A pressa que atravessa o sinal e transforma a cidade em uma roleta-russa
Mais fiscalização, mais consciência, menos vítimas

No trânsito de Campo Grande, há muitos problemas que desafiam diariamente motoristas, ciclistas e pedestres. Buracos, sinalização deficiente, congestionamentos e imprudências fazem parte da rotina. Mas poucos comportamentos são tão preocupantes quanto o que vem sendo adotado por parte dos motociclistas, especialmente os entregadores que transformaram a urgência da entrega em justificativa para ignorar regras básicas de convivência e segurança.
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Campo Grande registrou mais de dois mil acidentes com motocicletas em seis meses, com grande parte das vítimas com até 25 anos. Motociclistas, especialmente entregadores, avançam sinais vermelhos e fazem manobras perigosas. Especialistas apontam que modelos de remuneração por produtividade incentivam riscos. A solução exige fiscalização, educação e responsabilidade das plataformas de entrega.
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Basta permanecer alguns minutos em qualquer cruzamento movimentado para perceber a dimensão do problema. O sinal fecha para todos, menos para muitos motociclistas. Enquanto carros respeitam a luz vermelha, motos avançam como se o semáforo fosse apenas uma sugestão. Cruzam avenidas sem qualquer preocupação com os veículos que já receberam o sinal verde, apostando que os demais conseguirão frear a tempo. É uma aposta diária na sorte — e, muitas vezes, na tragédia.
O sinal vermelho deixou de ser uma barreira para se tornar, para alguns, apenas um detalhe. Soma-se a isso o zigue-zague entre os carros, as ultrapassagens pelos dois lados, a circulação sobre calçadas, o uso da contramão em pequenos trechos e a velocidade incompatível com áreas urbanas. A cidade passa a conviver com uma sensação permanente de imprevisibilidade.
É evidente que a atividade de entrega exige rapidez. O consumidor quer receber logo, as plataformas remuneram quem produz mais, e o entregador depende do volume de corridas para aumentar sua renda. Mas nenhuma entrega vale uma vida. Nenhum pedido de comida, medicamento ou encomenda justifica transformar cruzamentos em cenários de alto risco.
Os números mostram que a conta é alta
Os números ajudam a compreender a gravidade da situação. Em apenas seis meses, Campo Grande registrou mais de dois mil acidentes envolvendo motociclistas. O resultado dessa combinação de pressa, imprudência e desrespeito às regras é devastador: somente no primeiro semestre, 23 motociclistas perderam a vida nas ruas e avenidas da Capital. E o cenário continua preocupante. Apenas em julho, outras quatro mortes já foram registradas.
Grande parte das vítimas tem até 25 anos, justamente a faixa etária que deveria estar iniciando sua trajetória profissional e construindo o futuro, não ocupando leitos hospitalares ou engrossando estatísticas de mortes no trânsito.
O exemplo precisa vir de quem fiscaliza
Também é preciso olhar para quem tem a missão de fiscalizar e fazer cumprir a lei. Não são raras as situações em que motocicletas utilizadas por forças de segurança são vistas realizando zigue-zague entre veículos ou adotando condução agressiva, mesmo quando não há, aparentemente, uma ocorrência urgente em andamento.
É importante fazer uma distinção. Em operações policiais, perseguições, escoltas ou atendimentos emergenciais, a legislação prevê exceções e autoriza procedimentos diferenciados para preservar vidas e garantir o cumprimento da missão. Mas, fora dessas circunstâncias, o agente público deve ser o primeiro a demonstrar respeito às normas que fiscaliza. A autoridade da lei não se sustenta apenas na aplicação de multas, mas, sobretudo, no exemplo de quem a representa.
Quando o cidadão percebe que aqueles encarregados de exigir o cumprimento das regras também aparentam ignorá-las sem justificativa, instala-se uma perigosa sensação de permissividade. A mensagem transmitida é simples e equivocada: se quem fiscaliza pode, por que os demais não poderiam? O resultado é o enfraquecimento da cultura de respeito às leis de trânsito.
Fiscalizar também é dar o exemplo
É preciso reconhecer que nem toda a responsabilidade recai sobre os motociclistas. Muitos motoristas também dirigem distraídos, usam o celular ao volante, deixam de dar preferência e desrespeitam limites de velocidade. O trânsito seguro depende do comportamento coletivo.
No entanto, há infrações que se tornaram quase rotineiras entre parte dos motociclistas e que já não podem ser encaradas como algo "normal". Avançar deliberadamente um semáforo vermelho não é um pequeno deslize. É uma das infrações mais perigosas previstas no Código de Trânsito Brasileiro porque elimina justamente o elemento que organiza a circulação e evita colisões em cruzamentos.
Também não basta apenas cobrar consciência. A fiscalização precisa ser mais presente e constante, mas também coerente. Quem aplica a lei deve ser reconhecido pelo exemplo. Quando a percepção é de que dificilmente haverá punição — ou de que existem comportamentos tolerados conforme quem os pratica —, a tendência é que as infrações se multipliquem. Operações educativas são importantes, mas precisam caminhar ao lado da fiscalização efetiva e da aplicação das penalidades previstas em lei.
A responsabilidade vai além do guidão
Há ainda outro elo nessa cadeia que merece reflexão: as empresas e plataformas de entrega. Modelos de remuneração baseados exclusivamente em produtividade e velocidade podem, ainda que indiretamente, estimular comportamentos de risco. A eficiência logística não pode ser construída sobre a insegurança de quem trabalha nem sobre o perigo imposto aos demais usuários das vias.
O trânsito funciona como um pacto coletivo. Cada motorista respeita a regra porque confia que o outro fará o mesmo. Quando esse acordo é rompido, instala-se o caos. E, no trânsito, o caos costuma ser medido em vidas interrompidas, famílias destruídas e hospitais lotados.
A cidade precisa reagir
Os mais de dois mil acidentes registrados em apenas seis meses e as 27 mortes contabilizadas até agora — 23 no primeiro semestre e outras quatro somente em julho — não podem ser tratados como estatísticas frias. Cada número representa uma vida interrompida, uma família marcada pela dor e um alerta de que Campo Grande precisa reagir.
Educação, fiscalização, responsabilidade das plataformas e mudança de comportamento são medidas complementares, não alternativas. Mas há um princípio que precisa prevalecer sobre todos os demais: ninguém tem tanta pressa que possa colocar a própria vida e a dos outros em risco.
E esse esforço deve começar justamente por aqueles que têm a missão de proteger a sociedade e garantir o cumprimento da lei. Porque a autoridade se fortalece pelo exemplo. No trânsito, mais do que em qualquer outro espaço público, respeitar as regras continua sendo a maneira mais simples, mais barata e mais eficaz de salvar vidas.

