ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no Twitter Campo Grande News no Instagram
JUNHO, QUINTA  13    CAMPO GRANDE 24º

Artigos

Construir conhecimento agroecológico participativo?

Por Nina Paula Laranjeira (*) | 04/05/2024 08:30

A Agroecologia é o campo de conhecimento que, por suas características, traz a discussão sobre a participação, tão desafiadora atualmente no dia a dia da Universidade – das salas de aula aos grupos de pesquisa.

Enquanto ciência, a Agroecologia nasceu na segunda metade do século XX, quando pesquisadoras(es) da agronomia e da ecologia sistematizaram conhecimentos sobre os cultivos de povos originários e tradicionais de vários lugares da América Latina.

Desde então, a Agroecologia vem se ampliando e mostrando-se como um vasto campo de conhecimento, que abrange diversas formas de conhecer e construir conhecimento, inclusive o acadêmico.

O momento presente é de enfrentamento a desafios civilizatórios: mudanças do clima; escassez de água; novas patologias por supressão de habitats – para citar as mais debatidas na atualidade. Nos resta ter a humildade de abrir diálogo com outras formas de conhecer e de viver, em busca de alternativas, incluindo o diálogo entre as disciplinas acadêmicas.

Um elemento-chave na construção do conhecimento agroecológico passa por povos originários, comunidades tradicionais, camponesas e quilombolas e vem a cada momento se mostrando mais importante para dar resposta a várias questões do nosso tempo: trata-se do reconhecimento do papel da coletividade na construção do conhecimento. Faz parte destas culturas o trabalho coletivo, as trocas, os mutirões, a solidariedade e a cooperação.

Ainda que estas culturas tenham sido impactadas pela cultura ocidental, elas têm muito a ensinar a esta última, que se pretende universal, e que foi abraçada pela maioria de nós de forma tão natural quanto alienada. Nos faz pensar que as demais formas de conhecimento são menos importantes, atrasadas, desprezíveis, antiquadas, fadadas à extinção. Mesmo que esta forma ocidental seja também de origem local: a Europa dos séculos XVI ao XVIII.

Vivemos agora um momento de inflexão desta cultura “global”, estruturada sobre o capitalismo, o patriarcado e o racismo. Um esgotamento geral nos atinge, a começar pelos ecossistemas e nossos habitats, e também as pessoas, sobretudo aquelas excluídas dos sonhados progresso e acúmulo material.

Tal momento é muito propício para compreendermos quando e porque abraçamos uma cultura que deixou de fora parte importante da nossa nação: negros (quilombolas ou não), indígenas e camponeses não acessam as benesses deste sistema.

Essas populações, detentoras de conhecimentos importantes, sobrevivem porque lutam, porque são resistência – são o Brasil profundo! E, por sorte da nossa sociedade, resistiram. Porque são elas que nos trazem agora pistas do que perdemos com a adoção de um paradigma no qual o ser humano é capaz de subjugar a natureza e outros seres humanos, em processos individualistas e competitivos, que produzem riqueza para poucos, que concentram terras e capital, que destroem o Sistema Vida.

A Agroecologia avançou e se compreende, dentro da academia, como um novo paradigma, mas também como forma de luta dos povos e seus modos de vida e conhecimentos. Destas formas de compreensão do mundo – conhecimentos ontológica e epistemologicamente bem diferentes do ocidental – nos chega, por exemplo, a biodiversidade de alimentos e espécies medicinais, necessária para repensarmos as monoculturas alimentares de hoje, que impactam negativamente o ambiente e o clima. Nos chegam, também, os ensinamentos sobre convívio social: formas colaborativas de construir conhecimento e sociedades mais justas.

No produtivismo da ciência, pouco reflexiva e individualizada, não sabemos discordar sem agredir ou desqualificar, não sabemos construir conhecimento coletivamente, pois nos parece uma enorme perda de tempo. Precisamos aprender mais com este Brasil profundo e a Agroecologia nos chama para este aprendizado.

(*) Nina Paula Laranjeira é professora aposentada da UnB.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

Nos siga no Google Notícias