Canetas ganham espaço, mas bariátrica segue necessária em casos graves
Número de cirurgias caiu no setor privado do País; na Capital, regulações para a rede pública não diminuíram
O funcionário público Marcos Brito, 28, fez uma cirurgia bariátrica custeada pelo convênio em 2019. Tudo ia bem, até a pandemia de Covid-19 trazer 40 quilos de volta, enquanto também o colocava dentro de grupo de risco para a doença.
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“Eu não praticava nenhum exercício físico. Não tinha o que fazer e comecei a comer compulsivamente. Sem nenhum cuidado, minha saúde foi ladeira abaixo e atingi os 140 kg”, conta.
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Marcos foi parar no hospital duas vezes com crise de ansiedade. “Achei que estava infartando e ia morrer”, lembra. As alterações nos exames de rotina viraram uma preocupação e a depressão também surgiu.
Tomando remédios para dormir e controlar a pressão arterial e o colesterol, além de não conseguir brincar com o filho, ele decidiu começar o tratamento com canetas emagrecedoras. Buscou depois o acompanhamento de nutricionista e personal trainer para evitar o reganho de gordura e a perda muscular.
Atualmente, seu peso é de 82 kg. “Tudo melhorou na minha vida. Não tenho pressão alta e nem colesterol alto. O médico olhou meus exames e viu que estou bem”, relata.
Para sempre - Endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia em Mato Grosso do Sul, Bianca Paraguassú reforça que a obesidade é uma doença crônica, por isso, existe a possibilidade de pessoas como Marcos Brito terem que usar as canetas a vida toda.
Apesar do avanço dos medicamentos, ela ressalta que as canetas não funcionam da mesma forma para todos. Há pacientes que não apresentam resposta suficiente mesmo com doses mais altas, enquanto outros não toleram os efeitos colaterais. Nos casos de obesidade muito grave ou quando há necessidade de perda de peso mais rápida devido a doenças associadas, a cirurgia bariátrica continua sendo uma alternativa importante.
Depende de cada caso, ela explica. A necessidade de investimento a longo prazo para a compra desses medicamentos, a manutenção de hábitos antigos de alimentação e sedentarismo, além da não adaptação de alguns pacientes podem levar ao abandono do tratamento e, consequentemente, ao reganho de peso.
Optar pela redução de estômago também não oferece garantias. “Com a cirurgia bariátrica você está fazendo um tratamento efetivo, não vai depender da adesão do paciente tanto assim. Mas depois disso, pode haver reganho de peso? Depende. A obesidade é uma doença crônica. Se não há mudança de hábitos, é o que pode acontecer”, finaliza a médica.
"Pontinha do iceberg" - Bianca afirma que as canetas emagrecedoras contendo análogos ao GLP-1 e tirzepatida podem ter preferência como tratamento em relação à cirurgia por oferecerem fatores de proteção a doenças que geralmente vêm acompanhadas com a obesidade. “A perda de peso é só a pontinha do iceberg”, começa.
Ela cita que estudos revisados pelo endocrinologista canadense Daniel Drucker apontam benefícios como o controle do colesterol e dos triglicerídeos, redução de risco cardiovascular e regressão da fibrose no fígado.
Já com relação à bariátrica, Bianca diz que a perda de peso provocada pela bariátrica também produz impacto metabólico, mas que ainda são aguardados novos estudos comparando determinados desfechos cardiovasculares.
Ainda no caso das canetas, os benefícios só consideram o uso de medicamentos certificados. "Se você está usando um medicamento de origem desconhecida, você não sabe se tem todos esses ganhos. Você pode estar só tratando no peso", acrescenta.
Quantidade de cirurgias - Na rede privada, a médica diz que percebeu uma redução muito grande na realização de cirurgias bariátricas depois da popularização das canetas.
Dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) mostram que os números de bariátricas realizadas por planos de saúde vêm caindo desde 2024 no Brasil. Em 2023, com a retomada dos procedimentos no pós-pandemia, foram 73,6 mil cirurgias. Em 2024, o total foi de 71,3 mil. A soma foi de 62,2 mil no ano passado.
A expectativa é que, se as canetas forem incorporadas ao SUS (Sistema Único de Saúde) como opção ao tratamento da obesidade, a entrada de pessoas para a fila da bariátrica tenha uma redução.
A reportagem consultou a SES (Secretaria Estadual de Saúde) para saber como está esse cenário em Mato Grosso do Sul, mas não obteve os números solicitados até o fechamento da matéria. Já a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) apresentou dados que mostram um aumento seguido de estabilização.
O número aumentou entre 2023 e 2024, e ficou no mesmo patamar entre 2024 e 2025. Nos nove primeiros meses deste ano, a quantidade de novos pacientes na fila representa 68,65% dos que ingressaram no ano passado.
A endocrinologista defende que a opção chegue à rede pública para gerar economia, evitar adoecimento por doenças ligadas à obesidade e mortes.
"Qualquer tratamento para obesidade vai diminuir o custo com internação e com doenças que são supergraves", conclui.
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