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Alguns encontros entre arte e vacina

Por Carolina Rezende e Edson Leite (*) | 12/03/2021 13:27

Se pensarmos em fragmentos de tempos pretéritos e atuais relacionados à vacina, podemos encontrá-los, em várias ocasiões, refletidos na arte. E, por meio dela, revelam-se histórias, crenças, informações falsas, esperanças, além de um caminho de expressiva importância para a saúde mundial. Assim, obras produzidas no século XIX, bem como manifestações artísticas contemporâneas — a fotografia e a arte urbana emergem com significativa presença neste texto — são exemplos, aqui, da repercussão de contextos onde vacina e arte se aproximaram. E é possível perceber muito do passado no presente.

Em 1884, o pintor francês Eugène-Ernest Hillemacher deu tons à obra Edward Jenner vaccinating a boy. Nessa pintura em óleo sobre tela, a cena se desenrola no interior de uma casa simples, com tijolos acinzentados, berço de madeira próximo às figuras centrais e bules pretos pendurados em uma espécie de prateleira. No centro da imagem, vestida com saia volumosa em tom terroso, avental azul, duas peças de vestuário na parte superior e cabelos adornados por um toucado branco, a mulher segura o pequeno garoto, quase desnudo, não fosse por um tecido que encobre parte de seu corpo. Ao lado do menino está o médico inglês Edward Jenner, que segura firmemente o braço esquerdo da criança e nela insere uma substância, sob os olhares atentos de um homem e de uma menina mais velha. Ao fundo estão dois animais, possivelmente vacas, além de palhas no pilar de sustentação.

Em 1796, quando a varíola ainda atormentava o mundo, carregando uma expressiva taxa de mortalidade, bem como ocasionando temíveis erupções na pele, levando à desfiguração, Jenner, fazendo uso de conhecimentos existentes naquele tempo, além de observações, em relevante experimentação, extraiu fragmentos da pústula provocada pela varíola bovina em uma mulher que ordenhava vacas e estava infectada por tal doença, inserindo-os em um menino. Tempos depois, o médico inoculou naquele garoto o líquido retirado de uma ferida de varíola, no entanto a criança, protegida pelo procedimento anterior, não desenvolveu a forma humana da doença infecciosa.

A vacina de Jenner – que foi a primeira desenvolvida com sucesso contra a varíola – encontrou resistências, provenientes, também, do desconhecimento, de alegações falsas e do medo. Na gravura satírica The Cow-Pock-or-the Wonderful Effects of the New Inoculation!, de 1802, de James Gillray, o médico, prestes a vacinar uma mulher, tem ao seu redor diversos pacientes que, de maneira ilógica, sustentam nas peles erupções no formato de vaca.

Com o transcurso do tempo, é importante destacar, sobreveio o aprimoramento do conhecimento científico. Em maio de 1980, a Organização Mundial da Saúde (OMS) celebrou a erradicação da varíola, uma conquista que se tornou possível graças ao intenso programa de vacinação e à cooperação global executados ao longo de anos.

Na fotografia contemporânea, apesar da vacina não aparecer diretamente na série Marcados, 1981/1983, da fotógrafa suíça Claudia Andujar, ela se reflete indiretamente e de forma relevante. A artista, que mora no Brasil desde os anos 1950, viveu por algum tempo com os Yanomami, na região de Catrimani, em Roraima, construindo com eles uma relação. Ocorre que, nos anos 1970, com a construção da rodovia federal Perimetral Norte e a presença de garimpeiros na região, doenças infecciosas chegaram aos indígenas (que, sem imunidade, sofreram uma severa mortandade de seu povo).

Nos idos de 1980, Andujar e dois médicos dirigiram-se à terra Yanomami, na Amazônia, para a vacinação dos indígenas. Em preto e branco, a série de fotografias Marcados repercute o período em que a saúde era uma área crucial a ser tratada. Com o olhar expressivo, fitando a câmera fotográfica, segurando a criança no colo ou esboçando um sorriso tímido, os indígenas foram fotografados por Andujar. Os Yanomami usavam no pescoço, como se fossem colares, placas numeradas; essa numeração e as fotografias foram os modos encontrados para a identificação e cadastramento dos indígenas, possibilitando, assim, o recebimento da vacinação. Décadas depois da realização das fotografias, estas alcançaram o mundo da arte. E, nessa esfera, em uma leitura da obra, pode-se relacioná-la e diferenciá-la, contudo de maneira positiva, de experiências precedentes da própria fotógrafa. De origem judaica, Andujar, ainda adolescente, aos 13 anos, perdeu parte da família, que foi levada para campos de concentração. Se confrontarmos com os tempos sombrios decorrentes das atrocidades nazistas, onde pessoas viravam números (ou símbolos) que podiam servir de marcação para a morte, os números naquelas fotografias de Andujar, ao contrário, representavam a marcação para a vida. A vacinação trazia aos corpos dos Yanomami a imunização que precisavam para viver: “marcados para viver”, como assinalado, em 2005, por ocasião de exposição da fotógrafa.

