Pioneiro dos fogos, Policarpo partiu e deixou legado de luta e trabalho
Empresário tinha 90 anos e era dono da loja de foguetes e rojões mais antiga de Campo Grande
A porta da Brasfogos abriu por décadas quase todos os dias no mesmo endereço, mas, no último sábado (10), foi a história de quem a construiu que chegou ao fim. Aos 90 anos, morreu Policarpo Matias de Lima, empresário conhecido por comandar a loja de fogos mais antiga da cidade e, por deixar um legado de trabalho, amor à família e resistência diante das dificuldades da vida.
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Policarpo Matias de Lima, fundador da Brasfogos, a mais antiga loja de fogos de artifício de Campo Grande, faleceu aos 90 anos no último sábado. O empresário, que chegou à cidade em 1959 vindo do Rio Grande do Norte, construiu uma história de superação e trabalho árduo, começando como barbeiro até estabelecer seu próprio negócio. Inicialmente proprietário de uma pequena mercearia, Policarpo fundou a Brasfogos em 1983. Além do legado comercial, deixou um exemplo de dedicação familiar, tendo ajudado a estabelecer parentes na cidade e garantido melhores condições de vida para seus cinco filhos, nove netos e cinco bisnetos.
Policarpo morreu dormindo, de forma tranquila, após complicações de saúde. Segundo a filha Irene Coutinho de Lima, ele enfrentou uma gripe que evoluiu para pneumonia. Apesar da melhora no quadro respiratório, a função renal, que já estava comprometida, acabou ficando ainda mais debilitada. “Com a idade e o excesso de medicamentos, o rim ficou mais fraco. Mas ele não sofreu. Dormiu e partiu em paz”, conta.
Mesmo com a saúde mais frágil nos últimos anos, Policarpo se recusava a se afastar da rotina que sempre deu sentido à sua vida. Até o fim de dezembro, ele ainda fazia questão de ir à loja. “A gente trazia ele e a minha mãe. Ele vinha, conversava com os vizinhos, fazia uma caminhadinha leve. Estava mais debilitado fisicamente, mas a mente estava boa”, lembra Irene.
Era ali que ele se sentia vivo. Muitos chegavam acompanhados dos filhos e repetiam a mesma frase: “Eu vim aqui com meu pai”. Para a família, aqueles encontros eram um retrato dos vínculos que Policarpo construiu ao longo de décadas.
A história do empresário começou longe daqui. Nascido no Rio Grande do Norte, Policarpo chegou a Campo Grande em 1959, ainda jovem, sem dinheiro e sem garantias. “Ele sempre falava que chegou aqui e dormiu no banco da praça até alguém dar trabalho”, conta a filha. Antes de ser comerciante, foi barbeiro, profissão que aprendeu no Exército e por muitos anos sustentou a família.
O comércio surgiu aos poucos. Primeiro uma pequena mercearia improvisada na varanda do imóvel, depois a máquina de garapa, que até hoje a família guarda como lembrança.
Os fogos vieram por acaso, quando vendedores ambulantes ofereceram algumas caixas para revenda em época de festa junina. “Ele começou devagarzinho, comprou umas bombinhas, umas estrelinhas. Aí percebeu que era um bom negócio e foi ampliando”, relata a filha.
A Brasfogos foi oficialmente aberta em 1983, quando Policarpo já tinha 48 anos. Naquele momento, decidiu largar a tesoura por causa de uma tendinite e apostar de vez no comércio. A loja atravessou gerações, acompanhou mudanças na cidade e se tornou referência, não só pelo produto, mas pela presença constante do dono.
Para os filhos, a lembrança mais marcante é a do pai trabalhador, que raramente parava. “A diversão dele era ir para o sítio no fim de semana”, diz Maria Izabel Coutinho de Lima.
Apesar da rotina intensa, Policarpo tinha como motivação garantir que os filhos não passassem pelas mesmas privações que ele viveu. Teve pouco estudo formal, aprendeu apenas a ler e escrever, e passou a infância vendo a família ser expulsa de terras no interior nordestino. “Ele viveu situações muito duras, de sair só com a roupa do corpo. Quando chegou aqui, prometeu que nunca mais passaria necessidade e que os filhos também não passariam”, diz Irene.
Essa promessa guiou toda a vida dele. Trabalhou para trazer os pais e irmãos mais novos para Campo Grande, ajudou todos a se estabelecerem e construiu, passo a passo, um futuro mais seguro para a família. “Ele sempre falava que aprendeu, que foi difícil. Dizia que não queria que a gente passasse pelo que ele passou”, recorda.
As últimas lembranças em família ficaram marcadas pelo Natal. Todos conseguiram se reunir, mesmo com parentes que moram fora. As fotos feitas naquele dia se tornaram, sem que eles soubessem, um registro final de união. “A gente já estava pensando nos 91 anos dele, que seriam agora dia 26 de janeiro, mas ele partiu antes”, comenta.
Policarpo deixa cinco filhos, nove netos e cinco bisnetos. Deixa também uma história que não cabe apenas nas paredes da Brasfogos.
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