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Política

Eleição de 2026 reabre a veia progressista da origem de MS

Candidatos expõem contraste entre o espírito contestador da fundação do Estado e sua atual hegemonia à direita

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 21/08/2026 15:59
Eleição de 2026 reabre a veia progressista da origem de MS
Pedro Pedrossian, Wilson Barbosa Martins e Marcelo Miranda (Foto: Arquivo)

O conceito de conservador carimbado na testa do eleitor sul-mato-grossense é duvidoso e profundamente contraditório quando se confronta o perfil dos candidatos de 2026 com o DNA dos políticos que tiveram papel decisivo na criação e construção de Mato Grosso do Sul. Dos 419 candidatos com registros na Justiça Eleitoral, apenas 0,72% carregam no sangue a herança política direta daquela geração

RESUMO

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Três candidatos ao governo de Mato Grosso do Sul em 2026 são descendentes diretos de protagonistas da fundação do Estado: Fábio Trad, do PT, filho de Nelson Trad; João Henrique Catan, do Novo, neto do ex-governador Marcelo Miranda; e Pedro Pedrossian Neto, dos Republicanos, neto do ex-governador Pedro Pedrossian. A genealogia contraria a imagem conservadora atribuída ao eleitorado sul-mato-grossense, já que a elite política que originou o Estado tinha perfil progressista e conflituoso com a ditadura militar.

Fábio Trad (PT) e João Henrique Catan (Novo) são filho e neto, respectivamente, de Nelson Trad e do ex-governador Marcelo Miranda e disputam o governo do Estado. O deputado estadual Pedro Pedrossian Neto (Republicanos), candidato à reeleição à Assembleia Legislativa, descende de Pedro Pedrossian, último governador eleito diretamente ainda no uno Mato Grosso na ditadura, principal personagens da formação política de Mato Grosso do Sul e pivô de uma crise que levou a ditadura militar, ainda em pleno vigor, a nomear três governadores em apenas 22 meses de existência do Estado.

O terceiro deles foi o próprio Pedrossian, empossado em novembro de 1980 depois de derrubar seu antigo apadrinhado, Marcelo Miranda, que havia substituído o homem de confiança do general João Figueiredo, Harry Amorim Costa. Foram tempos de muita crise e uma certa rebeldia.

A palavra pode parecer estranha quando aplicada à política de um Estado hoje identificado com o agronegócio, a direita e, nos últimos anos, com a forte penetração do bolsonarismo. Mas é aí que a genealogia dos candidatos de 2026 ganha significado.

Para o cientista político Filipe Wisley Matos Rosa, da UFMS, a elite política que esteve na origem da divisão de Mato Grosso não pode ser automaticamente enquadrada no campo conservador. Ele identifica nela características progressistas e vanguardistas, numa época em que o país ainda estava submetido a uma ditadura militar e a oposição política era limitada pela força do regime.

Eleição de 2026 reabre a veia progressista da origem de MS
João Henrique Catan, conservador, cristão e bolsonarista, Fábio Trad, progressista e Pedrossian Neto, centro-direita. (Foto Campo Grande News)

A cria contra o criador

A criação de Mato Grosso do Sul, em 1977, foi uma decisão da ditadura do general Ernesto Geisel. Mas Brasília não eliminou as disputas políticas existentes no Sul de Mato Grosso nem transformou automaticamente os grupos que defendiam a divisão em aliados dóceis do regime. O novo Estado nasceu, portanto, de uma contradição: foi criado por uma ditadura, mas sua elite política tinha interesses, projetos e disputas que não se resumiam à visão dos militares.

Na primeira eleição direta para governador, em 1982, o eleito, Wilson Barbosa Martins, do MDB, era opositor de consistência ao regime militar. Se nasceu pelas mãos de um regime que perseguia opositores, a primeira escolha direta de Mato Grosso do Sul foi contra ele. A trajetória posterior sugere que o que pode ter se perdido não foi a capacidade de produzir riqueza ou desenvolvimento, mas parte daquela disposição original de contestar o poder estabelecido.

A própria trajetória de Pedro Pedrossian ajuda a iluminar essa zona cinzenta. Pedrossian Neto sustenta que o avô tentou ingressar no MDB, partido de oposição ao regime, mas teria encontrado as portas fechadas por Wilson Barbosa Martins, seu adversário político. Ficou no PDS, que substituiu a Arena do bipartidarismo ditatorial. O neto rejeita a leitura automática de que isso o transformaria em um político conservador. Na memória familiar que ele recupera, Pedrossian era antes de tudo um realizador, idealista e progressista.

É uma herança curiosa para um político que hoje se define como de centro-direita e liberal. O neto pode ocupar outro campo político e, ainda assim, reivindicar do avô valores que considera permanentes, o que demonstra que o DNA político não é necessariamente uma transmissão ideológica automática.

Três herdeiros, três caminhos

A mesma operação aparece, de forma mais explícita, em Fábio Trad. Na convenção que lançou sua candidatura ao governo pelo PT, o candidato transformou a história do pai, Nelson Trad, em um legado moral. A palavra escolhida foi coragem.

Eleito vice-prefeito de Campo Grande pelo PTB em 1963, Nelson Trad foi cassado e preso em 1965, aos 35 anos, durante a ditadura militar. Fábio contou aos militantes que três jipes verde-oliva chegaram à casa onde a família morava de aluguel, em Campo Grande, para levá-lo. Preso com outros políticos e profissionais, Nelson teria redigido, clandestinamente, uma minuta de habeas corpus para ele e os demais detidos. O texto chegou às mãos da família, foi levado a Brasília e serviu de base para a concessão da ordem de soltura pelo STM (Superior Tribunal Militar).