A primeira vacina contra a poliomielite surgiu em 1955. Antes da imunização, a doença atingiu especialmente crianças em todo o mundo, tirando de muitas delas a capacidade de andar, de respirar sozinhas, de morar com a família ou de viver. A artista Frida Kahlo foi uma das vítimas da doença. Nascida em 1907, quando a vacina era inexistente, a artista teve poliomielite aos seis anos; como consequência da doença: o pé esquerdo atrofiado e a perna direita muito fina, fato que lhe rendeu o apelido, quando criança, de “Frida da perna de pau”. As compridas saias mexicanas que a artista usava, e percebidas em várias de suas obras, eram um meio de esconder as sequelas da infecção e o sofrimento que suportava.

A criança pequena, com a cabeça amparada por uma mulher, recebe a vacina em gotas contra a poliomielite, na aldeia de Sabbatum, Somália. Na sua direção, reverbera-se uma profusão de olhares, a maioria infantis. A fotografia, em preto e branco, é do fotógrafo Sebastião Salgado. Em 2001, Salgado se uniu ao empenho mundial para a eliminação global da poliomielite, ocasionada pelo contagioso poliovírus selvagem, que pode levar à paralisia irreversível e à morte. O fotógrafo percorreu países endêmicos — à época —, como Índia, Paquistão, República Democrática do Congo, Somália e Sudão, onde presenciou o expressivo esforço para a exterminação da doença, que unia profissionais da saúde e voluntários — efeito da Iniciativa Global para a Erradicação da Pólio (GPEI), iniciada em 1988 — em imensa campanha de vacinação contra a doença infecciosa.

O Brasil, após campanhas de vacinação em massa, foi certificado como livre da pólio em 1994. Em 2003, Afeganistão, Egito, Índia, Nigéria, Níger, Paquistão e Somália eram os únicos países onde a poliomielite permanecia endêmica. A continuação da vacinação massiva e a vigilância são formas para libertar o planeta dessa terrível doença viral. Uma questão humanitária. Em agosto de 2020, somente Paquistão e Afeganistão ainda transmitiam o poliovírus selvagem. No entanto, apesar da diminuição de casos da aludida doença (graças à ampla cobertura vacinal e aos esforços mundiais para a erradicação da poliomielite), a vacinação é de extrema importância para a proteção contra o vírus. Para que pessoas não sejam impedidas de correr, de andar, de se movimentar e de viver.

Com a pandemia da covid-19, manifestações artísticas repercutem a importância da vacinação. Em 2020, um muro em Nápoles, Itália, foi escolhido como suporte para duas imagens de San Gennaro (também conhecido, no Brasil, como São Januário), protetor daquela cidade. As obras, criadas digitalmente, impressas em papel e coladas no muro, lado a lado, são do artista urbano italiano conhecido como Flase. Na primeira, San Gennaro aparece vestido, em tons de amarelo e alaranjado, com o manto e a mitra (paramento litúrgico, de forma cônica, para a cabeça), além de usar máscara de proteção facial contra o novo coronavírus. Com a mão direita, o santo faz um gesto que remete a um movimento oriundo da Antiguidade, ligado à retórica clássica e que entrou no universo cristão. Como se quisesse dizer algo e, para tanto, pedisse atenção. Talvez para muitos a mão direita levemente levantada do santo possa, ainda, ser interpretada como uma bênção dada à cidade da qual é o protetor. Na segunda figura, San Gennaro, vestindo paramentos religiosos na cor laranja, detalhes dourados e crucifixo no pescoço, segura um tubo de ensaio preenchido com líquido vermelho escuro. Uma etiqueta amarrada ao tubo indica a palavra “vacina”. Na época em que a obra foi criada, ainda não havia vacina contra a covid-19, mas esperava-se muito por ela. Nesse contexto, talvez o líquido vermelho da vacina na mão de San Gennaro pudesse simbolizar fé e confiança. Vale lembrar que a Itália, no início da pandemia, foi um dos países muito afetados. Além disso, a San Gennaro atribui-se vários milagres.

