A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018

22/01/2018 07:55

1968 e o intolerável sofrimento humano

Por Paulo Henrique Martinez (*)

No conjunto das experiências históricas concretas, na década de 1960, destaca-se com nitidez a percepção e a rejeição social ao sofrimento humano. Duas Guerras Mundiais aterrorizaram o mundo, na primeira metade do século XX, com a matança programada de grupos sociais e a destruição material sem precedentes na história. Esta cruel combinação atingiu o ápice na emblemática associação proporcionada pelas bombas atômicas e o seu lançamento pelos norte-americanos sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. O cenário de dor e de sofrimento completava-se com o morticínio nos campos de batalha e o extermínio massivo e sistemático de ciganos, deficientes físicos, doentes mentais, homossexuais, judeus, militantes anarquistas, comunistas e socialistas nos campos de concentração e de trabalho forçado.

A paz não representou o fim das causas e de supostas e alegadas necessidades de sofrimento humano. Na década de 1960, o sofrimento humano tornara-se intolerável. No ano 1968, ele foi rechaçado com clareza, vigor e criatividade em diferentes partes do globo. De um lado, a tecnologia dos meios de comunicação e de transporte aproximaram países e pessoas. As visões do sofrimento humano foram conhecidas, registradas, reproduzidas e difundidas com maior escala, rapidez, intensidade e carga dramática. De outro lado, repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas, poetas, cantores, turistas, radialistas e publicitários varreram o mundo e alimentaram a opinião pública com imagens, alegorias, trabalhos artísticos, gestos, atitudes, frases, observações, comentários e testemunhos de situações sociais inaceitáveis, algumas,inimagináveis.

A intolerância ao sofrimento humano e a sua percepção em escala mundial deram impulso a sentimentos humanos universais, fortalecidos pelo senso de injustiça, o desejo de sua superação e a defesa de valores e atos humanitários. A Declaração Universal dos Direitos Humanos tornara evidente esta angústia no seio da Organização das Nações Unidas, já em 1948. Em escala regional, imagens e relatos da guerra no Vietnã, da pobreza na África, da discriminação racial nos EUA, da opressão às liberdades intelectuais no bloco soviético, do desemprego e dos danos à saúde nas sociedades industriais, da repressão e da tortura sob regimes ditatoriais na América Latina, surgiam como afronta. Em escala mundial, as constantes ameaças à paz e o risco da guerra nuclear, a explosão demográfica e a poluição do meio ambiente eram resultados incontestáveis da Guerra Fria e da interdependência econômica internacional.

A intolerância ao sofrimento humano e a sua percepção em escala mundial sugeriam uma erosão do futuro. A sua retomada requeria que o mundo fosse mais humanitário. E não só, tratava-se de alcançar este ideal aqui e agora, sem contar ou esperar pela iniciativa de empresários, de homens de negócios e de governos, entregues aos seus interesses lucrativos, particulares e de poder. Em pouco tempo elevou-se a temperatura política da condenação aos padrões de sociabilidade e aos valores da sociedade industrial e de suas estruturas políticas. Trabalhadores urbanos lesados em suas condições de vida e bem estar manifestaram-se em passeatas, greves e ocupações de fábricas. Estudantes lesados em seus sonhos, comportamentos e no acesso ao mercado de trabalho reuniram-se em assembleias, festivais culturais e ocuparam escolas, universidades e as ruas.

Condenada nos corações e mentes, a sociedade industrial exibia sinais de fadiga e de esgotamento. Os impactos sobre o meio ambiente, as consequências na vida urbana, na saúde humana e nas espécies silvestres, tornavam-se evidentes. Emergiam vínculos entre interesses econômicos e violações de direitos humanos, desenvolvimento industrial no hemisfério norte e subdesenvolvimento no hemisfério sul, ostentação e arrogância dos ricos, miséria e sofrimento dos pobres.

Em 1968, conscientes de seus interesses e necessidades imediatas e futuras, senhores do dinheiro, do poder e da cultura, avaliaram as perspectivas do mundo. O relatório Limites do crescimento apontava riscos e potencialidades de reprodução social da economia industrial. Por razões distintas daquelas que debatemos hoje, constatava-se a inviabilidade e a insustentabilidade, sem mudanças drásticas no padrão de crescimento econômico mundial. Este deveria ser “congelado”, logo, de impossível realização, ou arcaríamos com o ônus de seus limites estruturais. Vivemos, nos últimos cinquenta anos, sob os altos custos sociais e ambientais desta perseverança. O lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pela ONU, em 2015, atesta o prolongamento histórico dos sofrimentos humanos, da dor e da angústia que acarretam em todo o planeta.

(*) Paulo Henrique Martinez, professor no Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis.

Triste boa notícia
A leitura é um dos maiores prazeres da vida. Mergulhar fundo no mar de palavras de belezas naturais, que ficam maravilhosas quando juntadas com maest...
Fim do Ministério do Trabalho: avanço ou supressão de direitos?
Numa eleição marcada por antagonismos e forte polarização, todo ato do presidente eleito tem sido motivo de fortes críticas, com especial endosso e e...
Brasil — Vocação para o progresso
Nas comemorações dos 129 anos da Proclamação da República, reflitamos sobre o papel do Brasil no contexto mundial, que é também o de iluminar as cons...
Eu sou eu e...
A busca de orientação para nortear nossas vidas nos proporciona caminhos os mais variados. Na medida em que essa busca se realiza por meios que se ba...


imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions