ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
FEVEREIRO, QUINTA  05    CAMPO GRANDE 26º

Capital

Policial muda versão sobre "dinheiro de muamba" e bota culpa em TDAH

Em juízo, acusados de participar de esquema de desvio de contrabando apreendido contaram histórias diferentes

Por Anahi Zurutuza e Bruna Marques | 05/02/2026 18:21
Policial muda versão sobre "dinheiro de muamba" e bota culpa em TDAH
Na tela, o policial civil Augusto Torres Galvão Florindo, que depôs por videocoferência (Foto: Renan Kubota)

Em frente ao juiz Luiz Augusto Iamassaki Fiorentini, da 5ª Vara Federal de Campo Grande, o investigador afastado Augusto Torres Galvão Florindo, preso em flagrante pela Polícia Federal com R$ 130 mil que seriam de origem ilícita, mudou completamente a versão dada no interrogatório em solo policial. O agente da Polícia Civil, conhecido como "Paraíba", disse não se lembra de nada do que contou ao delegado da PF, Marcelo Alexandre de Oliveira, porque trata de TDAH (Transtorno de Defict de Atenção e Hiperatividade) e ansiedade crônica. Afirmou que, na ocasião, estava “no limite”.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Um policial civil, preso pela Polícia Federal com R$ 130 mil em Campo Grande, mudou sua versão sobre a origem do dinheiro durante depoimento judicial. Inicialmente, Augusto Torres Galvão Florindo admitiu envolvimento com contrabando, mas depois alegou não se lembrar do depoimento devido ao TDAH e ansiedade crônica. Em audiência, o investigador afirmou que fazia apenas um serviço de segurança particular, transportando valores por R$ 2 mil. O caso envolve ainda um ex-guarda civil metropolitano e sua esposa, que apresentaram versões contraditórias sobre a origem e destino do dinheiro. Os três respondem por crimes de corrupção.

Lotado na Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Bancos, Assaltos e Sequestros) desde 2023 e integrante da Polícia Civil desde 2014, Augusto foi preso no estacionamento de um atacadista, na Avenida dos Cafezais, em Campo Grande, enquanto recebia dinheiro das mãos do ex-guarda civil metropolitano Marcelo Raimundo da Silva, contrabandista “contumaz”, como descreveu o delegado da PF à época. A investigação indicou que o pagamento seria por mercadorias apreendidas e desviadas pelo policial.

Durante o depoimento à PF, o policial civil afirmou que havia ido ao local apenas para receber o dinheiro referente à venda de aparelhos eletrônicos e cigarros eletrônicos contrabandeados, negociados com o ex-guarda. O investigador da Garras afirmou ainda que não foi ele o responsável pela negociação com Marcelo. “Não fui eu que vendi. Eu era o responsável por pegar a venda”.

Ainda no interrogatório, ao ser questionado sobre o envolvimento de outros policiais, ele se esquivou. “Quer contar quem vendeu?”, questiona o delegado, que recebe resposta negativa. “Não, senhor”.

Logo depois, ele explica como integrantes do esquema “trabalham”. “Com as informações de pessoas que estavam trazendo [produtos irregulares], a gente fez a abordagem e acabou apreendendo”.

O delegado afirma que, neste caso, ficou claro que há outros envolvidos e, mais uma vez, Augusto despista. “Não disse isso, Dr.”, afirma rindo e completa que prefere não comentar o assunto, conforme gravação do depoimento ao qual o Campo Grande News teve acesso.

O policial civil declarou ainda que receberia R$ 130 mil, dos quais ficaria com cerca de R$ 7 mil, porque “não é ganancioso”. Informou também que era a primeira vez que conversava com o ex-GCM. “A gente sabe que é errado... estava fácil”, disse, alegando arrependimento. Além dos R$ 130 mil em espécie numa sacola, policiais federais encontraram outros R$ 20 mil no console do carro de Augusto.

Policial muda versão sobre "dinheiro de muamba" e bota culpa em TDAH
Rindo no depoimento à PF, o investigador negou-se a entregar outros participantes de suposto esquema de desvio de contrabando (Foto: Reprodução)

Em juízo – Já na tarde desta quinta-feira (5), agora que já é processado por corrupção passiva, o policial civil contou outra história. Afirmou que faz bicos de segurança particular para complementar a renda e na ocasião, havia sido contratado por R$ 2 mil para fazer o “transporte de valores”.

