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Reencontrar netos é alegria que avós precisam em meio à pandemia

Para geriatra, chave para envelhecer bem é a pessoa se manter ativa em vários aspectos; coisa que ficou ameaçada na pandemia

Por Paula Maciulevicius Brasil | 31/08/2020 14:10
Bete e o netinho Benício: registro foi do último encontro deles, quando avó e neto ficaram grudadinhos o tempo todo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Bete e o netinho Benício: registro foi do último encontro deles, quando avó e neto ficaram grudadinhos o tempo todo. (Foto: Arquivo Pessoal)

O abraço que dona Bete recebeu trouxe de volta o sorriso que a avó tanto necessitava. Funcionária pública, Elizabete Liuti da Silva, de 57 anos, sabia de cor há quantos dias estava sem ver o neto: 90. O isolamento, no caso deles, tem o peso da pandemia por conta do netinho Benício ser do quadro de risco, além da distância geográfica: a criança mora aqui em Campo Grande, enquanto os avós vivem em Dourados.

"Já fazia 90 dias que a gente não se via pessoalmente. E eu sou uma pessoa que vem de família italiana. Particularmente, eu gosto de pegar, de sentir, para mim é importante esse aconchego, o tato, o contato", explica Bete.

Se com os filhos, ela sempre foi de beijar, dar colo e abraçar, imagina como seria com o neto? "O Benício foi uma renovação para mim. Tenho muita necessidade de estar perto dele e a quarentena veio dificultar um pouco mais as coisas. A gente já tem uma relação de distância, porque moramos em municípios diferentes, e eu também trabalho, então já tínhamos a dificuldade em nos encontrar com a frequência que eu gostaria", descreve.

Encontro aconteceu depois de 90 dias sem que Benício visse os avós Bete e Paulo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Encontro aconteceu depois de 90 dias sem que Benício visse os avós Bete e Paulo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Benício é portador de uma síndrome considerada rara chamada Hiperplasia Adrenal Congênita, que segundo a família afeta a produção de hormônios e especificamente a parte renal, cardíaca, além de interferir no crescimento da criança.

"Agora com a pandemia, a gente tem que tomar muito mais cuidado. Temos muita preocupação em fazer o distanciamento, para que a gente possa preservar mesmo a saúde dele", reforça a avó.

Desde que o isolamento social começou, as visitas ficaram restritas e a saudade era amenizada apenas via chamada de vídeo. No entanto, duas semanas atrás, tomando todos os cuidados necessários, houve o tão esperado abraço. "Ele ficou na expectativa e como gosta muito de churrasco, meu pai mostrou um vídeo de quando fomos lá, no começo do ano, dele brincando com a mangueira e meu pai assando carne. Ele já ficou todo empolgado", recorda a mãe, estudante de Enfermagem, Giovanna Liuti da Silva, de 30 anos.

"Vovô tá fazendo carne", dizia o garotinho. No sábado retrasado, os avós saíram de casa às 8h da manhã e chegaram na Capital para o almoço. "Minha mãe costuma mandar a localização em tempo real e quando eles estavam chegando, a gente já sabia e levamos ele lá na frente. Quando viu o carro, reconheceu e ficou todo feliz", conta a mãe.

Geriatra Marcos Blini em uma das consultas domiciliares que realizou antes da pandemia. (Foto: Arquivo Pessoal)
Geriatra Marcos Blini em uma das consultas domiciliares que realizou antes da pandemia. (Foto: Arquivo Pessoal)

A emoção do momento fez com que todos se entregassem ao abraço. Eles viveram a cena em vez de filmá-la, registrando somente na memória. "Na hora que ele veio pra mim, me deu um abraço do jeito que eu queria. Aquele abraço quente, de colocar a cabecinha no ombro e ficar parado. Se eu pudesse, eu congelava aquele momento, foi muito bom", explica a avó.

Médico geriatra, Marcos Blini é enfático ao dizer que a "chave" para envelhecer bem, no caso de pessoas que não tenham doenças debilitantes, é se manterem ativas nos mais diversos aspectos como de cognição, físico e emocional. "É muito difícil uma pessoa se manter ativa se não tiver um grande propósito na vida, se não tiver função social", fala.

Com a pandemia e as medidas de isolamento social, se viu uma quebra considerada "grande" pelo médico desse ciclo das pessoas que vinham envelhecendo bem. "Vi grande parte dos idosos do meu ciclo pessoal e de pacientes terem uma piora franca do envelhecimento", completa.

Somando-se a falta de estímulo, também entrou para dentro das famílias o medo do contágio por parte de filhos e cuidadores e da posterior transmissão aos mais velhos. "Os filhos, com o intuito de proteger do coronavírus, acabam super protegendo e deixando os pais há meses sem sair de casa. Uma coisa que tenho falado muito, dentro da segurança, é a gente começar a assumir certas liberdades", ressalta o médico.

A orientação que ele vem dando às famílias de pacientes é passear com o pai ou avô de carro. "Se você vê que a pessoa está muito agoniada pelo isolamento, fecha o circulador de ar do carro e vai dar uma volta na cidade. Vá até algum parque, uma chácara, que não tenha o risco da aglomeração", incentiva o geriatra.

Quanto a questão dos netos, Marcos também fala que passado tantos meses das crianças em casa sem escola, dentro de casa, diminuiu a chance de transmissão do coronavírus na relação avós e netos. "O que não dá é a aglomeração, mas pega um casal de idosos que morem juntos e duas ou três vezes na semana, vá a filha com o neto. É uma coisa que, claro que tem seu risco do que se estivesse totalmente isolado, mas frente ao benefício psíquico que isso vai trazer, é gigantesco", afirma.

O abraço pode ser, inclusive, sua importância na resposta quanto ao vírus, caso a pessoa pegue. "Porque tem uma co-relação hormonal, de humor e emoções, com as mais diversas infecções e o coronavírus não é diferente. A medicina é uma coisa muito complexa para se ver apenas pelo âmbito biológico existem outros tripés", pontua.

Lembrando que a transmissão do vírus se dá por gotículas, por isso é tão importante que até mesmo nestes encontros, os familiares estejam de máscara. "Temos que respeitar o vírus e tomar o máximo de cuidados possíveis e dentro da segurança, continuar fazendo as coisas que são importantes para a gente do ponto de vista da saúde e do emocional", frisa.

Dona Bete que o diga. "Se eu pudesse, eu congelava aquele momento", como escrevemos acima. Para a avó, a presença  do neto é o significado de renovação. "As crianças têm uma energia tão boa e eu digo assim, elas são a presença mais viva, mais materializada de Deus na nossa vida, porque são luzes".

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