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Sabor

Aos 80 anos, advogado vira chipeiro e quer mostrar sabor paraguaio

Em parceria com a família, Heitor resolveu apostar na produção das chipas na intenção de resgatar raízes e gerar renda, na Capital

Por Alana Portela | 18/06/2020 06:23
Heitor Rodrigues Freire segurando um prato com chipas prontas. (Foto: Silas Lima)
Heitor Rodrigues Freire segurando um prato com chipas prontas. (Foto: Silas Lima)

Se você pensa que terceira idade é sinônimo de descanso, Heitor Rodrigues Freire prova que há muito ainda para se fazer. Aos 80 anos, ele resolveu apostar na produção de chipas em casa para mostrar ainda mais o sabor paraguaio em Campo Grande. A proposta iniciou neste mês. “Estou começando uma nova atividade, virei chipeiro”, afirma.

Heitor é personagem conhecido na cidade, atua como advogado e também trabalha como corretor de imóveis, além de assinar artigos. Sempre bem-disposto, ele gosta de encarar novos desafios e dessa vez, nem mesmo a pandemia pode fazê-lo parar. “Sou articulista. Aqui, todo mundo sempre gostou da comida paraguaia e resolvemos fazer”, diz.

A chipa também é um prato famoso na Capital, costuma ser encontrada em padarias, mercados e até em algumas esquinas da cidade. É queridinha entre os moradores, e uma boa opção para café da manhã e serve de lanche durante o dia.

Heitor na cozinha colocando a mão na massa. (Foto: Silas Lima)
Heitor na cozinha colocando a mão na massa. (Foto: Silas Lima)

A proposta é uma forma que Heitor encontrou de resgatar suas raízes, já que nasceu no Paraguai, em Pedro Juan Caballero – cidade que faz divisa com Ponta Porã - MS. Com sangue paraguaio correndo nas veias, ele relata que se mudou para Campo Grande, ainda menino, quando tinha 7 anos de idade. Na época, costumava comer chipa, porém, depois de vir para a Capital ficou um bom tempo sem saborear a receita.

No entanto, assim como a dele, várias outras famílias paraguaias também migraram para o Brasil e chegaram a Capital sul-mato-grossense. Por aqui, resgatam um pouco da cultura do país natal, principalmente quando o assunto é gastronomia.

 “A chipa faz parte da cultura culinária por aqui há muito tempo. Devido a uma corrente migratória muito forte vinda do Paraguai para Campo Grande, nos anos 50 a população paraguaia na nossa cidade chegou a 50 mil pessoas aproximadamente, e seus descendentes foram se misturando com a gente local. E se tornaram muito influentes”, afirma.

As mãos de Rosária Escobar Freire misturando os ingredientes para azer a chipa na bacia. (Foto: Silas Lima)
As mãos de Rosária Escobar Freire misturando os ingredientes para azer a chipa na bacia. (Foto: Silas Lima)

Em 1954, conforme Heitor, foi criada a Associação Cultural Brasil-Paraguai, na qual seu pai, Luiz Freire Benchetrit foi o vice-presidente. Depois de um tempo, o local passou a se chamar Colônia Paraguaia.

As mãos de Heitor e da esposa, Rosária amassando a massa da chipa. (Foto: Silas Lima)
As mãos de Heitor e da esposa, Rosária amassando a massa da chipa. (Foto: Silas Lima)

O chipeiro volta ainda mais no tempo e relata que, segundo registros históricos, no período de colonização, existia o costume de fazer pães e bolos à base de mandioca ou milho no Paraguai. Naquela época, foi criada a receita tradicional da chipa.

A receita foi passada de geração em geração, e o sabor do queijo macio e quentinho na boca é o que não deixa essa iguaria paraguaia sair das graças dos brasileiros. Fazer chipa também é uma forma de recordar da infância e intensifica ainda mais o desejo e de resgatar as raízes.

Por isso também, Heitor resolveu investir na produção das chipas nessa altura do campeonato. Agora, ele se divide entre o trabalho de advogado, corretor e chipeiro. As chipas são tradicionais, mas não no formato de ferradura como muitos estão acostumados. A produção é feita na casa onde a família mora.  “Trabalhamos ‘full time’ e vendemos por quilo, já estamos entregando em Campo Grande”, completa Heitor.

A primeira remessa da produção das chipas que acabou de ficar pronta. (Foto: Silas Lima)
A primeira remessa da produção das chipas que acabou de ficar pronta. (Foto: Silas Lima)

É Heitor mesmo quem coloca a mão na massa, mas para que tudo ocorra bem, ele conta com a supervisão da esposa, Rosária Escobar Freire. Ela nasceu no lado de cá da fronteira, mas desde menina tem contato com a culinária paraguaia por conta da família.

"Há 25 anos ela faz a chipa na nossa família. Temos feito esse trabalho juntos e quando estamos produzindo, meus pais gostam de ouvir os boleros, músicas paraguaias, guarânias, polcas. Ao ouvirem, lembram de muitas coisas do Paraguai, das histórias da fronteira e contam. Tem sido momento interessante", diz a filha, Andréa Escobar Freire.

Rosária segurando um prato com as chipas que produziu. (Foto: Silas Lima)
Rosária segurando um prato com as chipas que produziu. (Foto: Silas Lima)

Andréa também ajuda na produção e divulgação das chipas. "Fico ouvindo músicas da época que eles eram jovens, como Celly Campello, Rita Pavone, Roberto Carlos. Coisas que fizeram parte da juventude deles. Isso tem criado um clima harmonioso entre nós e inspira nas produções. É um encontro de gerações e através desse momento, mergulhamos um pouco na nossa história", destaca Andréa.

Além da culinária, a cultura paraguaia também está enraizada em Mato Grosso do Sul através da música chamamezeira, harpa e até mesmo do querido tereré.

Quem quiser encomendar as chipas produzidas por Heitor e família, pode entrar em enviar uma mensagem através do número (67) 9-8136-4680 e falar com a Andréa. O valor do quilo é R$ 35,00.

A família reunida mostrando a produção. Da esquerda para direita, dona Rosária ao lado da filha Andréa Escobar Freire e Heitor. (Foto: Silas Lima)
A família reunida mostrando a produção. Da esquerda para direita, dona Rosária ao lado da filha Andréa Escobar Freire e Heitor. (Foto: Silas Lima)