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Política

Fronteira de MS fortaleceu facções por omissão estatal, apontam relatórios

PCC e Comando Vermelho assumiram o controle da cocaína em brechas que o governo federal conhecia há uma década

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 21/01/2026 18:21
Fronteira de MS fortaleceu facções por omissão estatal, apontam relatórios
Membros do PCC que foram entregues à Polícia Federal, após prisão no Paraguai, em 2024 (Foto: Divulgação)

Por mais de uma década, o Estado brasileiro soube que a fronteira de Mato Grosso do Sul havia se transformado no principal corredor do tráfico internacional e no laboratório das grandes facções do país. Sabia que municípios estratégicos estavam desguarnecidos, que a violência crescia justamente na linha internacional e que grupos como o Comando Vermelho e o PCC ocupavam o território. O diagnóstico estava pronto. A resposta estrutural, não.

RESUMO

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A fronteira de Mato Grosso do Sul tornou-se o principal corredor do tráfico internacional e laboratório das grandes facções criminosas do Brasil devido à omissão estatal. Documentos oficiais do Ministério da Justiça já indicavam, desde os anos 2000, que a região se transformava no eixo logístico do tráfico de cocaína, com presença do Comando Vermelho e PCC. Entre 2000 e 2012, cerca de 50% da cocaína apreendida pela Polícia Federal concentrou-se em cinco estados, incluindo MS. Municípios estratégicos como Paranhos, Coronel Sapucaia e Sete Quedas permaneceram desguarnecidos, com efetivo policial mínimo, enquanto a violência crescia na região fronteiriça, contribuindo para a formação do maior sistema nacional de facções da história recente do país.

Essa omissão ajuda a explicar como a perda de controle na fronteira sul-mato-grossense não apenas fortaleceu o crime local, mas contribuiu para a formação do maior sistema nacional de facções da história recente do Brasil.

Durante décadas, a região foi tratada como um problema periférico: muamba miúda, sacoleiros, contrabando de grãos, episódios isolados de violência. O lendário “rei da fronteira”, Fuad Jamil, simbolizava um tempo em que o crime era local, disperso e limitado. Essa leitura, porém, revelou-se não apenas equivocada, mas perigosa.

Desde o início dos anos 2000, documentos oficiais do próprio Ministério da Justiça, relatórios técnicos da Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (ENAFRON) e estudos produzidos durante o governo Michel Temer já indicavam que a fronteira sul-mato-grossense se tornava o principal eixo logístico do tráfico internacional de cocaína. O Estado sabia que facções nacionais ocupavam o território. E, ainda assim, deixou os vazios abertos.

O corredor central do tráfico

Os números mais antigos já eram eloquentes. Entre 2000 e 2012, cerca de metade de toda a cocaína apreendida pela Polícia Federal no Brasil concentrou-se em apenas cinco estados: Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Amazonas e Rondônia. Com São Paulo incluído, esse grupo respondeu por quase 70% das apreensões nacionais.

O dado indicava algo simples e alarmante: uma parcela expressiva da cocaína produzida na Bolívia e da maconha, no Paraguai, passava pelo corredor de Mato Grosso do Sul com destino aos grandes mercados do Sudeste e do exterior.

Mas o mesmo diagnóstico apontava uma contradição inquietante. Após o início da política nacional de fronteiras, as apreensões começaram a cair em alguns estados. Não se sabia se o controle havia melhorado ou se simplesmente se perdera capacidade de monitoramento. Parte do fluxo “sumia” dos registros oficiais.

A fronteira parecia mais vigiada no discurso do que na prática. Estudos da ENAFRON, conduzidos no Ministério da Justiça, então chefiado por Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF, registram que “são frequentes as queixas de que policiais se deixariam corromper pelas redes de traficantes e contrabandistas”. Entre as recomendações do grupo estavam a criação de corregedorias externas, a ampliação da rotatividade policial e o reforço dos mecanismos de controle.

A rota vira território

O avanço do tráfico não ficou restrito às rodovias. Segundo os próprios estudos federais, em cidades como Ponta Porã e Coronel Sapucaia a criminalidade transnacional tornou-se “enraizada” e diretamente associada à violência local.

Enquanto Campo Grande e o interior fora da faixa de fronteira registravam queda consistente nos homicídios entre 2000 e 2012, a região fronteiriça seguia o caminho oposto. Na capital, a taxa caiu de 37 para cerca de 22 mortes por 100 mil habitantes. No interior não fronteiriço, de 24 para 19. Já na faixa de fronteira, o índice subiu de 30,8 para 35,1.

Os municípios mais violentos formavam um cinturão contínuo ao longo da linha internacional: Paranhos, Ponta Porã, Aral Moreira, Sete Quedas, Amambai, Porto Murtinho, Antônio João, Tacuru e Corumbá.

O crime organizado já não usava essas cidades apenas como corredores de passagem. Instalava-se nelas. Criava mercados locais, redes de varejo de drogas e estruturas permanentes de financiamento.

