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Será a era dos coléricos?

Por Cristiane Lang (*) | 19/09/2026 13:00

Há uma sensação estranha atravessando o nosso tempo, como se estivéssemos cercados por vozes que gritam, opinam, acusam, corrigem e interrompem sem cessar. O mundo parece ter desaprendido a respirar entre uma frase e outra. Não é apenas uma impressão individual; é um clima emocional que invade as redes sociais, as famílias, os relacionamentos, os ambientes de trabalho, os noticiários e até os pequenos encontros cotidianos. Tudo parece carregado de urgência, indignação e confronto, e às vezes me pergunto se estamos entrando na era dos coléricos.

Não falo do temperamento como diagnóstico, mas como metáfora de um comportamento coletivo que vem sendo cada vez mais valorizado. Todos nós carregamos alguma porção de fogo e alguma porção de água, impulsos de ataque e desejos de paz. O problema é que certas épocas premiam determinados traços e empurram outros para a sombra. A nossa parece aplaudir quem reage rápido, quem fala mais alto, quem transforma qualquer discordância em batalha.

O colérico sempre existiu. É aquele que se move pela intensidade, pela ação, pela necessidade de controlar o rumo das coisas. Tem coragem, iniciativa, energia para enfrentar obstáculos, e em muitos momentos da história foram pessoas assim que abriram caminhos importantes. Mas o colérico saudável constrói; o colérico exaltado consome. E talvez estejamos vivendo justamente uma inflação dessa exaltação.

As redes sociais se tornaram um palco permanente para o temperamento inflamado. A calma não viraliza, a ponderação não produz compartilhamentos frenéticos, o silêncio não gera engajamento. A raiva mobiliza mais do que a serenidade. Por isso vemos pessoas discutindo como se cada assunto fosse uma guerra moral definitiva. Pequenas divergências recebem a intensidade de grandes traições. O outro deixa de ser alguém com uma experiência diferente e passa a ser um inimigo a ser desmontado publicamente. A delicadeza virou suspeita, a escuta virou fraqueza, a dúvida virou incompetência.

Enquanto isso, os fleumáticos recolhem-se. O fleumático é aquele que observa antes de reagir, que precisa de tempo para organizar o pensamento, que prefere compreender a confrontar. É a pessoa que evita conflitos desnecessários não por covardia, mas porque reconhece o custo emocional das batalhas inúteis. É quem sustenta ambientes, apazigua tensões e oferece estabilidade quando todos estão em ebulição. Só que vivemos uma época que confunde serenidade com omissão.

O fleumático fala baixo num mundo que instalou caixas de som em cada ego, e quem fala baixo corre o risco de parecer inexistente. Muitas vezes ele até tem algo importante a dizer, mas desiste antes de começar, porque sabe que não encontrará diálogo, apenas interrupções, ironias e julgamentos instantâneos. Então ele se cala. E talvez esse seja o fenômeno mais perigoso do nosso tempo: não o excesso de vozes agressivas, mas o desaparecimento gradual das vozes equilibradas.

Quando os moderados abandonam a conversa, os extremos ocupam todas as cadeiras. Pense nas reuniões de família em que alguém prefere mudar de assunto para evitar explosões, nos profissionais competentes que deixam de expor ideias porque o ambiente premia apenas quem se impõe com agressividade, nos relacionamentos em que uma pessoa aprende que qualquer tentativa de diálogo terminará em tempestade emocional. Aos poucos, os fleumáticos fazem o que sempre souberam fazer: preservam a paz possível. Só que, ao preservar a paz individual, deixam um vazio coletivo, e o vazio nunca permanece vazio por muito tempo.

Há algo profundamente triste nisso, porque o fleumático carrega uma sabedoria silenciosa de que a humanidade sempre precisou. É ele quem lembra que nem toda provocação merece resposta, que algumas feridas precisam de acolhimento e não de debate, que a velocidade da reação raramente produz profundidade, que escutar é uma forma de amar. Sem essa presença, o tecido social começa a rasgar. As conversas ficam mais curtas e mais violentas, as amizades tornam-se condicionadas à concordância absoluta, os casamentos transformam diferenças em disputas de poder, os filhos crescem aprendendo que emoção forte vale mais do que reflexão cuidadosa.

Talvez por isso tanta gente esteja cansada sem saber exatamente do quê. Não é apenas excesso de trabalho; é excesso de atrito. Estamos emocionalmente expostos a uma sucessão interminável de indignações. A cada minuto surge um novo motivo para reagir, comentar, condenar, defender-se. O sistema nervoso humano não foi feito para viver em estado permanente de combate simbólico, e o corpo registra essa tensão contínua em forma de ansiedade, irritabilidade, insônia e sensação de ameaça difusa.

O curioso é que muitos coléricos também estão exaustos, porque o fogo que ilumina é o mesmo que pode incendiar a própria casa. Viver permanentemente armado contra o mundo cobra um preço alto. A necessidade de ter razão em tudo impede o descanso, a vigilância constante corrói a ternura, e quem transforma cada conversa em disputa acaba perdendo a capacidade de simplesmente encontrar o outro.

No fundo, talvez não estejamos assistindo à vitória dos coléricos, mas ao adoecimento coletivo da nossa relação com o conflito. Precisamos resgatar o valor da fleuma, não como passividade, mas como maturidade emocional. Fleuma não é ausência de opinião; é presença de equilíbrio. É conseguir permanecer inteiro diante da provocação, sustentar a própria verdade sem precisar destruir a verdade do outro, compreender que firmeza e gentileza podem habitar a mesma pessoa.

Talvez os fleumáticos precisem voltar a se manifestar. O mundo não precisa apenas de quem denuncia; precisa de quem traduz. Não precisa apenas de quem combate; precisa de quem reconcilia. Não precisa apenas de líderes inflamados; precisa de presenças que desacelerem a violência invisível das relações cotidianas. Há uma coragem imensa em permanecer calmo quando todos perderam a calma. Há uma força quase revolucionária em responder com lucidez num ambiente intoxicado por impulsos. O fleumático não deveria ter vergonha de sua natureza, porque sua lentidão para reagir pode ser exatamente o espaço onde a consciência consegue entrar antes do estrago.

Nem sempre quem fala por último perdeu a discussão. Às vezes é quem se recusou a perder a humanidade. Estamos, sim, cercados por muito fogo, mas nenhuma civilização sobrevive apenas de incêndios. É preciso haver rios correndo por dentro dela, pessoas capazes de esfriar as pedras, oferecer pausa e lembrar que convivência não é conquista militar. Talvez a pergunta não seja se estamos na era dos coléricos, mas onde estão os fleumáticos que ainda acreditam que a paz merece ter voz. Espero que eles não tenham desistido de falar, porque quando os serenos desaparecem, o barulho vence. E um mundo vencido pelo barulho pode continuar cheio de palavras, mas já terá perdido, há muito tempo, a capacidade de se escutar.

(*) Cristiane Lang é psicóloga.

 

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