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Consumo

Na 1ª barbearia indígena de MS, só entra quem fala guarani-kaiowá

Para conter preconceito e dar um basta do desrespeito, barbeiro criou "lugar onde os indígenas cortam cabelo"

Por Alana Portela | 25/07/2021 07:20
Barbearia com dois assentos, espelhos e quadros que decoram a parede e resgatam cultura guarani-kaiowá. (Foto: Arquivo pessoal)
Barbearia com dois assentos, espelhos e quadros que decoram a parede e resgatam cultura guarani-kaiowá. (Foto: Arquivo pessoal)

Cansado do preconceito e de ter que conter o choro ao ver um indígena sendo desrespeitado, Marcelo Cabreira de Oliveira, 40 anos, abriu a barbearia "GK Barber Indígena" onde só entra quem sabe falar guarani-kaiowá. “Quero que se sintam acolhidos, entrem e fique à vontade para conversar, rir”, destaca.

Localizada em Amambai, a 355 quilômetros de Campo Grande, o espaço é a primeira barbearia em Mato Grosso do Sul voltada apenas para atender indígenas, tanto é que já na entrada tem uma placa com a frase “ava akãrangue kytihã", que no português é “lugar onde os indígenas cortam o cabelo".

O espaço foi inaugurado no dia 12 deste mês, mas é um projeto que vinha sendo pensado há mais de três anos. Quem explica melhor a proposta é o barbeiro campo-grandense Marcelo que se mudou para a cidade há cinco anos.

Fachada da GK Barber Indígena. (Foto: Arquivo pessoal)
Fachada da GK Barber Indígena. (Foto: Arquivo pessoal)

“Minha esposa é daqui, mas morávamos na Capital. Tempo depois, ela passou em um concurso e nos mudamos para Aral Moreira, onde ficamos por quatro anos e depois viemos para cá”, lembra.

Ao chegar na cidade que conta com cerca de 35 mil moradores, boa parte deles indígenas, descobriu uma realidade diferente da que muitos de nós aprendemos na escola. “Quando estudava, via apenas a parte bonita da história que é a cultura, caça, pesca, celebração do Dia do Índio. Contudo, desde que mudei para o interior, conheci a outra face”.

São dois mundos em um só lugar onde o preconceito reina e a palavra empatia é pouco conhecida. “Já são urbanizados de certa forma porque vêm até a cidade fazer compras, mas não têm o mesmo tratamento que o homem branco e isso me incomoda muito”.

Durante a entrevista, ele comenta sobre a falta de respeito e compaixão do povo da cidade com os indígenas guarani-kaiowá, que moram no mesmo município. A verdade que muitos ainda não querem enxergar dá um nó na garganta, principalmente ao saber que o preconceito é tanto ao ponto de torná-los "invisíveis".

Da esquerda para direita; Evaristo Rocha ao lado de Renando Moreira e Marcelo Cabreira de Oliveira. (Foto: Arquivo pessoal)
Da esquerda para direita; Evaristo Rocha ao lado de Renando Moreira e Marcelo Cabreira de Oliveira. (Foto: Arquivo pessoal)

"Entram em um estabelecimento e são mal atendidos. Depois que pagam as compras têm que esperar no lado de fora”, afirma Marcelo.

Sem ninguém para oferecer abrigo até o horário de retornar para aldeia, eles aguentam calados os olhares de indiferença e ainda suportam calor e chuva, sentados isolados no meio fio de uma calçada qualquer.

Renando atendendo um cliente dentro da barbearia. (Foto: Arquivo pessoal)
Renando atendendo um cliente dentro da barbearia. (Foto: Arquivo pessoal)

“Debaixo do sol,  eles sentam e ficam esperando o carro para voltar para aldeia. Em tempos chuvosos, tomam chuva”. Além disso, também precisam enfrentar o desafio da língua. “O problema da comunicação é grande, pois falam guarani”.

