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31/03/2018 11:17

Antes que dê curto

Por Clauber Leite*

Só acenar com bandeira branca para o consumidor, criando tarifas diferenciadas, não resolve. Se o governo quer realmente reduzir o consumo de eletricidade no país, é preciso investir também na outra ponta da tomada. A eficiência energética é um dos caminhos mais curtos, baratos e, evidentemente, eficientes para atingir essa meta. O Brasil está prestes a adotar novos parâmetros de fabricação para a indústria de eletrodomésticos. Mas, em vez de resolver o problema de vez, o governo pretende optar por outra gambiarra.

O consumidor e o meio ambiente pagam o prejuízo: a conta de luz vem subindo acima da inflação. E, como a crise hídrica tem forçado o acionamento de termelétricas, os níveis de emissões de gases poluentes também crescem. O cidadão fluminense está em choque: seus boletos chegaram com aumentos muito acima da inflação de 2017, que foi de 2,95%. No caso dos moradores da capital, 9,09%, e nos demais municípios do Estado do Rio de Janeiro, 21,46%. Light e Enel Rio põem a culpa na falta de chuvas no ano passado.

Quem tem olho grande não entra na China, diz a máxima. E, neste caso, é pura verdade: um ar-condicionado fabricado aqui não seria vendido naquele país, pois nosso grau de exigência é bem menor. Para nos aproximarmos de níveis razoáveis, o Comitê Gestor de Indicadores de Eficiência Energética (CGIEE) propôs uma nova regulamentação, mudando os coeficientes para aparelhos de refrigeração dos atuais 2,60W/W para 2,81W/W e, depois, de 2,81W/W para 3,02W/W. Para se ter uma ideia, no Japão, os padrões mínimos pularam de 2,55 para 5,10 entre 1995 e 2005. Ou seja, uma melhoria de 100%, a uma taxa de 7,2% ao ano. Na Coreia do Sul, a melhoria de 100% aconteceu entre 2008 a 2015. No Brasil, se forem aprovados os níveis propostos agora, seria de apenas 26% em 11 anos.

Cerca de 70% dos modelos de aparelhos split aprovados pelo Inmetro já atenderiam ao grau de eficiência proposto. Ou seja, praticamente vamos mudar para continuar na mesma. Mesmo em países com nível de desenvolvimento semelhante ao do Brasil, há no mercado oferta de aparelhos mais eficientes. Ainda que custem um pouco mais caro, eles acabam “se pagando” a prazo, com a redução na conta de luz. Não há por que o Brasil não se equiparar ao patamar tecnológico desses países. Afinal, a indústria de refrigeração é multinacional: as mesmas empresas que fabricam produtos obsoletos aqui vendem modelos mais eficientes em outros mercados.

Hoje, os aparelhos de ar-condicionado são também comuns nos lares de classe média baixa. A indústria argumenta que equipamentos mais eficientes custariam mais caro, o que, num período de crise econômica, poderia ser um desastre para o setor. Mas exemplos de fora mostram que isso não é regra. No Japão aconteceu o contrário: os preços caíram pela metade entre 1995 e 2008, enquanto a eficiência energética melhorou 180%. Precisamos resolver esse problema definitivamente. E para já, antes que dê curto.

*Clauber Leite, pesquisador em Energia do Idec

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