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06/02/2012 07:11

Civilizações Mac-Cola

Por Bruno Peron Loureiro

A crise que enfrentamos hoje não é financeira, mas civilizatória. É reducionista a afirmação de que a economia é culpada de tudo, como se ela fosse mais um atributo da natureza que regula as relações humanas. Das expressões de "comida-lixo" ao papel decepcionante das empresas por trás dos processos de transnacionalização, o déficit é das civilizações atuais.

Não só os hábitos alimentares se degradam na indigestão das marcas, mas os supostos agentes da educação ou do "processo civilizador" não sabem o que fazer com tanto poder. Perdem-se na banalidade de programas fúteis e antieducativos, quando é rádio ou televisão, ou na tentativa de controlar o conhecimento, como os fiscais de direitos autorais da internet.

Pouco importa se a referência é a um país menos ou mais civilizado, cuja categoria é tão relativa quanto o gosto e o sabor, ou se já foi colônia ou metrópole, ou se é pobre ou rico, ou se é passivo ou ativo diante do que os banqueiros fazem com o suor dos contribuintes através de suas taxas bancárias. Dizem que a culpa é sempre dos flagelados, endividados, migrantes.

A humanidade alcançou uma crise civilizatória sem precedentes.

Quando se apostava que Estados Unidos ou Europa resgataria os demais países e regiões da "barbárie" ou do "exotismo" ou do "atraso", eles mesmos se confirmam como artífices da desgraça, corsários de suas ex-colônias, espoliadores das finanças mundiais, semeadores de multiculturalismos segregacionistas, para os quais a mestiçagem é mito do "terceiro-mundo".

Nossas pretensas referências estão parados e olhando para trás.

O Estado perdeu influência em relação aos demais atores sociais no circuito global, mas não renunciou sua importância. Até mesmo Obama, chefe de Estado da mais mercadológica das nações atuais, reitera que a salvação virá das políticas públicas, que regularão os excessos neoliberais. Há que considerar que as políticas de empresas transnacionais possuem, amiúde, impacto maior que as que se elaboram no âmbito de governos. A questão que irrompe é: o que fazem com este poder?

Políticas de países economicamente avançados frequentemente são mais imperativas que as de organismos internacionais em regiões "periféricas". Em contrapartida à Organização dos Estados Americanos, a criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos abala esta relação de poder.

Noutros termos, governos nacionais e organizações internacionais perpetuam o debate sobre o desenvolvimento em função de cifras econômicas e favores políticos, em vez de levar em consideração que a noção de desenvolvimento tornou-se tão abrangente a ponto de que os aspectos culturais e societais são irrenunciáveis. A esfera da criatividade é, portanto, uma das arestas do desenvolvimento. O reconhecimento é que veio depois.

O problema maior de boa parte das civilizações atuais é o que se transmite em termos educativos de uma geração para outra. Os núcleos de ensino (casa, escola, vizinhança, etc) são cada vez mais pressionados por lógicas exógenas que fazem crer que os jovens têm todo o mundo ao seu alcance através dos meios de comunicação e outras "janelas" que se abrem para uns e se fecham para outros.

Os aparatos de "convergência digital" tornam-se tão importantes para eles a ponto de substituir as afetividades que costumam dar sentido e vincular as civilizações. Estas se resumem, deste modo, no princípio "Mac-Cola", cuja trama se estabelece no plano superficial do consumismo em detrimento da estrutura vinculante inerente ao "processo civilizatório".

É hora de rever projetos de civilização engavetados ou "entumbados" ou "arqueologizados". A América Latina possui um número de próceres pouco recordados, concepções minoritárias e autóctones (o que inclui cosmovisões ameríndias), e as contribuições do sincretismo e da mestiçagem, para seguir o presságio de "raça cósmica" do mexicano José Vasconcelos.

A tarefa poderá ser um resgate daquilo que não se desenvolveu ou uma abertura para um projeto novo e exclusivo. Nalgum destes horizontes, ideais outros que o consumismo e o culto ao exógeno deverão nortear a humanidade em suas expressões civilizatórias.

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