São diversas as situações que geram revolta e por isso, Marcelo decidiu fazer algo a respeito e cedeu seu local de trabalho para abrir a barbearia GK, iniciais da etnia que vive na região. “Tive a ideia criar um espaço onde pudesse acolhê-los. O local tem ar condicionado ligado, wi-fi e a porta permanece aberta para que qualquer indígena que quiser ir ao banheiro, tomar água ou esperar, fiquem à vontade para isso”.

Projeto - A ideia surgiu porque quando se mudou para Amambai, investiu em um salão tradicional que existe há 40 anos na cidade. Foi trabalhando ali que viu de perto toda a dificuldade dos indígenas.

"Sempre atendi bem, trato todos os clientes da mesma forma, pois pagam o mesmo valor. Mas, vejo a dificuldade na comunicação".  E pensando justamente nesse ponto, ele decidiu contratar dois barbeiros indígenas.

"O indígena é visto como preguiçoso, mas não lembram que são trabalhadores em busca de uma oportunidade. Existem professores, economistas dentro da aldeia. É um povo sofrido que luta por igualdade”.

Com ajuda, Marcelo chegou a visitar a aldeia onde a etnia vive e viu de perto a pobreza que os tornam tão vulneráveis. "Conheci a realidade da aldeia. Lá tem pessoas que cortam cabelo sem ganhar nada por isso, além de nem terem estrutura ou equipamentos adequados".

O cliente Fábio Martins Filho após cortar o cabelo. (Foto: Arquivo pessoal)
O cliente Fábio Martins Filho após cortar o cabelo. (Foto: Arquivo pessoal)

Logo após, convidou alguns deles para fazer realizaram o processo seletivo em sua barbearia. Após os testes, Marcelo escolheu Renando Moreira de 24 anos e Evaristo Rocha de 40 anos para trabalhar na GK.

Os dois estavam em busca de oportunidade. “Renando é professor e Evaristo atuou como operador de pá carregadeira em uma usina localizada em Nova Alvorada, ambos eram serviços temporários. Na aldeia, aprenderam a cortar cabelo sozinhos e durante a seleção, percebi que tinham mais sensibilidade ao realizar cortes”, explica.

Escultura e filtro dos sonhos doados pelos indígenas agora fazem parte da decoração da barbearia. (Foto: Arquivo pessoal)
Escultura e filtro dos sonhos doados pelos indígenas agora fazem parte da decoração da barbearia. (Foto: Arquivo pessoal)

Em seguida, passou três meses ensinando aos dois, técnicas de corte, como usar equipamentos e até os ensinou como poderiam fazer para atender a clientela de forma segura, sem gerar aglomeração em tempos da pandemia da covid-19.

Ao perceber que já estavam conseguindo atender, Marcelo transformou seu salão numa barbearia indígena e entregou o espaço para os dois conquistarem sua própria freguesia. Na segunda semana de julho, o local foi inaugurado.

“Dia 12 é um período que o comércio enfraquece, escolhemos isso para que pudessem ir se acostumando com os materiais e serviço, mas daqui a pouco inicia outro mês e o movimento melhora”.

Felizes com a iniciativa de Marcelos, os indígenas doaram para a barbearia alguns itens de feitos por eles para decorar o espaço que agora conta com quadros, filtro dos sonhos e até esculturas de barro.

Como a barbearia onde atendia virou espaço exclusivo para indígenas, Marcelo abriu outro ponto ao lado da GK para continuar o trabalho de barbeiro e assim ajudá-los quando for necessário.

Já com tudo funcionando, agora ele só tem um desejo. “Que sirva de inspiração para mais locais ampliarem a ideia”.

Gratidão – Em forma de agradecimento, na terça-feira (27), ocorrerá uma cerimônia de pajelança na cidade. “Os pajés vão se reunir com as autoridades para abençoar no projeto, uma forma de mostrar que é possível essa comunhão entre o homem branco e os indígenas. Muito gratificante”, finaliza Marcelo.

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