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Comportamento

Sonho de biblioteca em casa agora é "terapia do livro" gratuita e na rua

Desde 2019, Márcia continua doando livros e incentivando o hábito da leitura à tanta gente que até gosta, mas não têm condições

Por Raul Delvizio | 27/02/2021 08:52
Livros para doação ficam no meio da calçada, para todo mundo ver, pegar e ler (Foto: Arquivo Pessoal)
Livros para doação ficam no meio da calçada, para todo mundo ver, pegar e ler (Foto: Arquivo Pessoal)

Durante a pandemia de covid-19, um projeto gratuito e colaborativo no bairro Aero Rancho continua a mostrar que a leitura é um dos caminhos para a mudança. Antes apenas um sonho na juventude de Maria Marcia Alves dos Santos, 51 anos, agora ela junto com a filha Letícia e sua amiga Suriel, ambas de 19 anos, fizeram "da rua" uma biblioteca ambulante.

É bem na calçada de casa, em frente a garagem, onde o "Livroterapia" promove semanalmente o hábito da leitura. "Mesmo que no ano passado, devido à pandemia, permanecemos só nos meios digitais, tivemos muitos aprendizados e interações com outros perfis literários e até ter o incentivo de autores que nos enviavam livros para doação. Agora, em 2021, voltamos aos poucos e tem dado certo", comemora.

Livros vem de vários doadores, que Marcia e as meninas saem à procura (Foto: Arquivo Pessoal)
Livros vem de vários doadores, que Marcia e as meninas saem à procura (Foto: Arquivo Pessoal)
Recado no portão da casa, no bairro Aero Rancho (Foto: Arquivo Pessoal)
Recado no portão da casa, no bairro Aero Rancho (Foto: Arquivo Pessoal)

Marcia conta que por lá tem mãe e filho curiosos com aquela pilha de livros "estratégica", criançada que corre atrás e pega um gibi para ler, adulto que bisbilhota de carro e até para e bate um papo…o intuito, conforme ressalta, é "fazer do meio fio um banco improvisado e folhear páginas e páginas".

"Nós iniciamos a 'Livroterapia' efetivamente em 2019, com o intuito de promover a doação de livros na periferia. A falta de acesso à leitura foi um dos principais pontos de partida. Quando Suriel visitava Letícia em casa, as duas tiravam horas para conversar sobre livros. Nisso, despertavam em si a aventura que é ler. Não pensei duas vezes e chamei as duas para realizar esse sonho comigo. Mesmo com idades diferentes, nos unimos no mesmo ideal", explica.

De início, o local escolhido foi o Parque Ayrton Senna – sugestão da filha Letícia. Para atender o público em geral, Marcia esclarece que obrigatoriamente deveria ser um lugar público onde qualquer um poderia interagir. "Montávamos mesas, espalhávamos livros em vários pontos do parque e convidávamos as pessoas a conhecerem o projeto, onde simplesmente era escolher um livro, sentar na grama ou levar para casa sem gastar um centavo".

À esquerda, Letícia e sua amiga Suriel em encontro anterior à covid-19 no Parque Ayrton Senna (Foto: Arquivo Pessoal)
À esquerda, Letícia e sua amiga Suriel em encontro anterior à covid-19 no Parque Ayrton Senna (Foto: Arquivo Pessoal)
Fazendo pose, Letícia lê livro (Foto: Arquivo Pessoal)
Fazendo pose, Letícia lê livro (Foto: Arquivo Pessoal)

Sem ajuda financeira, incentivo órgão público ou viés político, a ex-professora de português sabe muito bem como a leitura pode sim mudar vidas – viu isso de perto. "Numa vez, uma conhecida minha me procurou dizendo que estava passando por apuros. Desempregada, ela confidenciou que ficava nervosa nas entrevistas, principalmente na hora da redação. Me prontifiquei a ajudá-la uma vez por semana. Além das lições, exercícios e conversas, também prescrevia livros. Nunca perguntei se ela lia, mas soube do seu sucesso quando entrou para uma faculdade e pôde se reinventar".

Desde pequena, o sonho de Marcia sempre foi ter uma biblioteca em casa. Com o dinheirinho que ganhava em uma emprego na adolescência, comprava livros mensalmente. "Teve uma vez, para desespero dos meus pais, que simplesmente comprei 30 livros promocionais de uma só vez. Mesmo assim, não conseguia formar a tal sonhada biblioteca, pois sempre que lia emprestava, doava ou simplesmente displicentemente deixava em algum lugar para alguém também pegar e ler", diz.

Márcia junto dos seus filhos ao lado de Suriel e seu namorado (Foto: Arquivo Pessoal)
Márcia junto dos seus filhos ao lado de Suriel e seu namorado (Foto: Arquivo Pessoal)

O tempo passou, mas a vontade de incentivar a leitura permaneceu com ela. Nos quase 3 anos de "Livroterapia", entretanto, não sabe nem dizer ao certo quantos livros conseguiu de doação nem para quantas pessoas já atendeu. "Não importa. Se fosse uma única pessoa já seria o suficiente. Queremos agora não somente atingir o bairro que estamos, mas tantos outros. Quanto mais gente devolver um livro e pegar outro, mais o gostinho de trabalho feito vai permanecer no meu coração", finaliza.

Os livros da "Livroterapia" são distribuídos gratuitamente na calçada da casa de Marcia, sempre às quintas, sextas e sábados a partir das 13h30 até o finalzinho do dia. O endereço é na avenida Generoso de Albuquerque, 175, no bairro Aero Rancho (setor 4).

Acesso o perfil no Instagram do projeto e saiba mais.

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