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Saúde e Bem-Estar

“Vizinho não queria beber minha água”: diz vítima de erro em diagnóstico de HIV

Com resultado confirmado, ela enfrentou insônia, preconceito e isolamento até descobrir que nunca teve vírus

Por Inara Silva | 26/03/2026 18:31
“Vizinho não queria beber minha água”: diz vítima de erro em diagnóstico de HIV
Silvia das Neves Garcia recebeu diagnósito em 2016 (Foto: Inara Silva)

Durante 8 anos, Silvia das Neves Garcia viveu com a certeza de um estigma: o HIV. Tomou medicamentos diariamente, enfrentou efeitos colaterais e mudou completamente a rotina. Só depois da suspeita de uma médica e da repetição de exames ela descobriu que nunca teve o vírus. A história, porém, deixou marcas físicas e emocionais profundas que agora tem como reparação uma quantia irrisória diante do drama: indenização de R$ 50 mil.

RESUMO

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Uma mulher de Campo Grande viveu por oito anos com diagnóstico errado de HIV, tomando medicamentos e enfrentando efeitos colaterais desnecessariamente. Silvia das Neves Garcia descobriu o erro em maio de 2024, após uma médica solicitar novos exames durante um check-up de rotina. Durante o período, Silvia enfrentou isolamento social, preconceito e problemas emocionais profundos. A Justiça concedeu indenização de R$ 50 mil pelo erro, ainda sujeita a recurso. Mesmo após a descoberta, as sequelas físicas e psicológicas persistem, especialmente problemas estomacais causados pela medicação prolongada.

“Vizinho não queria beber água na minha casa. Eu escondia copo, talher, alicate de unha que eu usava para não contaminar ninguém”, conta.

Silvia se emociona ao lembrar o que passou, desde 9 de maio de 2016, quando iniciou tratamento diário com antirretrovirais. A medicação só foi interrompida em maio de 2024, quando uma médica lhe pediu check-up que verificou sua saúde global e constatou que Silvia era "não reagente" ao vírus. “Fiz exame de mama, ultrassonografia e até aquele que entra em uma máquina”, conta.

Ela processou o Poder Público e a Justiça lhe concedeu a indenização de R$ 50 mil, situação que ainda cabe recurso “Acho pouco pelo que eu passei. Dinheiro nenhum paga. Mas é um reconhecimento do erro”, afirma.

Desde o diagnóstico positivo, Silvia fez pelo menos 12 outras confirmações de HIV e não consegue entender como esse erro foi possível por tantos anos passando por diversos profissionais. Ela ia ao hospital de três em três meses para buscar medicamentos e, regularmente, repetir os exames.

Diagnóstico - Quando foi diagnosticada com a doença, Silvia ficou em choque e guardou segredo. Dias depois, decidiu compartilhar a notícia com os filhos e também com os patrões.

Apesar de ser acolhida por todos, o impacto emocional foi profundo. Na época, Silvia já trabalhava na mesma empresa em que permanece até hoje, há 15 anos. A conquista do emprego formal foi um marco importante na vida dela. “Quando o seu André registrou minha carteira, eu nem dormi. Ficava sentada olhando, abrindo toda hora. Ver minha carteira assinada igual aos outros foi uma alegria enorme”, lembra.

Apesar do apoio no trabalho e na família, fora da empresa ela afirma que enfrentou preconceito e isolamento.

“Vizinho não queria beber minha água”: diz vítima de erro em diagnóstico de HIV
Silvia das Neves Garcia se emociona ao contar sua história (Foto: Inara Silva)

Isolamento - O medo foi além da convivência social e afetou também a vida pessoal. Silvia afirma que evitou relacionamentos por receio de ser responsabilizada judicialmente.

“Eu tinha medo até de namorar. As pessoas falavam que, se eu passasse o HIV, eu podia ir presa. Então eu me retraí”, diz.

A insegurança contribuiu para quadros de tristeza e depressão. “A gente fica mal, fica deprimida. Pensava que ia morrer e que podia prejudicar alguém.”

Situações simples do cotidiano passaram a causar desconforto. Silvia conta que quando alguém a abraçava, ela  se sentia mal, com medo de contaminar a pessoa. Chegou a adotar hábitos extremos, como manter sempre um pano no ombro para usar caso espirrasse, temendo transmitir a doença mesmo sem haver risco real. Ela chegou a jogar panela de comida fora, porque se cortou enquanto manuseava um alimento.

O impacto psicológico foi intenso. “Acordava de madrugada, com medo. Quando alguém chegava perto, eu me afastava. Achava que podia passar pela saliva”, relata. O sofrimento também levou ao início do consumo de álcool e cigarro. “Eu pensava: vou morrer mesmo, então comecei a beber para esquecer.”

Segundo ela, os remédios lhe causavam tontura, moleza nas pernas, dores no estômago e falta de apetite. Quando retornava ao atendimento médico, Silvia reclamava, mas era informada que os sintomas eram efeitos colaterais da medicação. Hoje, há dois anos sem fazer o tratamento, o estômago ainda não voltou a ser o mesmo.

“Vizinho não queria beber minha água”: diz vítima de erro em diagnóstico de HIV
Exame de 2024 mostra que Silvia não tem o vírus (Foto: Inara Silva)

Virada - A reviravolta veio quando uma médica desconfiou do histórico e suspendeu a medicação temporariamente. Após novos exames, o resultado confirmou que Silvia não tinha o vírus.

“Ela falou: ‘Você não tem HIV’. Eu caí no chão chorando. Até a médica chorou comigo”, lembra.

Após a suspensão definitiva dos remédios, ela diz que houve melhora física. “Passou a moleza nas pernas e comecei a comer melhor. Só ficou sequela no estômago por causa do remédio”, afirma.

Mesmo com o alívio, Silvia afirma que as consequências emocionais permanecem. “Foram oito anos achando que eu ia morrer. Eu deixei de viver muita coisa.” Ela diz que a lembrança ainda provoca emoção. “Dá tristeza. Não tem como esquecer tudo que eu vivi”, resume.

Diagnóstico - Silvia conta que decidiu fazer o exame após saber que um rapaz com quem havia se relacionado estava com suspeita de AIDS. Preocupada, procurou atendimento no Hospital Dia, onde realizou o teste rápido. Cerca de 40 minutos depois, recebeu o diagnóstico positivo para HIV.

No mesmo dia, fez um outro exame de sangue. Trinta dias depois, o resultado reafirmou o primeiro diagnóstico. A partir dali, Silvia passou a conviver com o que acreditava ser uma condição definitiva, iniciando acompanhamento e tratamento na rede pública de saúde.

O advogado de Sílvia, Ricardo Pegolo, a acompanhou nos últimos dois anos e testemunhou seu sofrimento. Ele disse que eles não pretendem recorrer da decisão e vai aguardar se haverá recurso da Prefeitura.

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