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Meio Ambiente

O caso da cadela Mel, apenas um entre muitos maus-tratos a bichos

Por Paula Maciulevicius | 16/03/2012 18:40
Mel sofreu chutes, está sem andar e sem lar. (Fotos: Marlon Ganassin)
Mel sofreu chutes, está sem andar e sem lar. (Fotos: Marlon Ganassin)

A vira-lata Mel é ainda mais carismática ao vivo. Com o olhinho pidão ela ganhou quem foi conhecê-la na clínica onde está passando por tratamento. A cadelinha não consegue ficar nem parada no balcão sem uma mãozinha para sustentar. A violência que ela sofreu a deixou sem andar e sem firmeza nas patas de trás. O caso ganhou repercussão nas redes sociais e já está sendo investigado pela Decat (Delegacia Especializada de Repressão de Crimes Ambientais e Proteção ao Turista), onde, só este ano, já são 45 denúncias por maus-tratos a animais.

Os veterinários chegaram a pensar em eutanásia num primeiro momento, hoje descartam a possibilidade. Os cinco veterinários que compõe o quadro do consultório estão de prontidão e outros tantos profissionais também. Por meio do apelo às redes sociais, com milhares de compartilhamentos, além de remédios, a cadeira de rodas que mais para frente será útil a Mel, veterinários também estão solidários.

Mel deu entrada na clínica no último dia 27, ainda vai passar por exames de raio-x, ortopédicos e de especialistas na área. O que já foi constatado, a lesão na coluna e a fratura na tíbia tornam mínima, quase inexistente a esperança de que a vira-lata volte a andar.

Segundo a veterinária responsável pelos cuidados à cadelinha, Ana Lúcia Salviatto, o homem que a trouxe disse, num primeiro momento, que já a encontrou machucada. Na segunda ida aos veterinários, acabou por confessar que era o dono de Mel e que o irmão foi quem a agrediu com chutes. Ele ainda tentou ficar com ela, mas por não ter condições, desistiu e a deixou para adoção.

“O que estamos tentando fazer é melhorar a qualidade de vida dela. A Mel precisa ter sustentação maior nas patinhas, para daí usar a cadeira de rodas, a flacidez muscular precisa ser revertida”, explica a veterinária.

No canil, a comoção é ainda maior. A cadelinha tenta se aproximar para brincar com quem chega, mas não consegue. Aos poucos as patinhas vão se abrindo e ela escorregando. A carinha dá ainda mais dó.

Nos primeiros momentos, quando a equipe do Campo Grande News se aproximou para pegá-la no colo, ela começou a urinar. A incontinência é mais uma das tristes consequências que pode restar a Mel.

Casos - Em 16 anos de experiência como veterinária, Ana Lúcia já vivenciou muitos casos. A média é de dois por mês. “É bastante comum, mas muitos deles nunca foram comprovados. Com isso do Facebook deu para ver que precisamos mudar essa mentalidade. Que precisa ser investigado e repassado para a Polícia”.

As centenas de compartilhamentos e a solidariedade fizeram com que a veterinária responsável tomasse uma medida até considerada rígida. Quem se candidatar a adoção terá de preencher um documento e será acompanhado pela clínica. Desde que está sob os cuidados da veterinária, Mel ficou adotada por uma hora. A pessoa levou para a casa e uma hora depois voltou para entregar, porque não iria dar conta.

Veterinária diz que esperança de que Mel volte a andar é mínima. Trabalho é para dar melhor qualidade de vida à cadelinha.
Veterinária diz que esperança de que Mel volte a andar é mínima. Trabalho é para dar melhor qualidade de vida à cadelinha.

A clínica assegura que existe uma cliente que está disposta a ficar com Mel, apesar de todo os cuidados que a nova integrante da família exigirá.

“É crime sim” - A frase “É crime sim, é caso de Polícia sim” é da delegada responsável pela no caso de Mel, Suzimar Batistela. Maus-tratos a animais compõem a legislação de crime ambiental, tem investigação da Polícia, delegacia própria, pena e condenação. De janeiro até hoje, 45 denúncias já chegaram a Decat.

O caso da Mel começou a ser apurado pela delegada ainda na manhã desta sexta-feira, quando foi procurada pelo Campo Grande News. A violência contra Mel teve registro de boletim de ocorrência e a Polícia já pediu o laudo para juntar ao procedimento.

O dono e o irmão serão intimados e vão ter que responder pelo crime de maus tratos. A pena prevista é de três meses a um ano. “Existe um projeto de lei de majorar a pena. E vai ser muito bom, porque esta é uma violência que traz comoção social e a pena acaba sendo muito pouca”, ressalta Suzimar Batistela.

Os casos de maus-tratos são classificados como de menor potencial ofensivo e resultam em assinatura do TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) em que o autor se compromete a comparecer em juízo.

A Polícia trabalha em conjunto com o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses), pelas denúncias que chegam à delegacia, agentes do órgão vão até os locais para constatar os maus tratos. Segundo a delegada, o CCZ notifica com orientações o que deve ser feito em relação ao animal e dá um prazo para que o dono cumpra. Caso isso não ocorrer, a Decat pode expedir mandado de busca e apreensão do animal.

Só neste ano, 45 denúncias de maus-tratos já chegaram à Polícia. (Foto: Paula Maciulevicius)
Só neste ano, 45 denúncias de maus-tratos já chegaram à Polícia. (Foto: Paula Maciulevicius)

Situação que está para acontecer.O dono de dois cães pit bull tinha até esta sexta-feira para comparecer à delegacia. Até o momento em que o Campo Grande News estava na delegacia, ele ainda não tinha aparecido, a denúncia era de que os cachorros não eram alimentados diariamente.

Crime - De acordo com a delegada, o que tipifica maus-tratos aos animais é: não dar comida e água diariamente, negar assistência veterinária, deixar o animal exposto ao frio, ou sol, obrigar a trabalhos excessivos, deixar sem ventilação ou luz solar, manter em locais pequenos e anti-higiênicos, manter preso permanentemente em correntes, abandonar, espancar, golpear, mutilar e envenenar.

“O que falta é consciência de que os animais são seres indefesos e principalmente os domésticos e domesticados precisam e dependem da pessoa para sobreviver. Animal dá trabalho e exige cuidado, se não for para tratar bem é melhor que não tenha”, declara a delegada.

A Polícia está aberta a denúncias por meio do telefone 3368-6144 ou ainda do e-mail decat@pc.ms.gov.br. No caso de maus-tratos com uso da violência, a delegada pede para que o denunciante tente fotografar ou filmar, para tornar a confirmação do fato mais fácil.

Para a cadelinha Mel, a ONG Fiel Amigo abriu uma conta bancária. As doações podem ser feitas pela Agência 34975 – Conta 21453-1, Banco do Brasil, no nome de Laura Elis Reis Junqueira.

Cadelinha tenta vir brincar com quem se aproxima no canil. Mas escorrega, cai e mal consegue se mexer. (Foto: Marlon Ganassin)
Cadelinha tenta vir brincar com quem se aproxima no canil. Mas escorrega, cai e mal consegue se mexer. (Foto: Marlon Ganassin)