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Comportamento

Sem quebra-pau, uma quadra separa botecos de flamenguista e vascaíno

Donos são cunhados, torcedores de clubes rivais, mas juram que ali só tem paz

Por Natália Olliver | 02/04/2026 07:23
Sem quebra-pau, uma quadra separa botecos de flamenguista e vascaíno
Fernando e Edevaldi são cunhados e rivais, um é flamenguista e o outro vascaíno (Foto: Natália Olliver)

Na Rua Abílio Soares, uma quadra separa o bar de dois rivais no futebol carioca, Flamengo e Vasco. Mas, apesar de muitos acharem que o quebra-pau é garantido, os donos Fernando Cordeiro Valença, de 62 anos, e Edevaldi Silvestre Gomes, de 73, nunca brigaram. Por ali é só amizade e companheirismo. Até da mesma família os dois são. Cunhados, Fernando é flamenguista roxo e mostra que a disputa fica só na brincadeira. Nem por clientes os dois fazem confusão. Cada um tem um perfil de público.

RESUMO

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Cunhados e rivais no futebol, Fernando Cordeiro Valença, flamenguista, e Edevaldi Silvestre Gomes, vascaíno, são donos de bares vizinhos na Rua Abílio Soares, em São Paulo, e nunca deixaram a rivalidade esportiva atrapalhar a relação. Fernando ensinou o ofício ao cunhado, que abriu seu bar após se aposentar. Unidos desde a perda de suas esposas, os dois seguem trabalhando e se ajudando, cada um com seu público fiel.

O negócio nasceu primeiro com o rubro-negro, há mais de 20 anos. Entre as pingas vendidas na garagem, ele conta que sempre gostou de bar e que hoje a “marvada” é a que mais sai, com doses de até R$ 5.

Na parede, uma pintura do brasão do time do coração e de jogadores. Uma toalha no outro lado, com o manto do Mengão, e um protetor de copo denunciam que a paixão não é pequena.

Sem quebra-pau, uma quadra separa botecos de flamenguista e vascaíno
Sem quebra-pau, uma quadra separa botecos de flamenguista e vascaíno
Fernando Cordeiro abriu bar há tanto tempo que até ele não se lembra (Foto: Natália Olliver)

Foi ele quem ensinou tudo o que sabe sobre bares para o cunhado, que entrou nesse ramo depois de se aposentar, há 15 anos.

“Ele vem aqui, eu falo os preços, as doses de pinga, as coisas. Nunca tive medo de perder a clientela para ele. A gente não tem esse negócio. Ele me ajuda e eu ajudo ele. Aqui vendo, além de pinga, cerveja, tem sinuca e música. Não tem briga com ele.”

Fernando explica que, mesmo antes de se apresentarem um ao outro, ele já sabia que o futuro cunhado era seu rival nos campos, e isso nunca foi motivo de picuinhas. A irmã, inclusive, era botafoguense, outro rival do Flamengo. Ela faleceu há 4 anos devido a uma complicação em uma cirurgia que era para ser simples. Desde então, os dois sempre estiveram juntos, se ajudando.

No outro lado, o alvinegro Edevaldi conta que os públicos são bem distintos e os horários de funcionamento também. Enquanto ele abre às 8h e fecha para o almoço às 13h, retorna às 16h e vai até as 22h, o “rival” abre às 6h e fecha às 18h. No cardápio de Fernando, variedade não falta: catuaba, jurubeba, raiz amarga, conhaque, vodka e cerveja. Mas o destaque é a pinga.

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Na parede do vascaino, camisetas e quadros com brasão do time (Foto: Natália Olliver)

“É muito bom, cada um tem seus fregueses e um jeito de trabalhar, nunca deu rivalidade. Aqui vem mais amigos e pessoal mais de idade”, diz o vascaíno.

Edevaldi resolveu investir no bar por ver o cunhado bem no ramo e para ter um complemento da aposentadoria. Seguiu à risca os ensinamentos e também fez da garagem um bar. Por ali, mesmo sem placa que anuncie o nome do bar, todos conhecem como “o bar do vascaíno”.

“Depois que a gente se aposenta não dá para ficar parado, tem que fazer alguma coisa. Antes eu trabalhava em uma empresa de pré-moldado fazendo poste de luz, trabalhei 35 anos. Abri o bar em 2011, ele abriu o dele há mais de 20 anos.”

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Edevaldi mostra fotografia dele com a esposa, falecida há 4 anos (Foto: Natália Olliver)

Fernando veio de Coxim, trabalhou no sítio, assim como Edevaldi. No bar do vascaíno também tem mesa de sinuca, uma blusa do Vasco pendurada na parede e um brasão com o nome do dono do bar estampado.

Em cima da bancada, outro emblema do time. Um dos pontos que diferencia os dois é que, no bar do vascaíno, quem chega pode ganhar música ao vivo cantada e tocada pelo próprio dono, que ama violão e moda antiga. Por ali, o carro-chefe não é a pinga, mas a cerveja.

Confira a galeria de imagens:

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“Violão é o que não falta. Eu sei tocar faz uns anos já. Quando cliente chega, também toco uma moda.”

Depois de tocar uma música para a reportagem, a tristeza aparece no olhar de Edevaldi. Há 4 anos ele perdeu a esposa e a ferida segue aberta. Embora ele diga que a vida tem que continuar, para ele a felicidade parou naquela época.

“Depois dela eu fiquei sozinho, peguei minha filha, trouxe para morar comigo, estou aqui trabalhando e tocando a vida. Depois que perde a companheira você não é mais feliz. Eram 40 anos de casados. Ela era muito amiga, a gente viveu muito bem e feliz. Aqui só a morte separou mesmo. Eu conheci ela jovem, em Coxim. Casamos, depois trabalhei na roça, vim para a cidade.”

Os bares do flamenguista e do vascaíno ficam na Rua Abílio Soares, 536 e 610, no bairro Jardim Itatiaia.

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