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Campo Grande, Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018

05/10/2018 10:15

Isolado, pantaneiro prefere abster-se a pagar viagem longa para votar

Silvio Andrade, especial para o Campo Grande News
Porto Esperança, distrito de Corumbá: o acesso é apenas pelo rio ou ferrovia. (Foto: Divulgação)Porto Esperança, distrito de Corumbá: o acesso é apenas pelo rio ou ferrovia. (Foto: Divulgação)

Décimo primeiro município brasileiro em extensão – são mais de 65 mil km² -, Corumbá detém 44% do Pantanal, concentrando na sua planície 1.800 propriedades rurais e pelo menos nove mil eleitores. No entanto, nas últimas décadas foram extintas as seções eleitorais instaladas em locais de difícil acesso na região, onde chega-se apenas por rio ou avião, e a maioria desses brasileiros deixaram de exercer seu voto por dificuldades de transporte.

O Sindicato Rural de Corumbá estima que mais de 60% dos pantaneiros aptos a votar não comparecem às suas seções, que agora funcionam na cidade. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE/MS) alegou como impedimento para manter as seções o fato de funcionarem em escolas instaladas nas fazendas ou colônias. Contudo, fechou também a seção de uma instituição federal, a unidade da Embrapa Pantanal localizada na sub-região da Nhecolândia.

Única seção eleitoral no Pantanal de Corumbá fica em Porto Esperança. (Foto: Divulgação)Única seção eleitoral no Pantanal de Corumbá fica em Porto Esperança. (Foto: Divulgação)

As seções eleitorais pantaneiras, entre seis ou oito, funcionaram em tempos difíceis, quando não havia comunicação e o voto era manual, de papel. Os fazendeiros transportavam o pessoal dos cartórios e as urnas em seus aviões e não se tem notícias de alguma irregularidade constatada. Hoje, comunidades distantes e isoladas, como as colônias do Rio Taquari e ribeirinhas, têm sinal digital e o rádio de pilha foi trocado pelo celular de última geração.

A única seção na planície pantaneira ativa é a de nº 175, no distrito de Porto Esperança, agregando ainda a de nº 286: são 103 eleitores aptos. A comunidade fica situada à beira do Rio Paraguai, distante 14 km da BR-262, e o acesso é restrito ao rio e à ferrovia. Uma embarcação da Marinha levará ao local os mesários, a urna eletrônica e dois policiais militares. Os dados com os votos registrados serão enviados por internet aos centros de totalização.

Extinção: prejuízo à cidadania

Para o presidente do Sindicato Rural de Corumbá, Luciano Leite, o fechamento das seções causou prejuízos, obrigando os eleitores a se deslocarem por mais de 300 km até a cidade para votar. A dificuldade de acesso, por falta de estradas, é a razão da alta abstenção nas eleições anteriores. As lanchas que atendem a região cobram até R$ 100,00 pela passagem e o custo para exercer a cidadania não estimula o pantaneiro – além da longa e cansativa viagem.

“Dia de eleição no Pantanal era um dia especial, de festa, as comunidades se reuniam e o pantaneiro se orgulhava do direito de votar”, lembra o pecuarista Manoel Martins de Almeida, que tem propriedade na sub-região do Paiaguás (Norte de Corumbá). “Hoje a dificuldade é enorme e incide na despesa do peão, na paralisação do serviço na fazenda, sem falar nas lanchas lotadas. O fechamento das seções foi um prejuízo lastimável à cidadania”, observa.

Pantaneiros dependem das lanchas para ir à cidade e transporte é caro. (Foto: Silvio Andrade)Pantaneiros dependem das lanchas para ir à cidade e transporte é caro. (Foto: Silvio Andrade)

“Hoje a dificuldade é enorme e incide na despesa do peão, na paralisação do serviço na fazenda, sem falar nas lanchas lotadas. O fechamento das seções foi um prejuízo lastimável à cidadania”, observa.

O TRE, por meio de sua assessoria de imprensa, não se manifestou a respeito das razões que levaram à extinção das seções, transferindo as explicações para os cartórios eleitorais de Corumbá. Estes, informaram apenas que a Justiça Eleitoral garante o transporte gratuito às comunidades rurais que manifestam dificuldades para comparecer às seções localizadas na área urbana. No caso do Pantanal, não houve nenhum pedido para as eleições de domingo.

