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Campo Grande, Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

18/09/2012 09:27

A caixa d’água do cerrado está secando

Por Laerte Tetila (*)

Com o foco da preocupação ambiental sempre voltado para a Amazônia, pouco se fala na devastação do nosso querido cerrado. Savana mais rica do mundo em biodiversidade, o cerrado, que também figura como o segundo maior bioma do nosso enorme país, encontra-se seriamente ameaçado.

Conforme o IBAMA, o cerrado possuía mais de 12 mil espécies vegetais e 1.174 espécies animais. E nos custa acreditar que a metade dessa belíssima formação florística já veio abaixo pelo desmatamento.

Em tempos globalizados, esse imenso bioma, com seus mais de 2 milhões de km², topografia suave – chapadas e chapadões – acabou se transformando num cenário perfeito para o avanço da chamada fronteira agrícola e, desta feita, em larga escala.

E o resultado aí está: substituição de 13 mil espécies nativas pelos monocultivos de algodão, cana, eucalipto, soja, milho e, principalmente, pela pecuária. Com base na biotecnologia e na agroexportação, o bioma cerrado já se tornou a principal área de produção de grãos, carne e leite do nosso Brasil.

Nada melhor, sob a ótica da produção de alimentos, mas um paradoxo face ao desenvolvimento com sustentabilidade ambiental (cf. ECO–92). Afinal, nos preocupa saber que o cerrado, presente em 12 unidades da federação, vem sendo o bioma brasileiro mais fortemente atingido pela devastação.

Lá se foram quase 130 mil km² do nosso cerrado, conforme o Ministério do Meio Ambiente, entre os anos de 2002 e 2008. O dobro do ocorrido na floresta Amazônica. Lamentável, mas também no nosso Estado, onde o cerrado ocupava em torno de 216.015 km², a situação é mais preocupante ainda. Tal o impacto do desmatamento legal e ilegal, para Bráulio Dias, do Ministério do Meio Ambiente, “no Mato Groso do Sul a vegetação remanescente do cerrado já está abaixo do mínimo exigido pelo Código Florestal Brasileiro”.

Ninguém tem o direito de ser contra a produção de alimentos, mas a preservação de espaços estratégicos desse bioma seria fundamental, e sob vários aspectos, sendo que, aqui, vamos ressaltar a sua importância como reserva hídrica para o país. Esse é um problema sério. Os impactos do desmatamento do cerrado sobre o sistema hidrológico do território nacional vêm sendo irreversíveis.

Detentor de enorme reserva hídrica, o bioma cerrado, com suas quase 20 mil nascentes, chegou a ser considerado o “berço das águas”, pelo seu papel crucial no abastecimento de bacias hidrográficas da maior importância: bacia Amazônica, bacia do Tocantins, bacia do São Francisco e o abastecimento da bacia do Prata (incluindo aí a bacia pantaneira).

Entretanto, com o desmatamento, essas fontes, impactadas pelo assoreamento, estão deixando de aflorar. Conforme o jornal Correio Brasiliense (edição de 24 de abril de 2011), “o bioma cerrado, essa imensa caixa d’água do Brasil, vem secando de forma dramática e com provas suficientes”. É triste mas verossímil que o cerrado, um magnífico patrimônio biológico da nação, já esteja na lista dos biomas mais ameaçados do Planeta. E não é para menos. Pesquisa realizada pela ONG CI-Brasil, com base em imagens de satélite, revela uma perda da cobertura vegetal desse bioma equivalente a quase 3 campos de futebol por minuto. Um absurdo!

E quando a questão central passa a ser a perda de reservas hídricas, eis o perigo da desertificação que ronda a imensa “área core” brasileira. Desertificação que, por impactos como esse, já destrói, conforme a ONU, cerca de 60 mil km² de terra/ano em nível mundial.

Uma perda definitiva para a humanidade. O bioma cerrado não pode acabar. O estrago seria grande demais – inclusive para o próprio agronegócio. E de nada adianta, simplesmente, reduzir a taxa de desmatamento.

Para a tão necessária recarga das reservas hídricas do solo, seria preciso que os espaços de produção se harmonizem com os espaços estratégicos de vegetação. É fundamental, também, ampliar as unidades de preservação (UPAs), pois as já implantadas até agora não passam de ilhotas na imensidão das áreas devastadas. Para o pesquisador da Universidade Federal de Goiás, Manoel Eduardo Ferreira, “se medidas de proteção não forem adotadas, o cerrado encolherá 40 mil km² por década’’. É imperativo evitarmos que isso ocorra.

(*) Laerte Tetila é mestre em geografia física pela USP e deputado estadual (PT/MS).

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