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Calcário líquido: geração espontânea ou milagre?

Por Por Renato Roscoe (*) | 09/07/2013 06:00

Muito se tem falado sobre o calcário líquido. Questiona-se a sua eficiência e capacidade de realmente atender ao que vem sendo divulgado por fabricantes. Afinal, calcário líquido é mesmo corretivo da acidez do solo? Seria ele eficiente?

A eficiência dos corretivos vem sendo discutida desde o início das pesquisas agrícolas no Brasil. Existe uma extensa literatura sobre o tema e são claras as normas estabelecidas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). É considerado corretivo de acidez: “produto que promove a correção da acidez do solo, além de fornecer cálcio, magnésio ou ambos”. Neste ponto, não se pode discutir que o produto chamado de “calcário líquido” enquadra-se como “corretivo de acidez”, pois efetivamente tem esse efeito.

Mas o problema não é esse. A questão está nas doses que vêm sendo recomendadas pelos fabricantes. Embora seja um corretivo de solo, nas doses recomendadas não pode alterar de forma significativa a acidez do solo e muito menos neutralizar o alumínio tóxico.

Tomando um exemplo do mercado, em que o fabricante recomenda 10 litros do produto por hectare, estariam sendo aplicados cerca de 3 (três) quilogramas de cálcio (Ca) e 1 (um) quilograma de magnésio (Mg) por hectare. Fazendo a equivalência em carbonato de cálcio (padrão do MAPA para mensuração dos corretivos), seria equivalente a pouco menos de 12 (doze) quilogramas de calcário com PRNT (Poder Relativo de Neutralização Total) de 100%!

Esse valor poderia ser dobrado caso o “calcário líquido” na realidade fosse composto por óxido de Ca e de Mg. Ou seja, na melhor das hipóteses, 10 litros desse produto equivaleriam a menos de 25 quilogramas de calcário PRNT 100%. Essas doses são absolutamente irrisórias para a correção da acidez de solos agrícolas típicos, os quais exigem com freqüência quantidades acima de 2.000 kg de calcário PRNT 100% por hectare.

Bem, mas o produto poderia ainda ser utilizado como fonte de Ca e Mg, certo? Nas doses recomendadas, também não! Dez litros do produto que estamos utilizando como exemplo trariam 3 kg de Ca e 1 kg de Mg. Uma lavoura de soja produzindo 50 sacos por hectare exporta 9 kg de Ca e 6 kg de Mg. Ou seja, 10 litros do produto seria suficiente para repor somente 33% do Ca e 15% do Mg que seriam retirados anualmente pela cultura da soja. Se o produtor ainda tiver o milho safrinha, a reposição é ainda menor!

Portanto, a aplicação de “calcário líquido” nas doses recomendadas não está contribuindo significativamente para a correção do solo e nem repondo as exportações das culturas. Nessa situação o produtor estará consumindo os estoques de Ca e Mg de seu solo. O fato de as partículas do “calcário líquido” serem pequenas o suficiente para que esse produto permaneça em suspensão em água, interfere em sua reatividade final, mas não multiplica a quantidade de Ca e Mg contida em cada litro do produto. Ainda não existe a “geração espontânea” de elementos químicos! Desconfiem de milagres...

(*) Renato Roscoe é engenheiro agrônomo, mestre em ciência do solo, doutor em environmental sciences e diretor executivo e pesquisador no setor fertilidade do solo na Fundação MS.