Produzir etanol de milho é mais vantajoso no Brasil do que nos EUA
MS é o 2º maior produtor do País, com 2,1 bilhões de litros e crescimento de 33,9% na safra

Produzir etanol de milho é mais vantajoso no Brasil do que nos Estados Unidos. É o que mostra uma análise do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), que comparou margens estimadas das usinas brasileiras e norte-americanas entre janeiro de 2020 e junho de 2026.
RESUMO
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A vantagem se refere ao retorno bruto obtido com a venda de etanol, DDG (grãos secos de destilaria) e óleo de milho após o desconto do custo do cereal. Segundo os pesquisadores, a oferta de milho a preços competitivos e a maior participação dos coprodutos na receita das usinas brasileiras ajudam a explicar a diferença.
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A análise foi elaborada por Lucilio Rogerio Aparecido Alves, professor da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP (Universidade de São Paulo), e pesquisador responsável pelas equipes de Grãos, Fibras e Amidos do Cepea; Lucas Moraes, graduando em Economia e Matemática na Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos; e André Luis Ramos Sanches, pesquisador da área de milho do Cepea.
A comparação se tornou possível com o avanço da produção brasileira de etanol de milho. Os Estados Unidos consolidaram sua indústria a partir da abundância do cereal na região conhecida como Corn Belt. No Brasil, a expansão da atividade no Centro-Oeste, com o uso do mesmo processo de moagem adotado pelas usinas norte-americanas, permitiu a comparação.
Os pesquisadores estimaram quanto as usinas dos dois países arrecadaram com a venda de etanol, DDG (grãos secos de destilaria, na tradução para o português) e óleo de milho depois de descontar o custo do cereal utilizado na produção.
No cálculo do Cepea, o retorno bruto médio sobre o custo do milho foi de 72% no Brasil entre janeiro de 2020 e junho de 2026. Isso significa que o valor obtido com etanol, DDG e óleo de milho, depois de recuperado o gasto com o grão, correspondeu a 72% desse custo. Nos Estados Unidos, o retorno médio foi de 44,5%.
A margem bruta também foi maior no Brasil. Depois do desconto do milho, permaneceu, em média, 40,7% da receita combinada com etanol e coprodutos. Nos Estados Unidos, essa parcela ficou em 30,1%. O cálculo não considera os demais custos de produção e, portanto, não representa o lucro final das usinas.
O indicador brasileiro ficou acima do norte-americano na maioria dos meses analisados. As exceções foram abril e maio de 2020, de setembro a novembro de 2020, abril de 2021, março de 2025 e junho de 2026.
Milho e coprodutos explicam vantagem
Uma das razões apontadas para a estimativa brasileira é o milho a preços competitivos, especialmente nas regiões produtoras do Cerrado. Com o avanço do etanol de milho, a segunda safra tornou-se uma parte importante da demanda interna pelo cereal.
Os coprodutos também têm peso relevante na receita. Além do etanol, o processamento do milho gera DDG, utilizado principalmente na alimentação animal, e óleo de milho.
No levantamento do Cepea, considerou-se que uma tonelada de milho rende 440 litros de etanol nos dois países. No Brasil, essa quantidade também gera 331 quilos de DDG e 20,4 litros de óleo. Nos Estados Unidos, são 303,6 quilos de DDG e 13,4 litros de óleo.
O DDG respondeu, em média, por 25,9% da receita no estudo brasileiro, contra 19,7% nos Estados Unidos. O óleo representou 6% da receita no Brasil e 5,4% no mercado norte-americano.
O etanol respondeu por 68,1% da receita brasileira e por 75% da norte-americana. Os números mostram que os coprodutos tiveram participação proporcionalmente maior na composição da receita no Brasil.
Resultado se inverte em junho
Em junho de 2026, os Estados Unidos registraram retorno de 78% sobre o custo do milho, acima dos 65% observados no Brasil. Foi a primeira vantagem norte-americana desde março de 2025.
A mudança foi influenciada pela alta de 55% do óleo de milho nos Estados Unidos durante o primeiro semestre, impulsionada pela demanda por combustível renovável. No Brasil, o preço do etanol caiu 28% em seis meses, enquanto o DDG recuou 7%. Os pesquisadores ponderam que o resultado de apenas um mês não permite afirmar que houve uma mudança permanente na competitividade entre os dois países.
A pesquisa utiliza como referência os preços praticados no norte de Mato Grosso. Os resultados do Cepea não representam o lucro final das empresas. O cálculo considera a receita obtida com etanol, DDG e óleo e desconta somente o valor gasto com o milho.
A análise não contemplou outros custos, como o uso de biomassa no Brasil e de gás natural nos Estados Unidos. Também não considerou a venda de energia excedente nem as receitas com CBIOs (créditos de descarbonização).
MS é o segundo maior produtor
Mato Grosso do Sul é um exemplo da expansão da indústria de etanol de milho no País. O Estado ocupa a segunda posição nacional na produção do biocombustível a partir do cereal.
Na safra 2025/2026, as usinas sul-mato-grossenses fabricaram 2,128 bilhões de litros, volume 33,9% superior ao da temporada anterior, quando a produção atingiu 1,589 bilhão de litros.
Com esse resultado, Mato Grosso do Sul respondeu por 20,92%, aproximadamente um quinto, dos 10,173 bilhões de litros produzidos no Brasil durante o ciclo.
O combustível fabricado com milho representou 43,21% dos 4,925 bilhões de litros de etanol produzidos no Estado, considerando também a produção feita a partir da cana-de-açúcar.
Mato Grosso do Sul possui atualmente três usinas de etanol de milho em operação. A Inpasa mantém unidades em Sidrolândia e Dourados, enquanto a Neomille opera em Maracaju.
A produção estadual deve aumentar nos próximos anos com a implantação e a ampliação de projetos industriais.
A Atvos iniciou a implantação de sua primeira fábrica de etanol de milho, integrada à Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul. O projeto receberá investimento superior a R$ 1 bilhão e terá capacidade para processar 642 mil toneladas do cereal por ano.
A nova planta poderá produzir anualmente 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo de milho. O empreendimento também será integrado à produção de biometano.
A empresa possui ainda um segundo projeto de etanol de milho em Mato Grosso do Sul, que prevê a implantação de uma unidade semelhante na planta de Costa Rica.
A Inpasa planeja ampliar a fábrica de Sidrolândia, acrescentando 300 milhões de litros à capacidade anual. Também está prevista a construção de uma usina em Jaraguari, com capacidade estimada em 200 milhões de litros por ano.

