ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
JANEIRO, SEGUNDA  19    CAMPO GRANDE 25º

Comportamento

Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974

Documento confidencial foi enviado ao setor de inteligência do Exército e trazia detalhes do show do artista

Por Clayton Neves | 19/01/2026 07:10
Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974
Chico Buarque em show realizado no mesmo ano em que ficou monitorado pelos militares em Campo Grande

Uma apresentação do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda em Campo Grande esteve na mira do regime militar brasileiro e originou documento confidencial que circulou entre a alta cúpula do Exército nos anos 70. A apresentação aconteceu no dia 14 de setembro de 1974, no Teatro Glauce Rocha, e se tornou exemplo de como o regime acompanhava de perto artistas considerados subversivos.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Em 1974, uma apresentação de Chico Buarque em Campo Grande foi alvo de monitoramento do regime militar brasileiro. O show, realizado no Teatro Glauce Rocha ao lado do conjunto MPB-4, gerou um documento confidencial que circulou entre a alta cúpula do Exército. Durante o espetáculo, Chico fez comentários sobre a censura de suas músicas, especialmente ao apresentar "Milagre", composição que criticava as contradições econômicas do país. A canção foi posteriormente gravada sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, um dos codinomes usados pelo artista para driblar a censura.

O show foi dividido em duas sessões, uma das 20h às 21h30 e outra das 22h às 23h30, e reuniu centenas de pessoas para ver Chico ao lado do conjunto MPB-4. Na época, os artistas já eram nomes consagrados da música popular brasileira.

Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974
Documento confidencial foi redigido no dia 29 de novembro de 1974. (Foto: Arquivo Nacional)

Chico Buarque havia voltado ao Brasil poucos anos antes, após mais de um ano de exílio na Europa por causa da pressão política e da repressão imposta pelo regime militar. A partir dessa volta, ele passou a ter sua obra e sua trajetória monitoradas pelas instituições de segurança e censura.

O álbum Construção, de 1971, lançado pouco depois de seu retorno, trazia letras fortes e críticas implícitas à opressão e às contradições sociais do país, o que ampliou o olhar dos órgãos de repressão sobre o artista.

Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974
Relato lista, inclusive, as reações da plateia diante do artista. (Foto: Arquivo Nacional)

Dentro desse contexto, o show em Campo Grande foi registrado em um documento oficial classificado como “Confidencial”, enviado ao gabinete do ministro do Exército no dia  29 de novembro de 1974, e distribuído entre órgãos de inteligência. Nele, um agente da 9ª Região Militar descreve os detalhes da apresentação de Chico e do MPB-4, inclusive, citando as reações da plateia.

“A respeito da composição musical “Milagre”, ainda não gravada, Chico Buarque fez os seguintes comentários, antes de cantá-la. Na primeira sessão: “Esta música é de um compositor que já compôs muitas músicas, mas na hora de serem gravadas elas não o são” (neste momento houve risadas por parte da plateia, pois deu para se perceber claramente a alusão à censura para a não gravação). Continuando, Chico Buarque  disse: “Mas agora vai, acho que vai sair”, diz trecho do documento de duas páginas.

Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974
A música 'Milagre', escrita por Chico, fazia críticas ao regime. (Foto: Arquivo Nacional)

Mais adiante, o registro segue. “Na segunda sessão: desta vez Chico Buarque de Holanda foi claro, pois disse: “O compositor desta música já fez mais de 200 composições, todas as 200 censuradas” (também desta vez houve risadas por parte da plateia), “mas parece que agora ele vai sair no meu próximo LP em outubro” (ele pediu confirmação ao conjunto MPB/4 sobre a inclusão da música no LP, tendo os componentes do conjunto dado a confirmação). Somente nessas duas ocasiões é que CHICO BUARQUE falou diretamente aos espectadores”, descreve.

A letra de “Milagre” fazia crítica clara às contradições econômicas do país, e também apontava a sagacidade com que artistas usavam metáforas para burlar a censura. “E o milagre brasileiro, quanto mais trabalho, menos vejo o meu dinheiro”, diz um trecho.

Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974
Documento ainda indica o responsável pela contratação do cantor em Campo Grande. (Foto: Arquivo Nacional)

A canção foi gravada em 1975 e, no registro, consta autoria de Julinho da Adelaide. Mais tarde se descobriria que este era um dos codinomes do próprio Chico Buarque para despistar a censura.

Por fim, os militares reconheceram os artistas como “expoentes da música popular brasileira”, e não se sabe quais decisões foram tomadas a partir do relatório do agente que monitorou a apresentação do artista em Campo Grande.