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Cidades

Caso de herança milionária acende alerta e procura por testamentos aumenta em MS

Sem planejamento, patrimônio pode parar na Justiça; número de registros cresce nos cartórios do Estado

Por José Cândido | 02/03/2026 13:17
Caso de herança milionária acende alerta e procura por testamentos aumenta em MS
Busca por testamentos avança no Estado e reflete mudança na forma de lidar com patrimônio e sucessão. (Foto Henrique Kawaminami)

A disputa em torno da herança do médico aposentado Miguel Abdalla Netto, tio materno de Suzane von Richtofen, voltou a colocar em evidência um tema que por muito tempo foi evitado nas conversas familiares: o planejamento do destino do patrimônio. E, em Mato Grosso do Sul, os números mostram que o assunto deixou de ser tabu.

RESUMO

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O número de testamentos registrados em Mato Grosso do Sul cresceu 7,9% nos últimos cinco anos, passando de 313 atos em 2020 para 338 em 2025. A mudança reflete uma nova postura das famílias sul-mato-grossenses, que buscam organizar a sucessão patrimonial em vida para evitar conflitos judiciais. A digitalização do serviço contribuiu para facilitar o acesso, permitindo que os testamentos sejam feitos presencialmente ou pela plataforma e-Notariado. Especialistas apontam que relações familiares mais complexas e patrimônios diversificados têm motivado essa mudança cultural no estado.

Dados dos Cartórios de Notas apontam que o total de testamentos registrados no Estado cresceu 7,9% nos últimos cinco anos. Em 2020, foram 313 atos formalizados. Já em 2025, o número chegou a 338. Na comparação apenas com 2024, quando houve 337 registros, o avanço foi de 0,2%, indicando estabilidade em um patamar mais elevado de procura.

O crescimento acompanha uma mudança silenciosa de comportamento. Cada vez mais famílias têm buscado organizar a sucessão patrimonial ainda em vida, principalmente para evitar conflitos judiciais longos e desgastantes.

Segundo o presidente do Colégio Notarial do Brasil em Mato Grosso do Sul (CNB/MS), Elder Dutra, o caso recente envolvendo a herança milionária sem testamento funciona como alerta.

“A ausência de um testamento transforma o patrimônio de uma vida em um campo de batalha jurídico. O sul-mato-grossense começa a entender que planejar a sucessão não é falar de morte, mas evitar problemas para quem fica”, afirma.

Quando não há testamento

Sem manifestação formal de vontade, a divisão dos bens segue a chamada sucessão legítima, prevista no Código Civil. A ordem prioriza filhos, pais e cônjuge ou companheiro. Na ausência desses, entram parentes colaterais, como sobrinhos, até o quarto grau — situação semelhante à discutida atualmente no caso Abdalla Netto.

Se nenhum herdeiro for localizado, os bens podem ser considerados vacantes e destinados ao Estado.

Especialistas apontam que justamente essa insegurança jurídica tem levado mais pessoas a procurar os cartórios. Relações familiares mais complexas, novos modelos de união e patrimônios diversificados — que hoje incluem empresas, aplicações financeiras e até ativos digitais — aumentaram o risco de disputas após a morte.

Testamento também pode ser digital

Outra mudança que ajudou a ampliar o acesso foi a digitalização do serviço. Hoje, o testamento pode ser feito presencialmente em qualquer Cartório de Notas do Estado ou pela plataforma eletrônica e-Notariado.

No modelo tradicional, o interessado comparece ao cartório com documentos pessoais, informações sobre bens e beneficiários, além de duas testemunhas maiores de 18 anos.

Já no formato online, o procedimento ocorre por videoconferência com o tabelião, também com testemunhas, e assinatura por certificado digital notarizado — emitido gratuitamente pelos próprios cartórios. O valor do ato é tabelado por lei estadual.

Planejar virou prevenção

Para especialistas do setor, o aumento gradual dos registros em Mato Grosso do Sul revela uma mudança cultural em curso. O testamento deixa de ser associado apenas ao fim da vida e passa a ser visto como instrumento de organização familiar.

Em um cenário de patrimônio cada vez mais diversificado e relações familiares menos tradicionais, planejar a sucessão tem sido encarado como uma forma de preservar não apenas bens, mas também relações — evitando que histórias construídas ao longo de décadas terminem em disputas judiciais prolongadas.