Internações de mulheres por alcoolismo quase triplicam em Campo Grande
Participação feminina em internações por transtornos relacionados ao álcool saltou de 9% para 25% em 17 anos
Levantamento do Campo Grande News com base em dados do SUS (Sistema Único de Saúde) mostra que, nos últimos anos, mulheres têm sido cada vez mais internadas por alcoolismo em Campo Grande.
RESUMO
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O número de mulheres internadas por alcoolismo em Campo Grande apresentou crescimento significativo nos últimos anos. Dados do Sistema Único de Saúde revelam que a participação feminina nas internações subiu de 9% para 25% em 17 anos, embora os homens ainda representem a maioria dos casos. A evolução para óbito tem sido maior entre as mulheres quando adoecem por doenças relacionadas ao álcool. Fatores como estresse, pressões sociais e desigualdade de gênero contribuem para o aumento do consumo. O tratamento está disponível em dois Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas na capital, sendo um deles com funcionamento 24 horas.
Historicamente, homens sempre lideraram estatísticas de internações e também de mortes relacionadas ao consumo de álcool, mas em 17 anos, participação feminina subiu de 9% para 25%, quase o triplo.
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Em 2025, das 44 internações registradas, 11 foram de pacientes do sexo feminino.
No início da série, entre 2008 e 2012, as mulheres representavam, em média, apenas 9,4% das internações.
Em 2009, por exemplo, ano com o maior número absoluto de casos (493 internações), apenas 45 eram femininas. O cenário começou a mudar a partir de 2020, mas foi em 2023 que a curva ganhou força: as mulheres passaram a representar 15% dos internados. Em 2025, chegaram a um quarto do total.
Essa inversão não significa que os homens estejam bebendo menos – eles ainda somam 88,7% de todas as internações do período –, mas indica que as mulheres estão adoecendo mais e buscando (ou sendo levadas a) hospitais com mais frequência.
Álcool tem matado — Embora mulheres internem menos, quando adoecem por doenças relacionadas ao álcool, a evolução para óbito tem sido maior.
Isso fica evidente nas mortes por doença alcoólica do fígado.
Em 2020 e 2022, óbitos femininos por essa causa tiveram recorde de sete mortes ao ano – o maior número absoluto desde o início da série. Em 2025, foram seis mortes.
O que está por trás do aumento? O crescimento das internações femininas por transtornos relacionados ao álcool não é um fenômeno isolado da Capital. Pesquisas nacionais e internacionais indicam que nas últimas duas décadas, mulheres têm tido mais visitas a emergências, internações e mortes pelo álcool.
Estudo publicado em 2024 no periódico JAMA Health Forum, conduzido pela Universidade de Pittsburgh com dados de mais de 14 milhões de pacientes, identificou que mulheres entre 40 e 64 anos apresentaram os maiores aumentos mensais em complicações relacionadas ao álcool, incluindo doença hepática alcoólica.
Segundo o estudo, mulheres podem ter vulnerabilidade a danos hepáticos causados pelo álcool, em razão de menor atividade da enzima álcool desidrogenase gástrica, o que resulta em níveis mais elevados de álcool no sangue após o consumo. Isso ocorre porque há menor proporção de água no organismo feminino, o que eleva a concentração de álcool no sangue.
A literatura médica chama de “telescoping” esse fenômeno, caracterizado pela progressão mais rápida da mulher para a dependência e para complicações graves.
Segundo o sistema de vigilância do Ministério da Saúde, o Vigitel, o consumo abusivo de álcool entre mulheres no Brasil praticamente dobrou nas últimas duas décadas, saltando de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023.
Conforme a Abead (Associação Brasileira de Estudos em Álcool e Drogas), o estresse causado por pressões sociais, demandas profissionais e domésticas, desigualdade de gênero e maternidade, são alguns dos fatores que levam muitas mulheres a buscar o álcool como alívio ou fuga. A pandemia de covid-19 também intensificou a tendência.
Pesquisadores também identificam que a indústria de bebidas passou a direcionar seu marketing especificamente para o público feminino, se utilizando até de discursos de empoderamento.
No Estado — Em âmbito estadual, Mato Grosso do Sul teve 7ª maior taxa de mortalidade hospitalar por doença alcoólica do fígado entre as 27 unidades da federação, segundo os mesmos dados.
A taxa sul-mato-grossense foi de 19,41 óbitos a cada 100 internações pelo agravo — acima da média nacional, de 17,67.
Quando analisado apenas o sexo masculino, o estado aparece na 8ª colocação, com taxa de mortalidade de 19,27 por 100 internações — também superior à média nacional masculina, de 17,81. Foram 4.234 internações de homens e 816 óbitos nesse recorte.
Entre mulheres, o estado registrou 131 notificações, ficando na 18ª posição. Os maiores volumes femininos foram em Pernambuco (1.687), São Paulo (1.294) e Minas Gerais (961).
As maiores taxas gerais de mortalidade do país foram registradas no Amapá (27,90), Sergipe (27,45) e Rio Grande do Norte (23,92). Na outra ponta, Espírito Santo (11,64), Piauí (13,21) e Acre (13,43) apresentaram os menores índices.
Tratamento - Dados do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, na sigla em inglês) mostram que apenas uma em cada 18 mulheres com diagnóstico de uso de substâncias está em tratamento, contra um a cada sete homens .
Helena Moura, da Abead, explica que, além da culpa e da vergonha, as mulheres têm uma rede de apoio mais frágil. Pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) em grupos de Alcoólicos Anônimos identificou que muitas mulheres não se sentem seguras em espaços mistos, por serem alvo de assédio e discriminação .
O Projeto de Lei 2.880/2023, em tramitação no Senado Federal, propõe a criação de um programa de saúde específico para mulheres alcoolistas .
Para se tratar em Campo Grande, pacientes devem ir aos CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), unidades do SUS que funcionam com regime de "porta aberta", ou seja, qualquer cidadão pode procurar ajuda diretamente, sem necessidade de encaminhamento ou agendamento prévio.
Campo Grande conta com duas unidades específicas.
A mais antiga, o CAPS AD localizado na Rua Joaquim Murtinho, 1.786, no Bairro Antônio Vendas, funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. A unidade atende crianças, adolescentes e adultos e pode ser contatada pelo telefone (67) 3314-3756.
Em outubro de 2023, a prefeitura municipal inaugurou o CAPS AD III Guanandi "Márcia Zen", na Avenida Manoel da Costa Lima, 3.272, com o objetivo de ampliar a capacidade de atendimento na cidade. A unidade funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, incluindo finais de semana e feriados, e conta com dez leitos para acolhimento noturno e desintoxicação, divididos em alas masculina e feminina. O atendimento é voltado para pessoas a partir de 16 anos.
Para casos que exigem internação hospitalar de curta permanência para desintoxicação, a rede pública disponibiliza ainda doze leitos no HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul)
O funcionamento das unidades segue um protocolo de acolhimento voluntário. Ao chegar a um dos centros, o paciente é recebido por um profissional, psicólogo ou assistente social, que realiza uma escuta inicial para avaliar a demanda.
A partir dessa avaliação, a equipe define se o caso requer acompanhamento ambulatorial no próprio CAPS, abrigamento para desintoxicação ou encaminhamento para outro ponto da rede, como uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou o HRMS. O tratamento subsequente pode incluir consultas médicas, psicoterapia e participação em oficinas e grupos terapêuticos.


