Sem quebra-pau, uma quadra separa botecos de flamenguista e vascaíno
Donos são cunhados, torcedores de clubes rivais, mas juram que ali só tem paz

Na Rua Abílio Soares, uma quadra separa o bar de dois rivais no futebol carioca, Flamengo e Vasco. Mas, apesar de muitos acharem que o quebra-pau é garantido, os donos Fernando Cordeiro Valença, de 62 anos, e Edevaldi Silvestre Gomes, de 73, nunca brigaram. Por ali é só amizade e companheirismo. Até da mesma família os dois são. Cunhados, Fernando é flamenguista roxo e mostra que a disputa fica só na brincadeira. Nem por clientes os dois fazem confusão. Cada um tem um perfil de público.
RESUMO
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Cunhados e rivais no futebol, Fernando Cordeiro Valença, flamenguista, e Edevaldi Silvestre Gomes, vascaíno, são donos de bares vizinhos na Rua Abílio Soares, em São Paulo, e nunca deixaram a rivalidade esportiva atrapalhar a relação. Fernando ensinou o ofício ao cunhado, que abriu seu bar após se aposentar. Unidos desde a perda de suas esposas, os dois seguem trabalhando e se ajudando, cada um com seu público fiel.
O negócio nasceu primeiro com o rubro-negro, há mais de 20 anos. Entre as pingas vendidas na garagem, ele conta que sempre gostou de bar e que hoje a “marvada” é a que mais sai, com doses de até R$ 5.
Na parede, uma pintura do brasão do time do coração e de jogadores. Uma toalha no outro lado, com o manto do Mengão, e um protetor de copo denunciam que a paixão não é pequena.
Foi ele quem ensinou tudo o que sabe sobre bares para o cunhado, que entrou nesse ramo depois de se aposentar, há 15 anos.
“Ele vem aqui, eu falo os preços, as doses de pinga, as coisas. Nunca tive medo de perder a clientela para ele. A gente não tem esse negócio. Ele me ajuda e eu ajudo ele. Aqui vendo, além de pinga, cerveja, tem sinuca e música. Não tem briga com ele.”
Fernando explica que, mesmo antes de se apresentarem um ao outro, ele já sabia que o futuro cunhado era seu rival nos campos, e isso nunca foi motivo de picuinhas. A irmã, inclusive, era botafoguense, outro rival do Flamengo. Ela faleceu há 4 anos devido a uma complicação em uma cirurgia que era para ser simples. Desde então, os dois sempre estiveram juntos, se ajudando.
No outro lado, o alvinegro Edevaldi conta que os públicos são bem distintos e os horários de funcionamento também. Enquanto ele abre às 8h e fecha para o almoço às 13h, retorna às 16h e vai até as 22h, o “rival” abre às 6h e fecha às 18h. No cardápio de Fernando, variedade não falta: catuaba, jurubeba, raiz amarga, conhaque, vodka e cerveja. Mas o destaque é a pinga.
“É muito bom, cada um tem seus fregueses e um jeito de trabalhar, nunca deu rivalidade. Aqui vem mais amigos e pessoal mais de idade”, diz o vascaíno.
Edevaldi resolveu investir no bar por ver o cunhado bem no ramo e para ter um complemento da aposentadoria. Seguiu à risca os ensinamentos e também fez da garagem um bar. Por ali, mesmo sem placa que anuncie o nome do bar, todos conhecem como “o bar do vascaíno”.
“Depois que a gente se aposenta não dá para ficar parado, tem que fazer alguma coisa. Antes eu trabalhava em uma empresa de pré-moldado fazendo poste de luz, trabalhei 35 anos. Abri o bar em 2011, ele abriu o dele há mais de 20 anos.”
Fernando veio de Coxim, trabalhou no sítio, assim como Edevaldi. No bar do vascaíno também tem mesa de sinuca, uma blusa do Vasco pendurada na parede e um brasão com o nome do dono do bar estampado.
Em cima da bancada, outro emblema do time. Um dos pontos que diferencia os dois é que, no bar do vascaíno, quem chega pode ganhar música ao vivo cantada e tocada pelo próprio dono, que ama violão e moda antiga. Por ali, o carro-chefe não é a pinga, mas a cerveja.
Confira a galeria de imagens:
“Violão é o que não falta. Eu sei tocar faz uns anos já. Quando cliente chega, também toco uma moda.”
Depois de tocar uma música para a reportagem, a tristeza aparece no olhar de Edevaldi. Há 4 anos ele perdeu a esposa e a ferida segue aberta. Embora ele diga que a vida tem que continuar, para ele a felicidade parou naquela época.
“Depois dela eu fiquei sozinho, peguei minha filha, trouxe para morar comigo, estou aqui trabalhando e tocando a vida. Depois que perde a companheira você não é mais feliz. Eram 40 anos de casados. Ela era muito amiga, a gente viveu muito bem e feliz. Aqui só a morte separou mesmo. Eu conheci ela jovem, em Coxim. Casamos, depois trabalhei na roça, vim para a cidade.”
Os bares do flamenguista e do vascaíno ficam na Rua Abílio Soares, 536 e 610, no bairro Jardim Itatiaia.
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