Os novos ópios
Caro(a) conviva,
Toda sociedade tem seu vício preferido, e o mais perigoso é sempre o que se disfarça de progresso.
Em meados do século XIX, o Império do Meio, a China, parecia invencível: quatro mil anos de continuidade, uma civilização que se via como centro do mundo. Não foi preciso invadi-la. Bastou a Companhia Britânica das Índias Orientais encontrar uma mercadoria capaz de escravizar sem correntes, a papoula, transformada em ópio, e distribuí-la em escala industrial pelos portos chineses.
Quando o imperador tentou reagir, queimando os estoques em Cantão, a resposta veio em canhoneiras. Foram necessárias duas guerras para consolidar aquele domínio, mas a verdadeira derrota, dizem os historiadores chineses até hoje, já havia acontecido antes do primeiro tiro: era a derrota da lucidez. Conto essa história não por erudição, mas porque ela é a chave do nosso século.
Confesso: outro dia me peguei destravando o celular pela vigésima vez em uma hora, sem motivo, sem necessidade, apenas pelo gesto. Ninguém me obrigou. Ninguém segurou minha mão. E foi nesse instante que compreendi: os impérios de hoje não precisam mais de canhoneiras. As redes sociais, os feeds calibrados por inteligência artificial, o scroll que nunca termina, são os novos ópios digitais de um império que já não precisa de exércitos para se expandir. Precisa apenas da nossa atenção, entregue de bom grado, todos os dias, em pequenas doses.
O escritor português Valter Hugo Mãe lançou recentemente O Século dos Imbecis, fábula sobre um marquês que fica mais lúcido quanto mais sobe a montanha e mais estúpido quanto mais desce ao nível do mar. É uma alegoria cruel e precisa: temos hoje acesso a mais informação do que qualquer geração humana já teve, e usamos boa parte dela para descer a montanha, não para subi-la. Trocamos a busca pelo conhecimento pelo consumo compulsivo de estímulo. Somos, em massa, o marquês na base do penhasco, convencidos de que aquilo é altitude.
Sêneca escreveu a Lucílio que o tempo é a única coisa que realmente nos pertence, e ainda assim é a que desperdiçamos com mais displicência, como se fosse infinita. Ele não previu o scroll infinito, mas o descreveu com vinte séculos de antecedência: entregamos nossas horas a quem sabe monetizá-las, e chamamos isso de lazer.
Cabe aqui uma distinção que levo a sério: nem o ópio nem a inteligência artificial são, em si, o problema. A papoula floresceu por milênios sem destruir impérios. O problema nasce quando alguém descobre que pode desenhar, deliberadamente, um mecanismo de captura, um produto pensado não para servir quem o usa, mas para capturá-lo. É essa engenharia da dependência, e não a substância, que deveria nos assustar.
E é aqui que a ciência, sozinha, falha em nos proteger: quando o único critério de valor de uma tecnologia é "ela funciona?", em vez de "ela deveria existir?", o que pode ser feito vira, automaticamente, o que deve ser feito, e foi essa mesma lógica que convenceu a Companhia das Índias Orientais de que viciar uma nação inteira era, afinal, um bom negócio.
Dito isso, e faço questão de dizer antes, não depois, o que vem a seguir não é endosso a nenhuma pauta regulatória específica. É só um fato que me parece relevante demais para ignorar.
Nas últimas semanas, o senador americano Bernie Sanders enviou cartas aos principais líderes da inteligência artificial, Sam Altman, da OpenAI; Dario Amodei, da Anthropic; e Mark Zuckerberg, da Meta, cobrando a suspensão temporária do desenvolvimento de sistemas de altíssima escala. Ele não inventou uma exigência nova: apenas pediu que essas empresas honrassem promessas que já haviam feito publicamente, de frear o avanço caso perdessem a capacidade de controlar o que estavam criando. "Parem de construir máquinas que os humanos não conseguem controlar", escreveu, avisando que o Senado agiria caso isso não acontecesse.
Essa carta expõe uma pergunta que nenhum de nós, executivos, professores, pais, deveria terceirizar para políticos ou para o Vale do Silício: vale a pena continuar esse avanço desenfreado, na velocidade e na direção em que ele acontece hoje?
Não é uma pergunta contra o progresso. É uma pergunta sobre lucidez. A China do século XIX não foi derrotada pela modernidade britânica; foi derrotada pela própria passividade diante de um vício que parecia, no início, inofensivo, quase medicinal. Talvez a única diferença entre nós e aquele império seja que ainda temos tempo, pouco, mas temos, para decidir se subimos a montanha ou continuamos descendo, tela após tela, rumo ao nível do mar.
Pense nisso.
(*) Gillianno Mazzetto é filósofo e doutor em psicologia
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