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Meio Ambiente

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal

Comunidade reclama de poeira de carvão, saúde precária e dificuldades para estudar

Por Inara Silva | 09/06/2026 17:45

“Estamos cercados pela ferrovia, pela siderúrgica e pela mineradora. Estamos cercados deles aqui.” A frase da moradora Edenira da Silva Mota, de 66 anos, resume o paradoxo vivido pela comunidade Antônio Maria Coelho, a cerca de 45 quilômetros de Corumbá, na borda oeste do Pantanal.

RESUMO

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Moradores da comunidade Antônio Maria Coelho, localizada a 45 quilômetros de Corumbá, no Pantanal, relatam escassez de água, precariedade nos serviços de saúde e educação, além de poluição do ar causada por partículas de carvão e minério, em meio à expansão de mineradoras, siderúrgicas e da logística ferroviária na região. As famílias, que vivem da agricultura e do extrativismo da bocaiúva, denunciam abandono pelo poder público e falta de respostas das empresas.

Enquanto bilhões de reais em investimentos impulsionam a mineração, a siderurgia e a logística ferroviária na região, os moradores da localidade afirmam conviver com problemas básicos que permanecem sem solução. Falta de água, dificuldades de acesso à saúde e à educação, precariedade no transporte e impactos ambientais fazem parte da rotina de quem vive à sombra de um dos principais corredores econômicos de Mato Grosso do Sul.

Para os moradores, o avanço dos grandes empreendimentos trouxe desenvolvimento para a região, mas também ampliou a sensação de abandono. Eles relatam que, nos últimos anos, o aumento da atividade industrial e mineradora intensificou problemas ambientais e de infraestrutura, sem que os benefícios do crescimento econômico chegassem na mesma proporção à comunidade.

"Estamos vivendo um caos nesse lugar", afirma Edenira.

A comunidade é formada por famílias que vivem da agricultura, do trabalho em fazendas e do extrativismo da bocaiúva, fruto típico do Pantanal utilizado na produção de alimentos artesanais. Segundo a moradora Edeltrudes Corrêa de Oliveira,  de 55 anos, conhecida como dona Edil, cerca de 100 famílias dependem direta ou indiretamente da infraestrutura local, incluindo a escola e os serviços de saúde.

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal
Comunidade Antônio Maria Coelho fica entre empresas de siderurgia e mineração (Foto: Google)

Falta de água - Dona Edil participou, recentemente, de uma audiência pública que debateu a ampliação e concessão da hidrovia Paraguai-Paraná, em Corumbá. Durante o evento, ela ressaltou que entre todas as dificuldades enfrentadas pelos moradores, a água aparece como uma das principais preocupações. Edil lembra que a comunidade se servia de várias nascentes e do Córrego Piraputanga, que hoje, segundo ela, está secando.

A vizinha Edenira lembra que quando chegou, há 47 anos, tudo era diferente. "Aqui era uma maravilha. Tinha nossa vegetação tudo verdinha, tinha muito fruto, tudo que você plantava dava." Hoje, segundo ela, falta água até para a higiene pessoal.

Diante da escassez, os moradores organizaram sistema improvisado de abastecimento a partir de uma nascente localizada em propriedade particular. A água percorre quilômetros por mangueiras e canos instalados pela própria comunidade até chegar às residências.

"A (mineradora) LHG Mining fez a doação dos canos porque a gente estava sem água de uma vez aqui", contou Edenira.

"É uma mangueira, um cano onde a água desce por gravidade, que vem direto da nascente", explica dona Edil. Ela lembra que a estrutura só foi implantada após mobilização dos moradores.

“Teve tempo que a gente tinha várias nascentes e vinha gente de longe buscar água aqui", lamenta a moradora.

Além da quantidade, a qualidade da água também preocupa. Segundo os relatos, durante os períodos de estiagem a água chega às casas com folhas e resíduos acumulados na tubulação, exigindo manutenção frequente feita pelos próprios moradores.

Saúde sem estrutura - Outra reivindicação antiga envolve o atendimento médico. Segundo os moradores, o posto de saúde da comunidade deixou de funcionar há cinco anos após problemas estruturais agravados pela falta de água e pelas condições inadequadas de uso.

"O médico começou a faltar porque não tinha condições de uso. Não tinha água para tratamento, para fazer uma higiene. Aí acabou, desativou o posto", contou dona Edil.

Atualmente, os atendimentos são realizados em espaço improvisado na varanda da associação de moradores, que foi construída em mutirão. Para Edil, a principal consequência é a falta de privacidade.

"Se uma pessoa quer contar seu estado de saúde somente para o médico, todo mundo tem que ouvir."

Segundo a moradora, a estrutura também não permite a realização de alguns procedimentos, como exames ginecológicos. “As mulheres não têm como fazer os exames.”

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal
Encanamento da água construído pelos moradores (Foto: Arquivo pessoal)

Acesso à educaçãoA falta de água também interfere na rotina escolar.

"As crianças às vezes ficam sem ir para a escola porque não tem água potável", afirma Edenira, avó de seis estudantes matriculados na unidade escolar dentro da comunidade.

A escola da comunidade atende apenas os primeiros anos do ensino fundamental. Depois disso, os estudantes precisam se deslocar diariamente para outras localidades em ônibus escolar.

As viagens ocorrem por estradas de terra que, segundo os moradores, frequentemente apresentam problemas de conservação. "Minha neta conta que chega morrendo de dor porque a estrada não é boa", relata Edil.