Fronteira de MS fortaleceu facções por omissão estatal, apontam relatórios
Laboratório de refino de cocaína foi fechado por agentes da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) em Pedro Juan Caballero, em 2022 (Foto: Divulgação)

O laboratório das facções

O estudo do Ministério da Justiça que dividiu a fronteira em Arcos Norte, Central e Sul foi explícito: o Arco Central, que inclui Mato Grosso do Sul, concentrava a fronteira mais violenta do país. Paranhos e Coronel Sapucaia apareciam como epicentros.

Os relatórios associaram diretamente a escalada da violência à instalação de facções nacionais. Primeiro, o Comando Vermelho. Depois, o PCC. Esses grupos desestruturaram os antigos controles informais, fragmentaram o mercado do crime e multiplicaram os conflitos armados.

Coronel Sapucaia tornou-se símbolo desse processo. No início dos anos 2000, a guerra entre a família de João Morel e Fernandinho Beira-Mar projetou a região no mapa nacional do crime. Anos depois, o território passaria ao domínio do PCC.

Em 2016, numa ação que marcou a consolidação desse novo poder, inimigos históricos uniram-se para eliminar o último grande obstáculo: o contrabandista e traficante Jorge Raafat Toumani foi executado à luz do dia em Pedro Juan Caballero, cidade-gêmea a Ponta Porã. Ao fim do ataque, a fronteira tinha duas novas hegemonias — uma carioca, outra paulista.

A própria documentação oficial reconhece: a fronteira sul-mato-grossense funcionou como laboratório das facções nacionais antes de o país perceber a dimensão do problema.

Cidades estratégicas, Estado ausente

O retrato mais duro aparece nos pequenos municípios da linha seca com o Paraguai.

Paranhos, cidade-gêmea de Ypehú, era classificada como estratégica para as rotas de tráfico e contrabando. Apesar disso, não havia posto da Receita Federal nem unidade da Polícia Federal. Para 12,6 mil habitantes, havia um delegado e quatro agentes da Polícia Civil. Na Polícia Militar, oito praças.

Coronel Sapucaia vivia situação ainda mais crítica. Com 14 mil moradores, contava com apenas dois agentes civis em atividade. O pelotão da PM tinha um oficial e nove praças. A delegacia local chegou a ser atacada por criminosos vindos do lado paraguaio. A carceragem foi desativada por absoluta falta de segurança.

Sete Quedas repetia o padrão: pouco mais de dez mil habitantes, taxas elevadas de homicídio e efetivo mínimo. Operações do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) e da Polícia Federal eram vistas como exceções salvadoras em um território onde o Estado permanente quase não existia.

“Inexplicavelmente desguarnecidos”

A frase mais contundente do diagnóstico resume a política de fronteiras da época:

“Municípios da linha de fronteira como Coronel Sapucaia, Sete Quedas e Paranhos encontram-se inexplicavelmente desguarnecidos.”

Não se tratava de desconhecimento. O Ministério da Justiça mapeou rotas, identificou os pontos frágeis, apontou a presença de facções e descreveu a insuficiência de efetivos, viaturas, equipamentos e integração institucional.

Mesmo assim, os deixou abertos.

A resposta predominante foi repressiva — e ineficaz.

Mato Grosso do Sul passou a registrar a maior taxa de presos por tráfico do país, próxima de 500 presos por 100 mil habitantes.

 O encarceramento em massa elevou o preço da droga, mas não reduziu o transporte. Como reconhecem os próprios relatórios, as prisões não tiveram efeito dissuasivo sobre os operadores do tráfico, ou seja, o Estado prendia mais e controlava menos.

Da fronteira ao sistema nacional do crime

Mais de uma década depois, o diagnóstico se confirmou em escala nacional.

Um relatório de 2024 do próprio Ministério da Justiça mapeou ao menos 88 organizações criminosas ativas no sistema prisional brasileiro, espalhadas por mais de 1.700 pavilhões. Apenas duas facções, PCC e CV,  alcançaram atuação nacional e internacional. São os mesmos grupos que começaram a ocupar as rotas da fronteira sul-mato-grossense.

Hoje, há evidências de que o dinheiro do crime já alcança o centro do sistema financeiro. Investigações em curso na Polícia Federal, no Banco Central e na Receita apuram elos entre instituições financeiras e o PCC, um desdobramento direto de um processo iniciado, anos atrás, na fronteira, no mesmo período em que a resposta do Estado à frágil fronteira foi o enceramento em massa, o que fortaleceu as facções dentro das prisões. As prisões viraram centros de comando.

O ciclo estava completo. Mesmo assim, a resposta estrutural não veio.

Mais de uma década depois, o Sisfron avança lentamente, a integração segue limitada e muitos dos municípios mais frágeis continuam entre os mais violentos do estado.

Na fronteira de Mato Grosso do Sul, o crime não ocupou um vazio por acaso. Ele encontrou um território onde o Estado chegou tarde e, em muitos pontos, ainda não chegou.