Ele só aceitou responder perguntas feitas pela própria advogada, Jayne Junqueira e ao ser questionado sobre o que fazia no estacionamento do supermercado, narrou a nova história. “Bico de segurança privada. Realizei vários tipos de bico de segurança, fui me especializando e o bico daquele dia era de segurança de valores de pessoas. Eu fui indicado para o Marcelo”.

O investigador afirmou que o ex-GCM se identificou como empresário e disse que precisava fazer transação comercial “sem maiores detalhes”. “O destino do dinheiro ia ser São Paulo e tinha informações de que ele passaria pra alguém esse dinheiro”.

Augusto disse que foi ele quem escolheu o local do encontro, justamente por saber que havia câmeras de segurança gravando o tempo todo. O réu também revelou que num primeiro momento da abordagem da PF achou que estava sendo assaltado. “Eu estava conversando com o Marcelo e observei eles descendo do carro, apontando arma. Eu fiz menção de pegar a minha pistola e vi o distintivo do lado. Eu fiquei muito nervoso e tenso, mas quando percebi que eram policiais levantei minhas mãos. Me revistaram e chegaram me algemando. Quando eu tentei falar que estava fazendo escolta, um dos polícias já veio me chamando de corrupto”.

Ele alega que foi interrogado sem a presença de advogado de defesa. “Em nenhum momento me deixaram chamar meu advogado e fiquei o tempo todo algemado, cerca de 6 horas”.

Muito nervoso, teria apagado o depoimento anterior da memória. “Não me recordo de nada do dia do meu depoimento. A gente vai no limite, naquele nível de ansiedade. Ainda mais eu que tenho TDAH”.

Policial muda versão sobre "dinheiro de muamba" e bota culpa em TDAH
Contrabandista “contumaz”, segundo a PF, o ex-guarda civil metropolitano Marcelo Raimundo da Silva chorou durante audiência nesta tarde e precisou ser retirado da sala (Fotos: Renan Kubota)

Contradições – O ex-GCM, que seria o comprador do contrabando desviado de delegacia, chorou em vários momentos ao longo dos depoimentos. Ouvidos separadamente, ele e a mulher, Ana Cláudia Olazar, ré na mesma ação penal, também contaram histórias diferentes.

Marcelo afirma que foi fazer o pagamento a Augusto a pedido de um terceiro. “Pediu pra Fazer um favor. Se eu podia sacar o dinheiro e passar o dinheiro pro Augusto. Fui fazer a entrega e a PF me abordou. Não conhecia ele, não sabia que ele era policial. Até fiquei surpreso quando fomos abordados e ele gritou que era policial”.

O homem diz que foi o investigador que fez contato com ele marcando o encontro. “Augusto que entrou em contato comigo. Não recebi nada pra sacar e entregar o dinheiro. Fui fazer um favor e minha vida virou uma bola de neve”.

Já a esposa afirmou que o marido trabalha com a compra e venda de veículos usados e que naquele dia adquiriria dois automóveis. “No dia que ele foi preso, fui na agência fazer o saque para ele comprar um veículo. Nessa data tinha dois veículos para ele comprar. Marcelo pediu pra eu fazer o saque de 100 mil e disse que era para compra e venda de veículo. Não disse quem era o cliente”.

Ana Cláudia narra que o marido saiu de casa por volta das 15h30 e às 20h ainda não havia voltado. Ela chegou a procurar a polícia para registrar o “desaparecimento” e já eram cerca de 23h quando descobriu que ele estava preso. “Para mim, ele tinha sido assaltado e estava morto”.

Na Justiça – Augusto e Marcelo foram presos em flagrante pela Polícia Federal, no dia 28 de novembro do ano passado. No dia 23 de dezembro, a juíza Franscielle Martins Gomes Medeiros, substituta na 5ª Vara Federal, recebeu a denúncia contra Augusto, Marcelo e Ana Cláudia.

O policial civil passou a ser réu por corrupção passiva, crime de “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem”. Já Marcelo e Ana Cláudia respondem por corrupção ativa (oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público) e concurso de pessoas (quando duas ou mais pessoas unem esforços para a prática de um crime).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.