Com base na tradição, acredita-se que o santo teve, após o seu martírio e morte no século IV d.C., o sangue colhido e armazenado no interior de duas ampolas. Em Nápoles, a fé em San Gennaro é grande. Em 1527, a cidade fez um voto com o santo, firmado por contrato notarial — porque no período entre 1526 e aquele ano, eventos como guerra, erupções do Vesúvio e epidemia afligiam e tiravam a esperança da população. Pediram ao santo proteção. Em agradecimento, seria construída uma nova capela na catedral, onde seriam alocados o tesouro, bem como as relíquias do santo. A capela foi inaugurada em 1646. Ademais, destaca-se o fenômeno da liquefação do sangue de San Gennaro, quando, em alguns momentos, a substância sólida, que os fiéis acreditam se tratar do sangue do santo, transforma-se em líquido, evento conhecido como “o milagre” de San Gennaro, e sinal de bom presságio. Dito isto, em uma possível leitura da obra do artista urbano Flase, pode-se associar a substância avermelhada do tubo de ensaio (a vacina tão esperada) com o “milagre” da liquefação, simbolizando fé e esperança.

No segundo semestre de 2020, a obra colocada em um suporte rente a uma parede de Roma, Itália, traz a imagem de Santo Estevão envolto em vestimenta que parece misturar tons de verde e azul. O santo carrega um incensário na mão direita, enquanto, com a esquerda, aperta uma seringa que emana uma substância alaranjada. Nas laterais da imagem, é possível ler: “Sagrada Vacina”. Feita pelo artista urbano Mauro Pallotta, conhecido como Maupal, a obra também remete às criações de artistas bizantinos, trazendo alguns elementos daquela arte, como frontalidade e bidimensionalidade, além do fundo que remete ao dourado (em uma simbologia de cores, na arte bizantina, o céu dourado do fundo tinha ligação com a salvação).

Perto do Natal de 2020, em uma parede de Barcelona, Espanha, o artista urbano conhecido como Tvboy apresentou a imagem de um Papai Noel vestido de verde, gorro e luvas azuis. Com a lata de spray vermelha, a figura natalina substitui a palavra Navidad, de Feliz Navidad, por Sanidad (algo como trocar a palavra “Natal” por “Saúde”); enquanto, no ombro esquerdo, sustenta um saco amarelo com os dizeres: “Vacina para a covid-19”. Em sua conta no Instagram, o artista ressaltou: “Querido Papai Noel, você já sabe…”.

No Brasil, ao longo do segundo semestre de 2020, o artista urbano Eduardo Kobra apresentou, nas suas redes sociais, obras que destacam a vacina para o combate da covid-19. Em uma delas, o recipiente que guarda a vacina está aberto e parte da substância líquida, que preenche o seu interior, toma forma de uma ave a alçar voo, talvez uma pomba, como se buscasse encontrar a liberdade. Ao fundo estão as formas geométricas, características dos trabalhos do artista, remetendo ao mapa do mundo. Na outra imagem, o invólucro aberto da vacina liberta várias borboletas. Cada uma delas alude a um país diferente. A representante do Brasil está pousada bem perto do vidro da vacina. No fundo da obra, os elementos geométricos lembram uma borboleta maior. A borboleta pode simbolizar muitas coisas, a depender do povo, da cultura, da religião, da região. Sua metamorfose pode simbolizar a transformação. Desse modo, talvez a obra do artista diga muito sobre mudança, conhecimento científico, proteção, liberdade e esperança atrelados, no nosso tempo, à importância do espírito cívico e da vacinação massiva.

Arte e ciência não são antagônicas, mas complementares. Unidas elas podem induzir à fé e à esperança. Podem testemunhar a história, denunciar injustiças, elevar o sublime e trazer à tona o que há de melhor no ser humano. A abordagem de vacinas, por meio da arte, contribui para expressar o passado, aproximá-lo do presente, bem como fortificar a relevância da imunização em massa para conter a disseminação de doenças e salvar vidas.


(*) Carolina Rezende é mestranda do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte (PGEHA) da USP e Edson Leite é professor titular do Museu de Arte Contemporânea da USP e do PGEHA-USP

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