Eleição de 2026 reabre a veia progressista da origem de MS
Nelson Trad quando tomou posse como secretário de Justiça no governo de Pedro Pedrossian. (Foto: Divulgação)

É essa memória que Fábio escolhe levar para a campanha. Não apenas o sobrenome, mas a imagem de um pai que enfrentou a ditadura. “Essa é a coragem que me inspirou a chegar aqui”, afirmou na convenção. Décadas depois, ele apresentou sua própria atuação política em defesa de Lula na prisão, em 2019, como uma continuidade daquele gesto paterno, atualizado e reinterpretado para a disputa de 2026.

A operação de João Henrique Catan é diferente. Neto de Marcelo Miranda, governador de Mato Grosso do Sul entre 1979 e 1980, ele não faz da genealogia familiar uma peça evidente de sua biografia institucional. Seu perfil oficial apresenta outra história: a do jovem que começou a trabalhar aos 14 anos, estudou Direito no Mackenzie, em São Paulo, aprofundou-se em Ciência Política, participou das manifestações de 2013 e das mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff, tornou-se deputado estadual e se consolidou como uma das principais vozes conservadoras do Estado.

O nome Marcelo Miranda sequer aparece nessa narrativa. Catan se apresenta como produto de outra linhagem: a das manifestações de rua, do bolsonarismo, da defesa das liberdades individuais, da propriedade privada, do agronegócio e da redução do Estado. Em sua página oficial, faz questão de se apresentar como “cristão, armamentista, bolsonarista, conservador e combativo”. É justamente o contraste que interessa.

Se Pedrossian Neto assume o sobrenome para reivindicar um legado de modernização e Fábio Trad recupera explicitamente a memória de resistência do pai, Catan parece fazer o movimento inverso: carrega o DNA de uma das famílias que participaram da primeira fase política do Estado, mas constrói sua identidade pública em torno de uma direita contemporânea que pouco tem a ver com a imagem política de sua origem.

O que sobrevive do DNA

A história do novo Estado torna esse contraste ainda mais agudo. Em 1982, na primeira eleição direta para governador, os sul-mato-grossenses escolheram Wilson Barbosa Martins. É uma passagem que complica a tese, hoje repetida com frequência, de que o eleitor de Mato Grosso do Sul seria naturalmente conservador e de direita. A história eleitoral do Estado não autoriza uma leitura tão linear. Houve, desde a origem, disputas entre grupos econômicos, políticos e ideológicos que não cabem perfeitamente nas categorias utilizadas hoje.

Eleição de 2026 reabre a veia progressista da origem de MS
Wilson Barbosa Martins durante comemoração por ser eleito governador (Foto: Arquivo Histórico de Campo Grande)

Deputado estadual pelo Mato Grosso uno entre 1975 e 1979, período em que o separatismo estava na agenda, e pai do deputado federal Beto Pereira (PSDB), que busca a reeleição, o advogado Valter Pereira, ex-senador, também deixou registrada uma interpretação que realça essa contradição.

Em discurso no Senado em 2006, afirmou que a criação do Estado foi obra do regime militar, mas assinalou que a iniciativa “despertou sonhos represados de uma população progressista” do que à época era somente o Sul de Mato Grosso. Valter, opositor do regime e preso três vezes em 1964, ajuda a mostrar que a história política da região não se resume à imagem conservadora que ganhou força posteriormente. Para ele, o propalado conservadorismo é mais efeito da polarização e do pragmatismo eleitoral.

A história reaparece, de maneira inesperada, na eleição de 2026. Os três candidatos que carregam diretamente no sangue a linhagem dos protagonistas daquela primeira geração de governantes são politicamente distintos entre si. Fábio Trad está no PT e reivindica uma memória progressista de oposição à ditadura; Catan se apresenta como conservador, cristão e bolsonarista; Pedrossian Neto ocupa o campo da centro-direita e se define como liberal.

A genética política, portanto, não produz clones. O que atravessa as gerações não é necessariamente a ideologia, mas o capital político, a memória, o sobrenome e uma determinada relação com a ideia de poder.

Isso ganha importância diante da configuração da eleição atual. A candidatura de Eduardo Riedel se apoia num arco de alianças que reúne praticamente todo o espectro da direita e do centro, com a participação de forças que vão do conservadorismo tradicional ao bolsonarismo mais radical. A coalizão dá forma eleitoral à percepção de que Mato Grosso do Sul teria se tornado um dos territórios mais sólidos da direita brasileira. A genealogia dos três candidatos introduz, no entanto, uma pequena fissura nessa imagem.

O Estado que hoje parece tão confortavelmente identificado com a direita nasceu de uma história política muito menos obediente e muito mais conflituosa. Seus primeiros grupos dirigentes disputaram espaço quando a ditadura ainda era forte, seus governadores entraram em choque entre si e, quando finalmente puderam escolher diretamente quem governaria o novo Estado, os eleitores entregaram o cargo a um oposicionista da ditadura.

Em 1998, já em plena democracia, Mato Grosso do Sul elegeria Zeca do PT, um estalo estridente no perfil no conservadorismo até então dominante. Eleito para dois mandatos, substituiu Wilson Barbosa Martins e interrompeu a hegemonia do PMDB.

A herança que os três candidatos de 2026 carregam é o sangue de homens que ajudaram a construir Mato Grosso do Sul e a lembrança de que, na origem, o poder nunca foi tão conservador quanto parece hoje. Os lampejos de rebeldia, ao que tudo indica, ficaram perdidos pelo caminho.