De Coimbra, a longa jornada

Até o ano de 2000 há registros de uso de embarcações militares para atender os pantaneiros que ainda mantinham domicílio eleitoral na região, mas era uma minoria que votava na seção da fazenda Nhumirim, da Embrapa. Naquele ano, a Justiça Eleitoral também requisitou dois helicópteros da Marinha para levar mesários e as urnas à reserva dos índios kadiwéu, entre Corumbá, Bodoquena e Porto Murtinho, onde funcionam três seções com 543 eleitores.

A última seção extinta foi a do Forte Coimbra, ao Sul, cujo acesso é feito por água ou ar. A medida motivou uma verdadeira maratona o deslocamento dos eleitores até Corumbá. Esse ano, uma lancha contratada pelo TRE transportará 56 eleitores até a ponte sobre o Rio Paraguai, na BR-262. A viagem começa às 2h da manhã de domingo e são seis horas de viagem até a rodovia. Depois, de ônibus, mais uma hora até Corumbá, distante 152 km.

“A seção de Coimbra foi reinstalada, mas não vai operar nestas eleições”, explicou o chefe do cartório da 7ª Zona Eleitoral, Anselmo Gonçalves. Nas eleições de 2020, o número de eleitores do forte – militares e civis – deve ultrapassar a 100. No domingo, o prazo de votação para os moradores de Coimbra, fortificação situada na fronteira com o Paraguai, termina às 15h30 - horário do longo retorno da maior operação logística para transportar eleitores do Pantanal.

Guató faz cota para votar

Dificulta extrema enfrentará os índios guató para votar. A Reserva Ínsua fica distante 350 km de Corumbá, pelo Rio Paraguai, na divisa do Estado com Mato Grosso, e não foi disponibilizado transporte pela Justiça Eleitoral. O cacique Luiz Calos Souza informou que a lancha da comunidade descerá o rio nesse sábado, em viagem de 24h, com 20 eleitores de um total de 50. “Quem ficar na aldeia vai justificar o voto depois, sempre foi assim”, diz o cacique.

Embarcação dos índios Guató navegará um dia para levar os eleitores da aldeia a Corumbá. (Foto: Divulgação)Embarcação dos índios Guató navegará um dia para levar os eleitores da aldeia a Corumbá. (Foto: Divulgação)

Luiz Carlos reivindica a instalação de uma seção eleitoral na região, que atenderia também comunidades ribeirinhas, as quais somam mais de 300 famílias. O destacamento do Exército, ao lado da reserva, poderia ser o local, pela segurança e acesso à internet, ou na sede do Parque Nacional do Pantanal, também próxima. “Estamos fazendo cota entre os irmãos para pagar alimentação durante a viagem e na cidade, é uma situação complicada”, reclama.

No Pantanal de Porto Murtinho, município localizado no extremo Sul, fronteira com o Paraguai, não foi montado também nenhuma estrutura de transporte para atender os eleitores que residem nas fazendas, explicou a chefe do cartório eleitoral, Caroline Arce Franco. “Não foi feito pedido de apoio ao deslocamento das pessoas dessa região”, alegou. A abstenção deverá ser significativa: a cheia ainda isola parte da sub-região do Nabileque.

O transporte gratuito, no entanto, está garantido aos índios kadiwéu, cujas aldeias ficam distantes até 375 km da cidade por estradas vicinais. A Justiça Eleitoral manteve as três seções dentro da reserva, as quais funcionam em escolas, e ônibus estarão circulando internamente para atender os eleitores. A única dificuldade, segundo a responsável pelo cartório eleitoral, é uma ponte quebrada entre duas aldeias. O problema deverá ser resolvido até domingo.

Comunidades ribeirinhas também não tem apoio logístico para votar em Corumbá. (Foto: Sílvio Andrade)Comunidades ribeirinhas também não tem apoio logístico para votar em Corumbá. (Foto: Sílvio Andrade)


Se o voto deixasse de ser obrigatório, seria bom para todos. O problema é que a indústria das eleições seria enxugada substancialmente.
 
Áttila Teixeira Gomes em 05/10/2018 15:10:22
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