivos, sediando eventos gratuitos. Os países investem pesado na satisfação de seus cidadãos.

Divulgar algo assim para outros brasileiros parece ser algo surreal, mas o que aparenta ser uma história de ficção científica, é a realidade de muitas pessoas. O difícil é fazer com que o povo brasileiro entenda a situação precária em que vivem. Já me deparei com pessoas tentando conscientizar outras sobre como somos explorados e o que sempre observo é uma reação de ódio gratuito, com pessoas mandando outras embora do país, usando termos como 'babá ovo de gringo'.

Parafraseando o mito da caverna de Platão, preciso informar a todos que uma vez que se sai da caverna é impossível voltar, mesmo que as demais pessoas não aceitem as novas descobertas, existe um mundo lá fora, e se juntos unirmos nossas forças, poderemos fazer com que sejamos iguais.

Precisamos ser como um australiano que ao desapegar de seus pertences os coloca na frente de casa para que outra pessoa possa aproveitá-los, ou como um suíço que trabalha pouco, ganha muito e aproveita mais o tempo.

Fica aqui meu convite para que você que está lendo saia da caverna comigo e não volte jamais. Chega de sobreviver, vamos viver!"

Tem um relato bacana de viagem? Manda para a gente no Lado B!

Wilson Life, também na Austrália. Wilson Life, também na Austrália.


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