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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

05/06/2018 09:00

Nas antigas páginas dos diários de 16 anos atrás, Évelin redescobre essência

Viagem no tempo serviu para reencontrar otimismo, inocência... coisas que podem fazer falta nas decisões da vida adulta.

Thaís Pimenta
Évelin tem guardado seis pérolas na casa de sua mãe e divide com a equipe do Lado B alguns dos segredos escritos neles. (Foto: Paulo Francis)Évelin tem guardado seis pérolas na casa de sua mãe e divide com a equipe do Lado B alguns dos segredos escritos neles. (Foto: Paulo Francis)

Oito anos da vida da jornalista e mestra em Letras, Évelin Gomes, de 34 anos, foram passados ao lado de seus diários, num mundo alternativo em que ela se descobria com a caneta e o papel nas mãos. Seus anjos e demônios, como ela mesmo define o misto de sentimentos guardados na infância e início de juventude, foram redescobertos essa semana, em uma visita à casa de sua mãe em Campo Grande.

A viagem no tempo serviu para reencontrar vontades, otimismo, inocência... fatores que a gente muitas vezes esquece no passado, mas que podem fazer uma falta danada nas decisões da vida adulta.

"Eu sabia que eles estavam guardados na casa de minha mãe mas nem me lembrava deles. Foi ela quem guardou essas pérolas pra mim. Eu tenho sete diários, minha irmã tem um, todos permaneciam lá", diz.

Com tanta memória em mãos, lembranças de amigos que hoje nem existem mais em sua vida e, por outro lado, de inícios que permanecem até a atualidade, como o primeiro recadinho do marido, Évelin ficou curiosa para descobrir a antiga menina que vivia ali do outro lado daqueles cadernos, e chegou a algumas conclusões.

"Eu era uma menina solitária. Tive uma educação rígida e minha irmã era 11 anos mais velha, então minha realidade mais natural era estar envolta aos livros, aos diários e recortes de revistas". Não por acaso, quase seis anos do primeiro livro de segredos, a jovem estava prestando vestibular para Jornalismo na Capital.

A página em que relata ter vivido o melhor dia da vida ao ver Michel Teló tocando. (Foto: Paulo Francis)A página em que relata ter vivido o melhor dia da vida ao ver Michel Teló tocando. (Foto: Paulo Francis)

As milhares de páginas dos diários eram como os ouvidos dos melhores amigos. Tanto, que no primeiro deles, escrito entre os anos de 1995 e 1996, a jornalista dialogava diretamente com as folhas. 

"Essa relação veio a mudar no segundo caderno, de 1997, em que eu passei a escrever relatos dos dias e não mais a criar conversas com ele", conta. Anos depois, em 2001, o diário foi pouco a pouco mudando de formato, e deixando de ser uma autobiografia de seus dias para virar agenda da faculdade

Verdadeiras pérolas foram resgatadas do fundo do baú das memórias, como a paixonite que a menina tinha pelo músico Michel Teló, que ganhou uma foto de página inteira em um de seus diários com uma declaração em que relatava ter vivido o dia mais feliz de sua vida quando pode ver o sertanejo tocar ao vivo. "Eu era baileira, adorava sertanejo e tem várias lembranças desses passeios aqui".

A essência de menina inocente, romântica e de coração sem dono, que vivia apaixonadinho pelos galãs da rede global brasileira estavam escancaradas ali. Na verdade, nem tão escancaradas assim, já que muitos dos textos contavam com doses de mistério e até mesmo linguagem secretas que só ela e a melhor amiga, Andréa, entendiam.

"Fuçando neles já descobri uns quatro códigos diferentes criados por mim para proteger a intimidade do que estava escrito. Acho que criamos essas dificuldades porque já aconteceu de ter um dos diários roubados e fiquei com medo de estar me expondo demais caso algo assim acontecesse de novo".

Cartas, fotos, recortes, adesivos e tudo que envolvia essa atmosfera jovem dos anos 90 estão pregados nas páginas secretas. Lembranças de momentos especiais, momentos de revolta e poesias impressas e escritas no papel permitem a imersão na Évelin do passado.

Jogo de perguntas era brincadeira feita pelas meninas. (Foto: Paulo Francis)Jogo de perguntas era brincadeira feita pelas meninas. (Foto: Paulo Francis)
Quando os poemas estavam bons, ela digitalizava. Esse, claramente tem relação com Legião Urbana. (Foto: Paulo Francis)Quando os poemas estavam bons, ela digitalizava. Esse, claramente tem relação com Legião Urbana. (Foto: Paulo Francis)

A paixão por música, pelo cinema e pela literatura já estavam explícitos ali. O que o futuro fez foi só encaixar todas essas coisas na vida profissional de Évelin, que tem um trabalho em que reflete sobre a conexão entre a sétima arte e Letras.

O mestrado a fez descobrir a literatura feita por meio de diários como o a cubana Wendy Guerra e Anne Frank. "Eu me identifiquei muito com os livros delas. Claro que o conteúdo abordado nas obras dessas mulheres são de resistência, guerra, é outro cenário, mas o poder do relato diário é isso". 

"Eu não escrevia esses textos pensando que viria a trabalhar com Jornalismo e com as palavras. Foi tudo acontecendo de forma natural". O amor pelas palavras era tão grande que no começo da adolescência, em 1999, ela chegou a lançar um livro "Segredos Secretos".

Com palavras soltas, sem muito sentido, dividindo espaço com poemas e desabafos, ela foi uma das muitas meninas que aproveitaram essa fase tendo um papel e um lápis na mão. Hoje em dia, com os blogs e redes sociais é raro encontrar crianças com o mesmo hábito de Évelin.

A impressão que fica para ela é que a jovem decidida de si tomou lugar da menina solitária e triste do passado e, numa forma de deixar a antiga fase de lado, também deixou os diários dentro do armário. Só depois de 16 anos abriu coração para se reinterpretar como mulher e entendeu que ainda carrega um pouco da Évelin do passado.

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Professor e seus amigos podiam  escrever e anotar mensagens nas páginas. (Foto: Paulo Francis)Professor e seus amigos podiam escrever e anotar mensagens nas páginas. (Foto: Paulo Francis)
Explicação para os códigos que Évelin e a melhor amiga criaram. (Foto: Paulo Francis)Explicação para os códigos que Évelin e a melhor amiga criaram. (Foto: Paulo Francis)


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