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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

21/05/2019 08:55

Acima de tudo, jornalismo é caráter

Por Rodolfo C. Martino (*)

Como fica o jornalismo nesses tempos ameaçadores? – Eis a pergunta que mais ouço por parte de alunos e ex-alunos que ainda ousam persistir no desafio de ser um profissional de imprensa. Eu aplaudo a coragem dessa moçada – e faço a ressalva.

Sinto uma falta danada do convívio tanto na sala de aula como fora dela. As conversas pelos corredores e jardins do campus, reconheço, por vezes são bem alentadoras e profícuas.

Isso posto, tento alinhavar algumas observações sobre o atual dilema da profissão que abraçamos e que hoje vive um grave momento de transição.

Pensei em escrever “que hoje vive uma crise”, mas achei a palavra forte demais – poderia desanimá-los – e, mais do que nunca, precisamos do vigor para enfrentar a realidade que ora vivemos. Não há novidade no que vou teclar a seguir.

Enumero alguns pontos que acho importantes (inclusive para clarear minhas próprias ideias). Acomodem-se que a conversa vai ser longa.

“Jornalismo é caráter”

Alguém aí pretende pôr em xeque a definição do grande Cláudio Abramo, repetida por nomes como Mino Carta e Audálio Dantas?

É intrínseco à profissão o compromisso do profissional com o público leitor e, sobretudo, com o bem comum. Como jornalistas, portanto, não fujam desse pilar. Valham-se da crítica, da contextualização dos fatos e da independência.

Acreditem na força do trabalho de vocês. Ser uno, mas apostar no coletivo. Este é o primeiro grande desafio. Os chefetes e os donos dos jornais não gostam nada. Mas, o que é que há? A verdade factual, acima de tudo!

“Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”

Gosto da contundência de Millôr Fernandes. Ela é atualíssima.

Ao remoer minhas pálidas convicções sobre os desafios do bom jornalismo, assalta-me a percepção de que há um novo tipo de imprensa em prática. Algo que obriga o profissional a ser subserviente e agradável a quem é agradável aos interesses dos Senhores da Mídia. Estes, por sua vez, são subservientes e agradáveis a interesses outros que esta ou aquela fonte possa vir a representar.

Se for assim que gira a roda viva dos nossos dias, infelizmente, meus caros, ela gira para trás… Creio que os amigos entendem o que digo, não?

“As redações estão em crise; o jornalismo, não”

Disse a frase em um dos pronunciamentos que fiz durante uma das tantas cerimônias de formatura que honrosamente pude participar ao longo do meu tempo de magistério.

Retrata o meu desalento com o jornalismo que hoje se pratica nos chamados grandes (?) e tradicionais meios de comunicação, ampla e inteiramente comprometidos com o descontrole social que vivemos há já algum tempo.

Sei que não sou (e não me arvoro ser) um Alberto Dines da análise midiática, mas acho deprimente o discurso único, maniqueísta e absurdamente tendencioso que a imprensa usou (e vem usando) na cobertura dos fatos políticos que nos afligem.

Ponho na conta dessa cobertura falaciosa o clima de ódio que hoje impera na sociedade. E mais: a falta de diálogo, o justiçamento público, o esgarçamento do tecido social, a ascensão e consolidação (querem que eu dê nomes?) de personagens que acenam com o retrocesso, entre outros fatos e atos que destroçaram o equilíbrio da opinião pública e apontam para o caos. Como jornalistas, nunca poderíamos ter corroborado para tamanho retrocesso.

“Os sonhos não envelhecem”

Busco no repertório do inesquecível Clube da Esquina a referência para dizer que os jovens jornalistas devem apostar nos sonhos, porque essa “chama não tem pavio”. Em tudo, sobrevive, resiste e se transforma o jornalismo.

As multiplataformas, possíveis e cabíveis, incentivam aos novos (e não tão novos) jornalistas que inventem o próprio espaço e deem o seu recado.

Seja em um canal no YouTube, em um blog, no Instagram, no Twitter, em uma produtora independente, em uma startup media…, enfim, as possibilidades infinitas que hoje dispomos permitem voos solos a todo aquele que quer exercer a profissão dentro dos pilares éticos e profissionais, sem vínculos empregatícios com esta ou aquela empresa.

“Mas, porém, contudo, todavia…”

Valho-me da lembrança do Irmão Fidélis, meu professor de português no colégio marista Nossa Senhora da Glória. Sei que o momento – no País e no mundo – é de desalento e de algum temor.

Faço aqui, no entanto, minha profissão de fé. Se há algum caminho a seguir este será o da fraternidade, o de nos fazermos um só povo e, não tenho dúvidas, será traçado pelas novas gerações. Será delas o protagonismo desta cena.

Nós, os mais vividos, teremos, sim, que estar juntos e lhes dar amparo. Pois nada os impedirá de seguir adiante na construção de uma sociedade mais justa e contemporânea, pois, em essência, este é o grande desafio de ser e se fazer jornalista.

(*) Rodolfo C. Martino é jornalista formado e pós-graduado pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

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