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Adeus, Jospin

Por Daniel Afonso da Silva (*) | 27/05/2026 08:09

A morte de Lionel Jospin (1937-2026) – sucedida no último 22 de março de 2026 – sacramentou o desaparecimento de um dos maiores tenores da esquerda socialista francesa e mundial dos últimos cinquenta anos. Herdeiro e guardião da essência do Partido Socialista que conduziu François Mitterrand (1916-1996) à presidência da França em 1981, ele foi a referência moral, cultural, intelectual, política e técnica de uma certa ideia da esquerda no poder.

Primeiro-secretário do Partido Socialista, ministro da Educação, candidato à Presidência da República em 1995, primeiro-ministro francês de 1997 a 2002 e novamente candidato à Presidência da República em 2002, ao lado de Michel Rocard (1930-2016), ele foi, seguramente, o último inventariante do desejo de uma esquerda francesa unida.

Determinante para o sucesso presidencial dos socialistas em 1981, ele ajudou a superar o monopólio gaullista sob a Quinta República Francesa, protagonizando o retorno simbólico da esquerda ao Élysée após 1936.

François Mitterrand disputara as presidenciais de 1965 ante o general De Gaulle (1890-1970) e as de 1974 ante Vallery Giscard d’Estaing (1926-2020) conseguindo aceder ao poder supremo apenas no pleito de 1981. Produzindo um momento mágico para a França e para o mundo. Verdadeiro turning point.

A guerra fria era uma realidade. A União Soviética seguia ereta e pujante. A revolução iraniana e a invasão do Afeganistão eram aguarrás do tempo. A tensão Leste-Oeste seguia viva como nunca. As hesitações do presidente Jimmy Carter (1924-2024) haviam permitido a ascensão de Ronald Reagan (1911-2004) à presidência dos Estados Unidos tanto quanto a entropia social britânica tinha possibilitado a chegada de Margareth Thatcher (1925-2013) à 10 Downing Street em Londres. De modo que o mundo vivia um momento complexo, diverso e desafiador.

Reagan e Thatcher vinham promovendo uma ampla renovação da ambiência política no Ocidente através de tônicas liberais e liberalizantes, notadamente no plano econômico. Reafirmando, assim, o embate consistente entre o Mundo Livre e o Mundo Socialista. E, conseguintemente, pressionando densamente as esquerdas ao ostracismo.

Nesse contexto, o sucesso dos socialistas na França representou uma nítida alteração de tendência. Uma das principais democracias do mundo passava à condição de contraponto ideológico e moral àquilo tudo.

François Mitterrand e os socialistas permaneceriam no poder até 1995 e forjariam uma verdadeira mudança de mundos.

Primeiro na França.

Adiante na Europa.

E, por fim, em todas as partes.

A chamada “geração Mitterrand” simbolizou a chegada da geração babyboomer e dos representantes de maio de 1968 ao poder na França. No campo europeu, a forte aproximação com a Alemanha acelerou a abertura do Muro de Berlim e a concretização dos acordos de Maastricht que dariam vazão à transição da Europa de nações à União Europeia, à zona do euro e a certa ideia de soberania europeia. No espaço planetário, aos pés do Muro, essa França socialista serviu de fator de acomodação para as trepidações angustiantes do desaparecimento do socialismo real que tangia o mundo desde 1917.

A presença de Lionel Jospin nisso tudo foi mais que significativa. Foi decisiva e espetacular.

Diplomata e quadro do Quai d’Orsay na origem, ele conhecia como ninguém as rolagens do mundo assim como as suas sensibilidades. Atuando, conseguintemente, com perícia e devoção. E, assim, representando certo elo perdido entre socialistas e antagonistas em todas as partes de todos os continentes. Especialmente porque, naqueles tempos, a França ainda significava muito para muitos.

Com a aproximação do fim do segundo mandato da presidência de François Mitterrand, Lionel Jospin foi ungido o líder natural dos socialistas para disputar a sucessão presidencial contra Jacques Chirac (1931-2019).

Jacques Chirac era o expoente do partido gaullista e havia sido derrotado nas presidenciais de 1981 e 1988 ante François Mitterrand. Mais que isso, além de maire de Paris, ele havia sido Primeiro-Ministro de François Mitterrand durante a primeira coabitação francesa levada a curso entre 1986 e 1988 e, agora, mais forte e mais determinado, ele vinha com determinação redobrada para disputar o Élysée ante Lionel Jospin, o principal herdeiro político dos socialistas.

Não foi simples. Mas Jacques Chirac levou a melhor.

Esse insucesso dos socialistas em 1995 e a morte de François Mitterrand em 1996 impuseram a Lionel Jospin a responsabilidade de conter a dispersão das esquerdas e sobretudo a guerra de chefes no interior do Partido Socialista. Uma tarefa nada trivial. Mas que se mostrou exitosa. Especialmente ao permitir a conquista da maioria parlamentar dos socialistas no pleito legislativo de 1997, após a fatídica dissolução da Assembleia Nacional.

Essa situação induziu o presidente Jacques Chirac a formular uma nova coabitação, convocando o líder dos socialistas, no caso, Lionel Jospin, para a condição de primeiro-ministro.

Nessa condição de 1997 a 2002, Lionel Jospin mobilizou todas as tendências comunistas, socialistas e ecologistas para compor os ministérios e afirmar isso que se convencionou chamar de esquerdas plurais no poder. O que marcaria profundamente a história das esquerdas francesas e ladrilharia o seu nome como favorito para as presidenciais de 2002.

Também desse período advieram numerosas reformas estruturais na França. Entre elas, o estabelecimento do regime de trabalho de 35 horas semanais e a manutenção de um crescimento econômico superior a 2% ao ano, feito que não mais voltaria a ocorrer.

Candidato favorito ante Jacques Chirac em 2002, portanto, Lionel Jospin acabou eliminado, ainda em primeiro turno, pela ascensão fulgurante de Jean-Marie Le Pen (1928-2025). Consequentemente, ele decidiu retirar-se da vida política, pondo fim a uma das trajetórias socialistas mais ricas e exemplares de todos os tempos.

Uma trajetória singular. Que começou no trotskismo, moveu-se ao socialismo e afirmou-se como paradigma de integridade e rigor da esquerda no debate público, na oposição e no poder.

Por tudo isso, esquerdistas e não esquerdistas amanheceram comovidos na segunda-feira, 23 de março de 2026.

A notícia da morte de Lionel Jospin avivou instantaneamente a nostalgia de um tempo que não existe mais. Um tempo em que a política era altaneira e exigia de seus agentes verdadeiros atributos de inteligência, decência e competência. Um tempo em que a política não era para amadores tampouco oportunistas.

A ejecção de Lionel Jospin da política em 2002 simbolizou o início de certa normalização da mediocridade na política em geral e na ação das esquerdas em particular. Os agentes políticos – notadamente franceses – foram progressivamente diminuindo em estatura, qualidade, inteligência e convicção. As esquerdas perderam a sua capacidade de harmonização e o Partido Socialista sucumbiu às misérias do cotidiano. Trazendo a França a esse malaise hodierno insistente de uma sociedade cada vez mais fraturada, mais desesperada e mais enojada com a política e com os seus políticos.

Lionel Jospin faz falta. Doravante, ainda mais.

Adeus, Jospin.

(*) Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP

 

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