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Comportamento

Pedagogo é o 1° surdo de MS a conquistar doutorado

Adriano apresentou um trabalho voltado ao protagonismo dos surdos nas instituições de ensino em Mato Grosso do Sul

Por Thailla Torres | 11/07/2020 07:20
O orientador Heitor, o novo doutor Adriano e o intérprete Claúdio, durante processo de pesquisa.
O orientador Heitor, o novo doutor Adriano e o intérprete Claúdio, durante processo de pesquisa.

O pegagogo campo-grandense Adriano de Oliveira Gianotto, 38 anos, se tornou, na tarde de ontem, 11 de julho, o primeiro surdo a defender uma tese de doutorado em Mato Grosso do Sul. Adriano apresentou um trabalho voltado ao protagonismo dos surdos nas instituições de ensino, a partir de suas próprias dificuldades como pessoa com deficiência no ambiente acadêmico e um resgate histórico.

É por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras) que Adriano expõe as necessidades da comunidade surda, a qual ele pertence desde o nascimento e luta para que ela ganhe, cada vez mais, espaço na sociedade. E foi com sua linguagem e a ajuda de um interprete que concluiu o doutorado em Desenvolvimento Local na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), com o tema “O protagonismo da pessoa surda do ponto de vista do desenvolvimento local”.

Apresentação de doutorado do Adriano.
Apresentação de doutorado do Adriano.

Sob orientação do professor Dr. Heitor Romero Marques, a apresentação foi por videoconferência, uma banca composta por ouvintes e um intérprete. O trabalho traz um resgate histórico em relação à educação voltada para a comunidade surda, em Mato Grosso do Sul, propõe meios de inserção dos surdos nas instituições de ensino e evidencia como a inclusão social pode ser um fator que influência o desenvolvimento local.  Além de pesquisa bibliográfica, o estudo faz uma análise qualitativa a partir de entrevistas com surdos e ouvintes.

“Busquei analisar o processo de inclusão linguística e social da comunidade. Pretendi evidenciar o surdo, a nossa língua, a nossa cultura, a nossa identidade e as práticas educacionais e sociais que já estão sancionadas legalmente e que por não terem sido implementadas agravam a exclusão social dos surdos. No decorrer desta pesquisa, me deparei com situações que ‘desterritorializam’ linguisticamente o povo surdo, como a ausência de visibilidade, de protagonismo e de lutas pela valorização da língua e de seus usuários natos”, explicou Adriano.

De acordo com o novo doutor, a principal barreira enfrentada durante a trajetória acadêmica é a mesma que muitos surdos enfrentam no dia a dia: a invisibilidade e desinformação da sociedade sobre o cotidiano de pessoas surdas. “Eu já fui muito invisível no meio acadêmico, tive obstáculos das pessoas não me verem como capaz, das pessoas não acreditarem e tudo isso eu mostro dentro da minha pesquisa, como isso ocorre”, conta.

Por isso, a partir da pesquisa, Adriano pretende contribuir com a própria comunidade: “Eu quis trazer à tona esta temática e colocá-la em pauta para possíveis reflexões e ações que visam diminuir as barreiras sociais; ajudar com novas propostas nas legislações municipais; ampliar o desenvolvimento local, no sentido linguístico do termo, e promover o entrelaçamento linguístico entre surdos e ouvintes”, ressaltou o pesquisador.

Adriano é o primeiro doutor surdo de MS
Adriano é o primeiro doutor surdo de MS

De uma família que sempre o apoiou, Adriano sabe que o novo título pode ser uma inspiração para outros surdos, mas ele não quer só isso. “A primeira coisa que a gente tem que pensar é que a criança precisa ir para a escola, conhecer sua própria língua, conhecer a comunidade, as associações e fazer parte do mundo. Eu tive influência de intérpretes, professores surdos, e isso é uma caminhada importante”.

Para que fosse possível o desenvolvimento da pesquisa, a universidade deu suporte como acompanhamento com intérprete de Libras, tanto durante as aulas, quanto nas orientações e apresentações de trabalhos em eventos científicos.

Vencida essa nova batalha, Adriano agradece e diz que o próximo é continuar lutando. “Eu primeiramente sou muito grato a Deus por tudo. Tem muito ouvinte que fala que o surdo não tem cabeça. Mas eu sempre tive muito esforço, a minha família sempre me estimulou e eu sou muito grato a isso. Tivemos dificuldades de organizar o caminho, mas chegar ao doutorado já me deu muito orgulho, é uma forma de devolver à sociedade essa confiança. Agora quero mostrar que o conhecimento é para todos e é importante que as pessoas vejam que, nós surdos, somos capazes”.

Ainda de acordo como o recém-titulado doutor, para melhorar a inclusão de pessoas surdas, é necessário um trabalho em conjunto com ouvintes. “Nós somos 10 milhões de surdos no Brasil, nós temos nossa identidade, nossa língua e nossa cultura, mas, às vezes, nossa própria família não sabe a nossa língua. Nós precisamos nos relacionar, não é fácil viver separado, a gente precisa estar junto, a família precisa ter esse interesse. As pessoas precisam conhecer, ter empatia pelo mundo do surdo e caminhar junto”, finaliza.

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