Mobilidade - O aumento do tráfego de caminhões é outra reclamação recorrente. Segundo os moradores, o fluxo intenso de veículos transportando minério e insumos industriais alterou profundamente a rotina da comunidade.

"A gente perdeu quase completamente o direito de ir e vir", afirma Edil ao ressaltar que as famílias não conseguem mais caminhar pela estrada. Segundo ela, na estiagem, a poeira domina a paisagem, por isso, as empresas molham a estrada, o que gera também problemas com lama e atoleiros.

Edenira complementa que a passagem de caminhões carregados é intensa e caem muitas pedrinhas. "Quando os caminhões estão passando, quebra vidro de carro, joga lama na gente", relata Edenira.

A moradora afirma que quando a ferrovia era ativa, tinha somente o barulho. "Antes o barulho que poeira de carvão e lama".

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal
Moradora mostra a mão suja de carvão (Foto: Arquivo pessoal)

Fuligem - Se a água se tornou escassa, o ar puro também deixou de fazer parte do cotidiano das famílias. As moradoras descrevem uma rotina marcada pela presença constante de partículas de carvão e minério. "A casa da gente não fica mais limpa. É só carvão", diz Edil.

"Se eu for passar um pano lá dentro, sai carvão”, afirmou Edenira.

De acordo com as moradoras, as cenas que mais as impressionam ocorrem na vegetação ao redor das casas. "Se você jogar água nas folhas, pinga carvão."

As moradoras associam a poeira a problemas respiratórios e outras queixas de saúde, embora não existam estudos apresentados pela comunidade que estabeleçam relação direta entre os sintomas relatados e as atividades industriais.

"Não é possível, num local, todo mundo ter o mesmo sintoma de doença", afirma Edenira  que diz sentir muitas dores no corpo e foi diagnosticada com neuropatia, doença que, segundo ela, atinge também outros membros de sua família.

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal
Moradoras trabalham com a extração da bocaiúva (Foto: Arquivo Pessoal)

Bocaiúva ameaçada - A expansão dos empreendimentos também tem gerado reflexo nas atividades extrativistas. Dona Edil trabalha com a bocaiúva e afirma que áreas utilizadas para coleta vêm sendo reduzidas. “Tem lugar que a gente não tem mais acesso e quando a gente vai ver, já derrubaram tudo”.

A preocupação vai além da preservação ambiental e atinge diretamente a renda das famílias. “A demanda está aumentando, mas a gente não consegue garantir a produção."

Por isso, moradores defendem a criação de uma reserva extrativista para proteger as áreas de coleta e garantir a continuidade da atividade.

"A preocupação é que daqui a pouco não tenha mais de onde tirar a bocaiúva".

Ao longo dos relatos, o sentimento de abandono aparece repetidamente. “Parece que a gente não existe aqui”, desabafa Edil.

Edenira afirma que as reivindicações já foram levadas diversas vezes ao poder público e às empresas que atuam na região. "Eles sabem disso. Já conversamos várias vezes com eles. Mas não tem nenhuma solução."

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal
Pessoas reunidos na varanda da associação construída pelos moradores (Foto: Arquivo pessoal)

Poder público - Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Corumbá informou que acompanha a situação da comunidade e mantém diálogo permanente com os moradores por meio de reuniões e visitas técnicas realizadas com a participação de diferentes secretarias municipais, além do MPF (Ministério Público Federal).

Segundo a administração municipal, os atendimentos de saúde seguem sendo realizados provisoriamente na associação de moradores e a Unidade Móvel Odontológica é disponibilizada para ampliar a assistência na região. A prefeitura informou ainda que participa de discussões para definir a área mais adequada para a construção de uma futura unidade de saúde e de uma escola.

Sobre o abastecimento de água, o município afirmou que acompanha a situação e realiza ações de orientação sobre o uso adequado da água, incluindo a distribuição de hipoclorito para tratamento doméstico. No entanto, não informou prazo nem projeto para implantação de rede de água tratada na comunidade.

A prefeitura também informou que a obra prevista para um ponto de apoio à saúde teve sua continuidade reavaliada após manifestações da comunidade e orientações do Ministério Público Federal, mas não detalhou quando o posto deixou de funcionar.

“Estamos cercados”, dizem moradores entre siderurgia e mineração no Pantanal
Usina da Vetorial, em Corumbá, que fica próxima à comunidade Antônio Maria Coelho (Foto: Divulgação)

O que dizem as empresas - A Vetorial informou que mantém operações de mineração e siderurgia na região há vários anos e que adota medidas para reduzir a emissão de poeira e material particulado, como a umidificação das vias com caminhões-pipa e a manutenção dos sistemas de filtragem exigidos pelos órgãos ambientais.

A empresa reconheceu que pode ocorrer dispersão do chamado "fino de carvão", especialmente durante períodos de seca e conforme a direção dos ventos, mas afirmou que suas atividades seguem os padrões estabelecidos pelos órgãos de fiscalização ambiental.

A Vetorial também contestou a associação dos impactos relatados exclusivamente às suas operações. Segundo a empresa, o aumento recente da circulação de caminhões estaria relacionado principalmente às atividades da LHG Mining, responsável por uma movimentação significativamente maior de minério de ferro na região.

De acordo com a companhia, sua produção gira em torno de 1,5 milhão de toneladas por ano, enquanto a movimentação da LHG chegaria a aproximadamente 12 milhões de toneladas anuais.

A reportagem também procurou a mineradora LHG Mining. O espaço permanece aberto, caso haja manifestação.

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