A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

24/01/2018 13:25

Aniversário

Por Adilson Roberto Gonçalves (*)

Nasci há 50 anos e somente hoje entendo melhor o que aconteceu àquela época. Minha formação na área técnica não abria muitas possibilidades para a crítica social ou despertava curiosidade sobre o mundo em formação, tanto alimentado pelos novos ares europeus, como pelos ares plúmbeos nacionais. A criação em família sem posses, mas também sem miséria, limitava-me à massa inconsciente e passiva.

Adentrei a educação formal junto com a posse de Ernesto Geisel, vi a crise econômica dos anos 80 como adolescente, que levou o desemprego para dentro de casa, forçando-me ao início da vida conjunta de trabalho e escola. Nesse período também convivi com um primo que foi estudar na escola preparatória de cadetes do exército para, um dia quem sabe, ser presidente da república, pois isso fazia parte da carreira militar. Sua mãe – minha tia – discorria sobre a possibilidade com orgulho. Estudar Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB) era apenas um verniz para dizer que algo de Humanidades era passado aos alunos. Hoje entendo porque pouco conheço da formação histórica do povo brasileiro.

O diferencial passou a acontecer somente no Ensino Médio, naquela época chamado de Segundo Grau, ainda no final do governo militar, com um professor ex-militante do MR-8 que conseguiu subverter o sistema e introduzir verdadeira aula de formação política na disciplina OSPB. Fui apresentado à série “Primeiros Passos”, da Editora Brasiliense, e a textos que explicavam o que era o marxismo, a luta de classes, o capitalismo e outros tabus. Fato marcante da época foi o lançamento de O Capital pela editora Abril, vendido em bancas de jornal e revistas. O símbolo do comunismo sendo acessível pela prática de sucesso do capitalismo. Lembremos que a censura já ia ao fim e o general Figueiredo começava a pedir que o esquecessem.

O conhecimento mais profundo e arrebatador da época veio apenas com a leitura de 1968 – O Ano Que Não Terminou, de Zuenir Ventura. Parece uma ficção de tão bem escrito e de pensar que o relatado ali naquelas saborosas páginas era tão diferente do que me foi contado e do que a vida me permitiu vivenciar.

Jornalistas e analistas fizeram levantamento das mazelas de 2017 e impingiram a ele a pecha de um ano a ser esquecido. No entanto, defendo que o ano não é para se esquecer e, sim, para ser muito bem lembrado. Temos que digerir os fatos para entendê-los, pois o ano que se inicia tende a ser de ressaca e de congestão. No mínimo alguma nutrição deve restar para nossa sobrevivência social.

A legislação atual permitiu a introdução das disciplinas História, Geografia, Sociologia e Filosofia nos currículos escolares com ampla carga horária e até de forma exagerada, comparativamente com as de ciências da natureza (Química, Física e Biologia), mas é um resgate, ainda que tardio, da formação mais íntegra e integral do educando. Porém, face ao discurso de ódio que triunfa hoje, especialmente nas redes sociais frequentadas pelos que nasceram depois da redemocratização, fica a pergunta se essa empreitada sócio-educacional foi efetiva.

O acesso à formação social, política e econômica do país parece não servir de alerta – especialmente aos jovens – de que a história pode se repetir: vivemos um 2018 semelhante àquele então longínquo 1968, com certa euforia, ainda que tímida, mas com um governo ilegítimo que ascendeu ao poder com um discurso fantasioso. Lá, a fala era que estávamos à beira de uma invasão comunista e que os militares não poderiam entregar o poder aos civis, pois a ameaça continuava e precisavam recrudescer as ações policialescas de combate aos revolucionários, e, cá, de que as pedaladas fiscais eram o de mais cruel na gestão de contas públicas e que o governo estava corrompido e precisava ser retirado para dar fluxo ao pleito das pessoas de bem – que, na verdade, são as pessoas de bens. Em uma e em outra época, um governo legitimamente eleito foi destituído e o que restou foi apenas o reflexo da força conservadora (re)assumindo o poder. Das sombras de 1968 levamos vinte anos para sair. Das de hoje, há a chance de nelas não entrar, o que, porém, é cada vez menos provável. Se entrarmos no eclipse, a pergunta é se sairemos ainda nesta geração e completando qual aniversário: bodas de prata ou de ouro.

(*) Adilson Roberto Gonçalves é doutor em química pela Unicamp, livre-docente pela USP e pesquisador no IPBEN – Unesp em Rio Claro. 

A corda arrebenta para todos
Ao pensar na África, geralmente formamos imagens com exuberância de recursos naturais. Falta de água nos remeteria aos desertos daquele continente, e...
Os três pilares do aprendizado
A educação brasileira passa por um profundo processo de transformação com a implantação da nova Base Nacional Comum Curricular. Precisamos estar pron...
O país onde tudo é obrigatório
Nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra, as regras ou são obedecidas ou não existem, por que nessas sociedades a lei não é feita para explorar ...
Universidade pública e fundos de investimento
  A universidade pública não é gratuita, mas mantida pelos recursos dos cidadãos. E por que a Constituição brasileira escolheu determinar esse tipo d...


imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions